Como é o spray nasal israelense defendido por Bolsonaro

Eficácia ainda está sob avaliação, com testes apenas iniciais, mas presidente brasileiro quer que medicamento seja analisado pela Anvisa

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O presidente Jair Bolsonaro começou a propagandear um novo remédio contra a covid-19. Trata-se de um spray nasal israelense que mostrou resultados promissores em um primeiro teste com 30 pessoas.

Em seu perfil no Twitter, Bolsonaro disse na segunda-feira (15) que “brevemente será enviado à Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] o pedido de análise para uso emergencial do medicamento”. Chamado EXO-CD24, o spray foi originalmente criado para tratamento contra o câncer de ovário.

No mesmo dia, o presidente afirmou que pretende enviar uma equipe ao país do Oriente Médio para negociar a importação do medicamento para o Brasil. A declaração foi dada durante uma visita a São Francisco do Sul (SC), onde Bolsonaro provocou aglomeração de pessoas sem máscara durante uma aparição pública.

Depois, numa transmissão nas redes sociais de um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o chefe do Executivo reiterou a intenção de mandar uma missão para Israel. Também ressaltou que o spray nasal seria “tão importante quanto uma vacina aprovada pela Anvisa”.

Em uma fala anterior sobre o spray, em 12 de outubro, Bolsonaro já havia feito uma falsa simetria entre o novo remédio e as vacinas. Segundo ele, o medicamento "não tem comprovação científica, assim como as vacinas não têm ainda certificado definitivo”.

As vacinas em aplicação no Brasil, assim como em boa parte do mundo, já passaram pelas três fases de testes clínicos, que garantem dados sobre segurança e eficácia. O spray nasal defendido por Bolsonaro está apenas na primeira fase.

O presidente vem falando sobre o assunto com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, que já chamou o spray de “milagroso”. Nas conversas, Bolsonaro afirmou que tem interesse em incluir o Brasil na terceira fase de testes do tratamento.

O único teste do spray

O EXO-CD24 tem potencial de frear o processo inflamatório intenso que acontece no pulmão resultante de uma resposta desregulada do sistema imunológico à invasão do vírus. Alguns estudos mostraram que esse processo, conhecido como tempestade de citocinas, estava ligado a uma maior mortalidade de pacientes da covid-19.

De acordo com cientistas israelenses do Centro Médico Ichilov, em um teste realizado com um grupo de 30 pacientes com quadros médios e graves de covid-19, 29 dessas pessoas tiveram alta entre três e cinco dias depois da aplicação. O indivíduo restante também se recuperou, mas depois de um período maior.

Testes clínicos para qualquer remédio têm três fases, realizadas em grupos cada vez maiores de pessoas. Também precisam passar por situações em que o efeito do remédio em pacientes é comparado com o efeito de placebos, procedimento padrão em testagem de medicamentos. Em conversas com Netanyahu, Bolsonaro já disse que quer que o Brasil participe da fase 3 dos testes do spray.

No Twitter, a epidemiologista Denise Garrett, do Instituto Sabin de Vacinas, frisou que “se tudo der certo e a eficácia e segurança do mesmo forem comprovadas”, a disponibilidade do medicamento para tratamento deve levar no mínimo alguns meses para acontecer.

Remédios sem utilidade

Desde o início da pandemia, Bolsonaro promove remédios sem comprovação científica como soluções contra a covid-19. Ao mesmo tempo, desdenha de procedimentos recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), como uso de máscaras e distanciamento social. Também questionou a segurança e a eficácia das vacinas contra a covid-19, chegando a dizer que ele mesmo não tomaria o imunizante. O Brasil é o segundo país do mundo em mortes por covid-19.

240 mil

número de óbitos por covid-19 no Brasil até 16 de fevereiro de 2020, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa

O destaque das indicações médicas de Bolsonaro é a dupla cloroquina e hidroxicloroquina. Além do incentivo em lives e declarações públicas, Bolsonaro colocou a máquina governamental para trabalhar em prol do remédio, investindo milhões em dinheiro público na fabricação, distribuição e divulgação dos medicamentos cuja eficácia já foi negada até pelo cientista que inicialmente havia sugerido seu uso.

O presidente e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, propagam a ideia de “tratamento precoce” contra a covid-19, procedimento que também não é reconhecido cientificamente. Sob orientação da pasta, foram distribuídos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) kits para esse fim contendo cloroquina, ivermectina e azitromicina.

A ivermectina é um vermífugo que, assim como o spray nasal, apresentou eficácia contra a covid-19 em um teste inicial bem específico, em laboratório. No entanto, constatou-se posteriormente que, para ser eficaz em um paciente com covid-19, a dose precisaria ser 17 vezes maior do que a máxima diária permitida. Nessa quantidade, a ivermectina seria, efetivamente, um veneno.

Já a azitromicina é um antibiótico usado contra diversas infecções bacterianas, incluindo otite média, faringite estreptocócica e pneumonia. Diferentes pesquisas apontaram para sua inutilidade no combate à covid-19, incluindo um estudo da Coalizão Covid-19 Brasil, que congrega oito organizações de saúde, entre elas o Hospital Israelita Albert Einstein, o Hospital do Coração e o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

O que tem funcionado

Em Israel, os índices de infecção e desenvolvimento da covid-19 vêm registrando quedas significativas graças à rapidez e alcance da sua campanha de vacinação. No mundo, é o país que mais vacinou, proporcionalmente. Para cada grupo de 100 pessoas, 76,25 tinham sido imunizadas em 15 de fevereiro de 2020. Em comparação, o Brasil registrava na mesma data 2,49 vacinas aplicadas por grupo de 100 habitantes até agora.

Isso representou a vacinação de cerca de 46% da população do país do Oriente Médio, que tem 9,3 milhões de habitantes. No início do mês, uma das maiores operadoras de saúde de Israel afirmou que o índice de eficiência da vacina aplicada no país (da Pfizer) era de 92%.

Israel também estava em lockdown desde 27 de dezembro, a terceira vez em que adotou a medida durante a pandemia. Com os resultados atingidos pela vacinação, o país começou gradualmente a flexibilizar o lockdown. Negócios não essenciais puderam reabrir e cidadãos foram autorizados a se deslocar a distâncias maiores que um quilômetro de suas residências. Escolas seguiram fechadas e voos internacionais continuaram sob restrição.

Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em julho de 2020 mostrou que o isolamento social, mesmo com índices abaixo dos 50%, é uma estratégia importante na contenção do novo coronavírus. A conclusão dos pesquisadores é que a cada 1% na taxa de isolamento calculada por meio de dados de aparelhos de celular, a transmissão do vírus pode apresentar uma queda de 37% no número de novos contaminados.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.