As vacinas ‘de cortesia’ que derrubam ministros no Peru

Quase 500 políticos peruanos, seus parentes e outros burocratas do governo furaram a fila da vacinação num escândalo que ameaça os rumos da eleição de 2021

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O presidente interino do Peru, Francisco Sagasti, enviou nesta segunda-feira (15) ao Congresso, aos órgãos de controle do governo e à Justiça uma lista com os nomes de 487 autoridades e parentes de políticos que furaram a fila de vacinação contra a covid-19 no país.

A lista havia sido recebida pelo presidente interino Sagasti das mãos dos responsáveis pela UPCH (Universidade Peruana Cayetano Heredia), que é parceira no Peru do laboratório chinês Sinopharm.

1,2 milhão

É o número de pessoas que foram diagnosticadas com covid-19 no Peru até 16 de fevereiro de 2021

43.880

É o número de pessoas mortas pela covid-19 no Peru até 16 de fevereiro de 2021

É a posição que o Peru ocupa no ranking de mortos pela covid-19 na América Latina até 16 de fevereiro de 2021 – atrás de Brasil, México e Colômbia, nesta ordem

0,24%

É o percentual de pessoas imunizadas contra a covid-19 no Peru até 16 de fevereiro de 2021, contra 2,49% no Brasil e 1,82% na média da América do Sul

A vacinação irregular de políticos peruanos teve início no fim de 2020, quando a Sinopharm forneceu doses de seu imunizante como “cortesia” a membros do governo, por meio da parceria com a Universidade Cayetano Heredia. Com a pandemia, a China converteu-se num dos maiores fornecedores mundial de vacinas, e faz de seu programa de imunização uma ponte para projeção de sua influência política e comercial no mundo.

A revelação de que a fila da vacinação foi fraudada por um número tão grande de pessoas influentes e de seus familiares converteu-se num escândalo, que a imprensa peruana apelidou de “vacunagate” (vacinagate), que até esta terça-feira (16) já tinha levado à renúncia de pelo menos dois ministros, além de outros funcionários importantes do governo.

Presidente e ex-presidente foram vacinados

Um dos favorecidos pelo esquema foi o ex-presidente Martín Vizcarra e a esposa dele, a ex-primeira-dama Maribel Díaz Cabello. Ambos foram imunizados em outubro de 2020, um mês antes de Vizcarra ter sofrido impeachment num processo por “incapacidade moral”, ligado ao recebimento de propinas quando era governador, em 2014.

Em sua defesa, Vizcarra disse ter se voluntariado para testar a vacina à época, mas a universidade envolvida nos estudos desmentiu o ex-presidente, dizendo que ele não foi um dos 12 mil voluntários que participaram do experimento no Peru. Vizcarra reagiu, dizendo receber a notícia “com estranheza”.

Além dele, também Sagasti, o atual presidente interino do Peru, foi vacinado. Ele tem 76 anos e não faz parte do grupo de prioridades para a fase atual do programa de imunização, que está concentrada nos profissionais de saúde, mas justificou a vantagem argumentando que sua imunização pode servir de estímulo para que seus compatriotas também se imunizem.

As baixas no primeiro escalão

Além do ex-presidente Vizcarra e do presidente interino, Sagasti, uma série de ministros e assessores do atual governo estão na lista das 487 personalidades que furaram a fila.

A ministra das Relações Exteriores, Elizabeth Astete, renunciou na sexta-feira (12), depois da revelação de que ela havia sido vacinada antes da hora. O escândalo também derrubou a ministra da Saúde, Pilar Mazzetti, que além de ter furado a fila, permitiu que os quase 500 também furassem. O vice de Mazzetti no Ministério da Saúde, Oscar Ugarte, também renunciou por causa do escândalo.

O presidente Sagasti disse ter ficado “indignado e furioso” com a revelação. Ele sublinhou que todos esses fatos antecederam sua chegada ao poder. Sagasti assumiu de forma interina, em 16 de novembro de 2020, após a queda de Vizcarra, e tem a missão de conduzir o país até a próxima eleição, marcada para 11 de abril de 2021.

No Ministério da Saúde do Peru, mais de 50 pessoas foram vacinadas, incluindo burocratas de segundo e terceiro escalão. O mesmo ocorreu no Ministério das Relações Exteriores, onde funcionários ligados às negociações com a Sinopharm foram vacinados antes do início da campanha e sem preencher os pré-requisitos para tal.

Além de membros da burocracia, o escândalo também envolve alguns dos candidatos à eleição de abril. O nome de Alejandro Aguinaga, por exemplo, consta na lista. Ele foi vacinado em novembro de 2020, quando ainda não havia lançado sua candidatura a deputado pela Força Popular, partido de extrema direita ligado à família do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000).

Aguinaga diz que foi vacinado como médico que fazia parte da equipe envolvida no assunto, e considera que as acusações contra si são um exemplo do uso político que a revelação da lista pode ter num ano eleitoral no Peru.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que o laboratório chinês Sinopharm, que aparece envolvido no escândalo das vacinas no Peru, é o mesmo que trabalha em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, no desenvolvimento da Coronavac. Não é. O Instituto Butantan trabalha em parceria com outro laboratório chinês, o Sinovac. A informação foi corrigida às 7h50 do dia 17 de fevereiro de 2021.

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