A aposta no lockdown como freio às novas variantes da covid

Com 240 mil habitantes, Araraquara decide restringir circulação de pessoas após identificar 12 casos de infectados por mutação do vírus surgida em Manaus

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Araraquara, cidade com 240 mil habitantes no interior de São Paulo, decretou lockdown na tentativa de conter o avanço da pandemia de covid-19. Ao menos 12 casos de infecção pela nova variante do vírus, descoberta originalmente em Manaus, capital do Amazonas, foram identificados no município paulista. A medida passou a valer por 15 dias a partir de segunda-feira (15). Ao todo, o estado confirmou 25 casos da P.1, nome dado à mutação amazônica do novo coronavírus.

Os 12 casos são autóctones, ou seja, a doença foi adquirida na própria cidade por pessoas que não estiveram em Manaus nem entraram em contato com viajantes que passaram pelo Amazonas. Isso indica que a variante do vírus já está em circulação na região. As variantes do Brasil, do Reino Unido e da África do Sul têm causado preocupação devido aos indícios de que sejam mais transmissíveis, característica que poderia pressionar ainda mais os sistemas de saúde e levar a um aumento nas mortes.

Além dos 12 casos em Araraquara, nove foram identificados na cidade de São Paulo, três em Jaú e um em Águas de Lindóia, no interior paulista. Inicialmente, a Secretaria de Estado da Saúde havia confirmado a presença também da variante britânica, mas os testes foram refeitos e apontaram que todas as amostras se referiam à P.1.

A crise no interior

A região de Araraquara já estava na fase vermelha do Plano São Paulo, a mais restritiva delas. Ao decretar lockdown, a prefeitura busca reduzir ainda mais a circulação de carros, bicicletas e pessoas — os ônibus ficaram limitados a 30% de sua capacidade.

Só pode se deslocar pela cidade quem trabalha nos serviços essenciais ou for acessá-los. Mesmo as atividades essenciais, como supermercados, padarias e farmácias, têm de fechar as portas às 20h. No primeiro dia da medida, houve blitze pela cidade para orientar os moradores, e as ruas ficaram vazias. As multas para quem descumprir as regras podem variar de R$ 120 a R$ 6.000. Quem for parado precisa justificar com documentos o motivo de ter saído de casa.

Restrições parecidas já foram adotadas anteriormente no Brasil por cidades como São Luís, no Maranhão. Algumas cidades do Pará próximas à divisa com o Amazonas também estão adotando, atualmente, o lockdown para tentar conter a pandemia.

Araraquara já foi considerada modelo no estado de São Paulo no combate à pandemia durante a primeira onda da doença, por realizar testes em massa seguidos de isolamento de doentes — a média de exames PCR aplicados já foi quatro vezes superior à nacional.

O quadro, porém, se agravou em 2021. Nos 13 primeiros dias de fevereiro, a cidade registrou 27 mortes por covid-19, superando o recorde de 24 óbitos de janeiro — também bateu recordes de casos registrados e de hospitalizações.

No sábado (13), todos os leitos de internação estavam em uso, e a ocupação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) era de 95%. A cidade havia acumulado até a segunda-feira (15) 12.205 casos de infecção e 148 mortes.

Em nota, o prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT), afirmou que os números eram reflexo das aglomerações durante as festas de fim de ano, mas sugeriu que a velocidade com que os casos e mortes cresceram também pode estar ligada à nova variante.

“Pelo histórico da pandemia desde março de 2020, nós estranhamos a velocidade das contaminações e a agressividade do vírus, a forma como os pacientes evoluíam. Sabemos que houve um relaxamento do distanciamento social, muita gente viajou, muitas festas familiares no fim do ano. Tudo isso ajudou no processo de contaminação, mas a doença apresentava uma característica diferente”

Edinho Silva

prefeito de Araraquara, em nota

A eficácia do lockdown

O bloqueio de cidades e o confinamento de pessoas em casa é defendido por especialistas em saúde para isolar o vírus e tentar conter sua circulação. Um grupo de pesquisadores brasileiros que havia previsto a segunda onda de covid-19 em Manaus considera que a capital do Amazonas, por exemplo, pode espalhar uma crise sanitária por todo o país caso nenhuma medida mais rigorosa de isolamento seja tomada.

Os cientistas defendem que a cidade adote um lockdown capaz de isolar 90% da população e faça uma campanha de vacinação em massa em ritmo mais acelerado do que o do resto do país — para evitar, inclusive, uma terceira onda de covid-19 na região.

Devido ao alto impacto econômico do lockdown, integrantes do governo federal continuam criticando a medida. No domingo (14), o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a orientação para ficar em casa foi um “erro” em todo o mundo.

Sua opinião, porém, não encontra lastro nas evidências disponíveis. Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em julho mostrou que o isolamento social, mesmo com índices abaixo dos 50%, foi responsável por salvar vidas e impedir uma contaminação maior da população no país.

Apenas no mês de maio, segundo a estimativa feita com base em modelos matemáticos, as quarentenas pouparam no país 118 mil vidas e evitaram 9,8 milhões de infectados.

A conclusão dos pesquisadores é que a cada 1% na taxa de isolamento calculada por meio de dados de aparelhos de celular, a transmissão do vírus pode apresentar uma queda de 37% no número de novos contaminados.

Estudos publicados pelas universidades federais de Goiás e do Paraná em 2020 também demonstraram que as quarentenas são capazes de reduzir o impacto da pandemia. Eles perdem eficácia quanto mais tempo demorarem para ser adotados.

Um trabalho de pesquisadores do Imperial College, de Londres, divulgado em junho com base na análise de 11 países europeus, estimou que as medidas de isolamento salvaram cerca de 3,2 milhões de pessoas no continente até o início de maio.

As resistências ao fechamento

Fechar toda uma cidade como Araraquara decidiu fazer é uma decisão que tem sofrido resistência de gestores públicos e de setores da população. Em Manaus, por exemplo, antes de a cidade sofrer com um segundo colapso da saúde em janeiro, quando registrou mortes até por falta de oxigênio, o governador Wilson Lima (PSC) chegou a anunciar o fechamento do comércio não essencial por 15 dias no final de dezembro. Centenas de pessoas foram às ruas para protestar. Ele recuou e liberou o funcionamento das lojas.

Em janeiro, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou que a fase vermelha no estado, que impede o funcionamento do comércio não essencial, seria estendida aos sábados, domingos e feriados — e ao período entre 20h e 6h nos demais dias.

A decisão foi tomada por causa do aumento no número das internações em janeiro, também como reflexo das festas de fim de ano. Mas a restrição só durou um fim de semana. Doria logo suspendeu a mudança depois de protestos de chefs, donos de restaurantes e funcionários do setor.

Doria já havia sofrido pressão de empresários e de prefeitos do próprio partido em maio para relaxar as medidas de restrição adotadas desde março de 2020. A reabertura ocorreu no final daquele mês, às vésperas do Dia dos Namorados, por pressão de lojistas.

O presidente Jair Bolsonaro, que adotou uma atitude negacionista durante a pandemia, tem sido o maior crítico dos fechamentos do comércio pelo país, pelas consequências causadas na economia.

Ele diminui a gravidade da doença e defende que as pessoas continuem trabalhando. Em pronunciamentos, já classificou a covid-19 como uma “gripezinha”. Na sexta-feira (12), ao comentar as pressões pela volta do auxílio emergencial em 2021, afirmou a apoiadores: “Cobre de quem te determinou ficar em casa, fechou o comércio e acabou com o seu emprego”.

O risco das variantes

As novas variantes têm sido descobertas durante as novas ondas da doença, em períodos de alta nos casos e nas mortes. Há indícios de maior potencial de contágio, embora as pesquisas ainda não tenham comprovado isso.

No início de fevereiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) emitiu um alerta dizendo que “as mutações encontradas na variante P.1 podem reduzir a neutralização [do vírus] por anticorpos”. “No entanto, estudos adicionais são necessários para avaliar se há mudanças na transmissão, severidade ou ação de anticorpos neutralizantes como resultado dessa nova variante”, afirmou a entidade.

Laboratórios como a Novavax e a Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson), ao divulgarem os resultados de suas vacinas contra a covid-19 em janeiro, afirmaram que a eficácia dos imunizantes foi menor com a variante encontrada na África do Sul.

Não se sabe ainda se as vacinas de Oxford/AstraZeneca e Coronavac, usadas no Brasil, também apresentam queda de desempenho com a mutação de Manaus. Em fala na sexta-feira (12), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse que as características da Coronavac, desenvolvida com o vírus “morto”, reduzem a possibilidade de problemas.

“A vacina do Butantan é diferente. É baseada no vírus inteiro inativado. O vírus foi quebrado nos seus pedaços e eles formam a vacina. Quando o indivíduo recebe esses pedaços do vírus, ele produz uma resposta imunológica ampla (...). A chance dessa vacina ter problema com as variantes é menor do que as demais que são baseadas em um único pedaço do vírus. Preocupa? Sim. Vamos monitorar”, afirmou, durante um evento.

Em entrevista à TV CNN, no domingo (14), a imunologista e professora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, disse ser possível que a variante de Manaus se espalhe pela capital paulista.

“O mundo é muito conectado e já é grave o fato de encontrarmos [a variante] em Manaus. São Paulo é a principal rota dos aviões que vêm de Manaus, então, é de se esperar que seja um dos próximos focos da transmissão dessa variante”

Ester Sabino

professora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP

Em entrevista ao Nexo, na quinta-feira (11), a professora Luciana Costa, do Departamento de Virologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), disse que algumas decisões tomadas até aqui por países como o Reino Unido, que decidiu suspender voos, com base nas variantes, ainda são precoces e têm causado pânico na população.

“A gente ainda não tem certeza se de fato esses vírus são mais transmissíveis, se de fato vão escapar da resposta das vacinas que vão ser utilizadas. Não dá para dizer ainda. Mas já se tomou decisões que impactaram a vida das pessoas e as relações entre os países com base numa informação que ainda estava crua”, afirmou

Em fórum online organizado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) no começo de fevereiro, o professor e pesquisador da instituição Amilcar Tanuri disse que culpar catástrofes como a de Manaus por causa da variante seria “forçar a barra”. Segundo ele, outros fatores estão associados à crise sanitária.

“A população deixou de usar máscaras e aglomerou, até por essa questão de acharem que tinham imunidade de rebanho e que a pandemia tinha acabado. (...) A grande mortalidade é devido à lotação dos hospitais, à falta de oxigênio e à desorganização”, afirmou.

Para ele, alguns municípios, como Macaé, evidenciam que a taxa de mortalidade da primeira e da segunda onda de covid-19 é “virtualmente idêntica ou não tem diferença nenhuma”, sugerindo que a cepa em circulação pode não determinar a gravidade do problema. Tanuri defende a política de testagem seguida de isolamento de doentes como uma medida para controlar a transmissão de novas cepas do vírus.

Segundo os cientistas, as formas de se proteger das variantes são as mesmas em relação ao vírus “original”: isolamento e distanciamento social, uso de máscaras, manutenção de ambientes bem ventilados e medidas de higiene, como lavar as mãos com frequência.

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