Qual o papel da vigilância genômica no combate à pandemia

Monitoramento de novas variantes com maior potencial de transmissão fez países fecharem fronteiras. Ao ‘Nexo’, Luciana Costa, professora de virologia da UFRJ, diz que mapeamento oferece resposta limitada sobre impacto da doença

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

As frequentes mutações ocorridas durante a replicação do novo coronavírus levaram ao surgimento de três variantes consideradas por autoridades sanitárias como preocupantes, devido aos indícios de que são potencialmente mais transmissíveis.

As mutações do Reino Unido, África do Sul e Manaus, no Brasil, foram descobertas graças aos sistemas de vigilância genômica existentes em vários países. Eles têm como objetivo monitorar os vírus em circulação e identificar as variantes, por meio do sequenciamento genético de amostras. Algumas dessas variantes podem ter obtido vantagens evolutivas, e caso isso seja comprovado, precisam ser isoladas para que não se espalhem, provocando mais pressão sobre os sistemas de saúde.

518 mil

genomas do novo coronavírus foram depositados até a quinta-feira (11) no Gisaid, um banco de dados usados internacionalmente

A variante brasileira, chamada de P.1, só foi identificada em janeiro de 2021 porque quatro viajantes que desembarcaram em Tóquio depois de terem passado pelo Amazonas tiveram sintomas de covid-19 e foram avaliados por autoridades locais. Foi o Japão, e não o Brasil, que descobriu a mutação primeiro. O achado só foi confirmado no país posteriormente. O episódio revela algumas das dificuldades da vigilância genômica brasileira.

Quem faz vigilância genômica no Brasil

O Brasil possui uma rede formada por laboratórios públicos — como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o Instituto Evandro Chagas e o Adolfo Lutz — e por universidades como a USP e a UFRJ. Eles fazem o trabalho de vigilância genômica, mas em quantidade muito menor do que o observado em outros países.

Em entrevista ao Nexo em janeiro, o doutor em medicina tropical Joaquín Carvajal, pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane, da Fiocruz Amazônia, afirmou que a instituição conseguiu sequenciar 250 amostras do vírus entre novembro de 2020 e janeiro, quantidade que o Reino Unido processa num único dia.

Segundo ele, o monitoramento feito atualmente “ainda é muito fraco”, mas mesmo assim ele avalia que, com o que já se conseguiu até aqui, é possível ter uma “visão do cenário”.

Dados do Gisaid, que reúne genomas do coronavírus, mostram que o Brasil sequencia cerca de 0,03% dos casos de covid. No Reino Unido, país que se destaca no monitoramento das mutações, a taxa é de 5%.

O portal Pangolin, que compila dados sobre as linhagens, registra que o Reino Unido sequenciou 56.616 amostras de sua variante B.1.1.7, enquanto a África do Sul trabalhou em 735 amostras de sua variante B.1.351, e o Brasil realizou apenas 74 sequenciamentos da P.1.

Uma reportagem publicada no jornal Estado de S. Paulo na quarta-feira (10) revelou que a vigilância genômica no país teve o ritmo reduzido em comparação com o começo da pandemia. Entre março e maio de 2020, foram realizados 1.823 sequenciamentos de genomas. Entre novembro e janeiro de 2021, esse número caiu para 585, segundo dados da Rede Genômica da Fiocruz, também com base nas informações do Gisaid.

Além da falta de investimentos e de recursos, pesquisadores reclamam das dificuldades em obter os insumos para fazer os sequenciamentos. “Temos equipamentos, mas falta pessoal e reagentes para intensificar a vigilância genômica”, afirmou o pesquisador José Eduardo Levi, do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical, da Faculdade de Medicina da USP, ao jornal Folha de S.Paulo.

Fernando Spilki, coordenador da rede Coronaômica, criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em outubro para ampliar a vigilância genômica no país, disse ao jornal Estado de S. Paulo que trâmites burocráticos para compras de insumos têm atrasado o processo, mas que os materiais estão sendo distribuídos.

O que fazer com os dados

Por causa da gravidade da pandemia, nunca se produziu tantos dados sobre um vírus na história da ciência — como tem acontecido com o Sars-CoV-2, que causa a covid-19.

A quantidade de sequenciamento é muito superior ao que é feito, por exemplo, com a influenza, que causa a gripe sazonal e precisa ser monitorada frequentemente devido à formulação da vacina. As mudanças no vírus exigem que o imunizante seja alterado todos os anos, como lembra Luciana Costa, professora associada do Departamento de Virologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

“É importante a vigilância, é importante a gente entender como é que os vírus estão sendo selecionados e circulando no mundo”, disse a professora ao Nexo. Ela destaca, no entanto, que é mais importante focar no que é feito com a informação que deriva dessa vigilância do que na quantidade de sequenciamentos feita por cada país.

Para ela, o sequenciamento, por si só, oferece uma resposta limitada para a pandemia. “Nenhum estudo desse tipo dá resposta suficiente para o manejo, para o controle da pandemia. Ele precisa de outras informações agregadas, que só vão ser obtidas com outros tipos de ensaios em laboratório que não vão acontecer na mesma velocidade que o sequenciamento genômico”, afirmou.

A tomada de decisões com base apenas no surgimento de novas variantes, como foi feito no Reino Unido, com interrupção de voos, é precoce e pode gerar pânico, segundo a professora. “A gente ainda não tem certeza se de fato esses vírus são mais transmissíveis, se de fato vão escapar da resposta das vacinas que vão ser utilizadas. Não dá para dizer ainda. Mas já se tomou decisões que impactaram a vida das pessoas e as relações entre os países com base numa informação que ainda estava crua”, afirmou.

Por causa da variante de Manaus, países como Colômbia, Portugal, Alemanha e Turquia também suspenderam voos do Brasil.

O impacto na vacinação

Laboratórios como a Novavax e a Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson) divulgaram no final de janeiro resultados da fase 3 dos ensaios clínicos de suas vacinas mostrando que a eficácia foi menor com a variante sul-africana. Algumas empresas anunciaram o desenvolvimento de novos imunizantes específicos para as novas linhagens.

Em fevereiro, a África do Sul decidiu suspender o uso da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório anglo-sueco AstraZeneca alegando que ela não era eficaz contra a variante encontrada no país.

Para a professora Luciana Costa, a decisão foi extremamente precoce, por ter sido baseada em poucas evidências e sem uma comprovação sólida. Na quarta-feira (10), a OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou uma análise recomendando o uso da vacina de Oxford/AstraZeneca mesmo nos países que tenham a presença das novas variantes.

A entidade reforçou que os achados foram obtidos com amostras pequenas que não permitem uma avaliação específica da eficácia da vacina. “Estas descobertas preliminares destacam a necessidade urgente de uma abordagem coordenada para vigilância e avaliação de variantes e seu impacto potencial na eficácia da vacina. A OMS continuará monitorando a situação; conforme novos dados se tornam disponíveis, as recomendações serão atualizadas”, disse o órgão.

No Brasil, ainda não se sabe qual o grau de circulação da variante de Manaus, embora o vírus já tenha sido detectado em São Paulo. O desempenho da Coronavac e da vacina de Oxford, atualmente em uso no Brasil, também é desconhecido em relação à variante.

Segundo Luciana Costa, há um descompasso entre o sequenciamento de um vírus (que pode ser feito em menos de uma semana) e testes para saber qual a eficácia das vacinas em relação às mutações. Esses estudos exigem a coleta de material de pessoas infectadas e vacinadas, para que se observe o potencial de neutralização do vírus pelos anticorpos gerados com a imunização. Feitos em laboratório, eles podem demorar até dois meses. Os testes poderiam dar uma resposta inicial, mas ainda seriam necessários mais estudos com voluntários para uma resposta mais incisiva.

Embora o desempenho das vacinas com as variantes ainda seja incerto, cientistas defendem que todas os imunizantes que se mostrarem seguros e eficazes nos ensaios clínicos sejam usados amplamente na população, no tempo mais curto possível, para tentar frear a pandemia. A continuidade de medidas de isolamento e distanciamento social também é defendida.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.