Uma imunização em massa para testar a efetividade vacinal

Instituto Butantan vai aplicar proteção contra a covid-19 em todos os moradores acima de 18 anos na cidade de Serrana, no interior paulista

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Para saber o quão efetiva é a Coronavac no combate à pandemia do novo coronavírus, o Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, decidiu vacinar todos os moradores maiores de 18 anos da cidade de Serrana, no interior paulista. A iniciativa, batizada de “Projeto S”, irá imunizar gradualmente cerca de 30 mil pessoas entre fevereiro e abril e acompanhar a situação local para ver qual o impacto da vacina.

Na prática, o projeto vai forçar o surgimento de um cenário conhecido entre os epidemiologistas como imunidade de rebanho. É o momento a partir do qual a pandemia perde força porque o vírus não consegue mais circular devido à proteção que a maioria das pessoas adquiriu por causa da vacina — ou por já ter pego a doença anteriormente.

A porcentagem de imunização da população necessária para que esse estágio seja alcançado é uma das grandes incógnitas da pandemia. As estimativas variam de 60% a 90%. Na primeira onda da covid-19 em Manaus, cientistas chegaram a cogitar que a cidade havia atingido a imunidade de rebanho por causa do alto número de casos observados seguidos de uma queda nos indicadores. Mesmo com a projeção de que 76% havia tido contato com o vírus, a capital do Amazonas sofreu com uma segunda onda em janeiro, o que colocou em xeque a tese.

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é o número de habitantes de Serrana estimado em 2020 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Em Serrana, cerca de 65% da população será vacinada. Grávidas, crianças e jovens menores de 18 anos não serão incluídos porque esses grupos ficaram de fora dos testes que mediram a eficácia da vacina e não há dados de segurança para essas pessoas.

As diferenças entre as taxas

Eficácia

É o desempenho alcançado por uma vacina nos ensaios clínicos da fase 3, com milhares de voluntários. A taxa de eficácia considera a porcentagem de infectados no grupo que recebeu o imunizante sobre o percentual de infectados no grupo controle, que recebeu um placebo (substância sem eficácia). Quanto maior a quantidade de doentes no grupo placebo, maior a eficácia. No caso da Coronavac, a taxa, de 50,38%, foi calculada usando um modelo estatístico que considerou, além da proporção dos doentes em cada grupo, o tempo de exposição ao risco de cada participante até ele ser infectado.

Efetividade

É o desempenho da vacina em condições reais de uso, e é isso o que será observado em Serrana. Nos ensaios clínicos, os pesquisadores puderam escolher quem seria vacinado ou excluir pessoas com outras doenças ou que tomavam remédios capazes de interferir na eficácia da vacina. Durante a vacinação da população, os pesquisadores deixam de ter o controle da situação — pessoas podem esquecer ou não querer tomar a segunda dose, por exemplo. No geral, a efetividade da vacina tende a ser menor do que a eficácia obtida num experimento controlado.

Como será o Projeto S

Ao anunciar a iniciativa numa transmissão ao vivo pela internet no sábado (6), os representantes do projeto afirmaram que Serrana foi escolhida por ser uma cidade pequena, com bastante circulação de pessoas (cerca de 10 mil moradores trabalham em Ribeirão Preto, a apenas 23 km de distância, o que facilita a circulação do vírus) e por ter tido, em alguns momentos, uma alta taxa de doentes — cerca de 5% da população chegou a estar com a infecção ativa, o que é muito alto.

O município também teve sua estrutura de vigilância fortalecida e consegue fornecer à população testes do tipo PCR em todas as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) com resultado em apenas 24 horas.

A cidade foi dividida em 25 áreas com base em critérios socioeconômicos e de movimentação das pessoas. Essas áreas formam quatro grandes grupos, que serão vacinados em etapas, com um intervalo de uma semana entre elas. A vacinação começa em 17 de fevereiro, em oito escolas da cidade, e haverá coleta de sangue antes da aplicação da primeira dose, o que permitirá saber quantos já tinham se infectado. A segunda dose será aplicada 28 dias depois da primeira.

“Esse projeto é muito ambicioso (...). O habitual é fazer estudos clínicos sobre qual a eficácia da vacina, em relação à proteção contra a doença. Mas nenhum desses estudos foi desenhado para demonstrar o efeito da vacina sobre a epidemia propriamente dita e sobre as graves condições que a epidemia determina”

Dimas Covas

diretor do Instituto Butantan, durante o anúncio do projeto

O médico Expedito Luna, professor do departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da USP e ex-diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, entre 2003 e 2007, disse ao Nexo que o esperado para esse tipo de estudo é uma redução nas internações, casos graves e mortes.

“O grande objetivo da Coronavac e da vacina de Oxford/AstraZeneca é a proteção para esses casos. Para nenhuma dessas vacinas, nem para as que têm eficácia mais alta, a gente espera que haja, por enquanto, uma diminuição nas infecções”, disse. Ele não está envolvido com o projeto.

O professor lembra que países que estão com a vacinação avançada, como Israel, onde 41,68% da população tinha sido vacinada até terça-feira (9), já apresentaram resultados positivos. “Mesmo ainda com uma proporção relativamente pequena vacinada, já tem um efeito em Israel na diminuição no número de casos [graves] e de óbitos”, afirmou.

Um estudo em Israel apontou queda de 41% no número de novos casos de covid-19 em pessoas com 60 anos ou mais imunizadas com a vacina da Pfizer/BioNTech nas seis semanas seguintes ao início da vacinação. A comparação foi feita em relação a três semanas antes da campanha. Também houve queda de 31% nas hospitalizações e de 24% em casos graves da doença.

A importância dos estudos de efetividade

No passado, a avaliação da efetividade já fez o Brasil descartar o uso de vacinas, como lembra Luna. Em 1988, por exemplo, o país registrou uma epidemia de meningite do tipo B e decidiu importar de Cuba uma vacina contra a doença ainda pouco testada em ensaios clínicos.

“Isso não estava muito bem regulamentado na época, pois não tinha a Anvisa ainda. E havia uma pressão política muito grande de prefeitos e governadores para comprar a vacina cubana”, afirma o professor.

O Brasil começou a usar o imunizante, mas crianças que tomaram a vacina continuaram tendo meningite B e morrendo. Pesquisadores decidiram comparar crianças vacinadas que ficaram doentes com outras do mesmo bairro — chamadas de caso-controle.

“Idealmente, se a vacina funcionasse, não deveria ter tido caso em vacinado. E os controles seriam os grupos de comparação. Foi observado que não havia diferença na ocorrência de meningite entre vacinados e não vacinados. Isso é um estudo de efetividade, observacional. Demorou, mas a vacina foi abandonada”, disse.

Algumas pesquisas da época mostraram que a proteção da vacina importada era significativa apenas para crianças com mais de 4 anos, um ano após a aplicação da segunda dose.

Estudos do tipo também ajudam a traçar novas estratégias de vacinação. Desde 1999, o Brasil imuniza a população contra o vírus influenza, da gripe sazonal, que circula todos os anos e se apresenta em três tipos: A, B e C. O C não é relacionado a epidemias por causar infecções respiratórias brandas, sem impacto na saúde pública. Os que predominam são a influenza A, com os subtipos H1N1 e H3N2, e a influenza B.

O professor Expedito Luna diz que, apesar dos dados sobre a efetividade da vacina contra esses vírus serem insuficientes, há indícios de que ela reduza as hospitalizações e a mortalidade por causas relacionadas à influenza, mas não em todo o país.

“No Norte e Nordeste, a gente não observa isso. Por quê? Muito provavelmente porque a estação de pico da influenza no Norte e Nordeste é antes do período que a gente vacina. Isso é muito claro em Manaus, por exemplo. A cidade está vivendo uma epidemia de covid agora que coincide com o período de aumento das doenças respiratórias tradicionais no Amazonas. O inverno amazônico é em janeiro”, afirmou.

Por causa disso, nos dois últimos anos, a campanha de vacinação no estado do Amazonas foi antecipada para tentar ver se a vacina teria efeito na região, segundo o professor.

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