Como países lidam com viajantes em busca do ‘turismo da vacina’

À frente nos calendários e campanhas de imunização contra covid-19, governos têm adotado políticas diferentes para pessoas que viajam para se vacinar em seus territórios

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Mais de 50 países já começaram campanhas de vacinação em massa contra a covid-19. Até quarta-feira (10), cerca de 147 milhões de doses de vacinas foram aplicadas no mundo todo, segundo dados do site Our World in Data.

Israel, Emirados Árabes Unidos, Seychelles, Reino Unido e Estados Unidos estão na frente no número de doses administradas por mil habitantes (o que indica a taxa de imunização do país). Em números totais, aparecem também China, Índia e Brasil.

Iniciar a imunização contra a covid-19 foi apenas um passo para que a vida possa ser retomada com certa normalidade. Caso os governos consigam distribuir vacinas em larga escala, o avanço da doença deve ser interrompido e o fim da pandemia se torna possível. Muitos países, no entanto, enfrentam dificuldades para imunizar a população com mais rapidez, devido à escassez de doses e entraves de logística.

Em busca de alternativas frente à espera pela vacinação, pessoas estão se mobilizando para viajar e se vacinar onde os calendários estão relativamente mais avançados, no que vem sendo tratado criticamente na imprensa internacional como “turismo das vacinas”. Segundo reportou a rede norte-americana NBC News, há agências turísticas divulgando “pacotes” combinando viagens e vacinações.

“Essa movimentação é preocupante por conta da equidade. Não devemos deixar na mão do capital a decisão de quem vai se vacinar. O acesso tem que ser para quem mais precisa e não para quem pode pagar”, avaliou o epidemiologista Jonas Lotufo Brant de Carvalho, professor da UnB (Universidade de Brasília), em entrevista ao jornal Metrópoles, em 9 de janeiro.

Os países que se tornaram “destinos” do turismo de vacinas têm lidado de maneiras diferentes com o fluxo de viajantes em busca de imunização nos seus territórios.

Os ‘destinos’ do turismo de vacina

Rússia

Desde 18 de janeiro, a vacinação não está mais restrita ao grupo prioritário na Rússia – todos já podem receber gratuitamente doses do imunizante Sputnik, incluindo estrangeiros, mediante a apresentação de documento de identificação, como o passaporte. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo de 9 de fevereiro, há cidadãos europeus e outros moradores do continente viajando ao país para se vacinar. Foi o caso do físico russo Dmitri Bykov, que viajou de Munique (Alemanha) à capital russa, Moscou, e definiu o fluxo como “turismo Sputnik”.

Estados Unidos

Quatro estados tomaram medidas para evitar que viajantes (vindos de outros estados ou de outros países) recebam doses de imunização, limitadas e, portanto, muito disputadas atualmente. Personalidades como o jornalista mexicano Juan José Origel e as atrizes argentinas Yanina Latorre e Ana Rosenfeld, por exemplo, viajaram para a Flórida, vacinaram-se e postaram relatos nas redes sociais. Após a repercussão de casos assim, o governo da Flórida incluiu a apresentação de comprovante de residência como requisitos para ser vacinado no estado, noticiou a agência BBC, em 3 de fevereiro. Medidas similares foram implementadas por Califórnia, Nova York e Texas para impedir o fluxo de viajantes de elite e empresários tentando furar filas de vacinação. Entretanto, elas se tornaram alvo de críticas por abrir margem à discriminação de imigrantes sem documentos e sem acesso a moradia. “O acesso à vacina deve estar disponível para todos, independentemente de onde vivam ou de seu status de imigração”, disse Thomas Kennedy, coordenador da organização United We Dream na Flórida, à agência AFP.

Emirados Árabes Unidos

Segundo o jornal The Telegraph, clubes exclusivos de multimilionários estão oferecendo viagens em jatos particulares para Emirados Árabes Unidos e Índia que incluem estadias em hotéis de luxo e acesso a vacinas contra a covid-19 (Pfizer no caso dos Emirados; Oxford/AstraZeneca na Índia). “Somos pioneiros nesse novo programa de viagens de luxo de vacina”, definiu Stuart McNeill, fundador do Knightsbridge Circle, cuja anuidade custa cerca de 25 mil libras esterlinas (equivalente a R$ 180 mil). Teoricamente, entretanto, os Emirados Árabes estão vacinando apenas cidadãos e residentes desde dezembro, de acordo com a agência Al Arabiya News. Até 9 de fevereiro, o país administrou 4,4 milhões de doses.

Índia

O governo iniciou uma campanha gigante de vacinação contra a covid-19 em janeiro. O país pretende imunizar ao menos 300 milhões de cidadãos até julho (entre eles, 30 milhões de profissionais da área de saúde e 270 milhões de pessoas com mais de 50 anos de idade). Teoricamente, as doses são voltadas apenas a cidadãos e residentes do país, que possui 1,3 bilhão de habitantes. Na capital, Deli, residentes que não tiverem comprovante de endereço podem apresentar um documento de identidade e uma carta comprovando vínculo empregatício na cidade. Até 9 de fevereiro, o país administrou 6,2 milhões de doses.

Israel

Segundo o jornal The Times of Israel, o Ministério da Saúde estipulou vacinação gratuita para todos que estiverem no país, independentemente do status da cidadania ou cadastro no sistema de saúde. Cidadãos israelenses radicados no exterior, entretanto, ponderam se vale a viagem a Israel para se vacinar, considerando que se trata de uma possibilidade realista apenas para quem pode passar mais de um mês no país. Isso porque, ao desembarcar, é preciso ficar em quarentena por 10 a 14 dias e, depois desse período, é preciso esperar ao menos três semanas no intervalo entre as duas doses da vacina.

Reino Unido

Todos os residentes legais no país poderão se vacinar se desejarem, independentemente da nacionalidade. O país, que está utilizando os imunizantes dos laboratórios Pfizer-BioNTech e Oxford-AstraZeneca, estipulou a meta de distribuir 200 mil doses por dia. Estrangeiros que fizerem parte dos grupos prioritários podem buscar postos de vacinação atualmente, desde que sejam residentes legais. Não é possível, portanto, viajar como turista apenas para receber a vacina.

Canadá

Em condições similares ao Reino Unido, no Canadá somente são elegíveis para vacina os cidadãos (canadenses ou estrangeiros) que estão cadastrados nos programas de assistência à saúde das províncias, o que não é possível para turistas. Residentes permanentes ou pessoas com permissão para trabalhar e que estejam trabalhando há no mínimo três meses terão tal permissão, reportou a CNN. Entretanto, o país também registrou um caso polêmico de viajantes internos que tentaram furar fila: Rodney e Ekaterina Baker, um casal de canadenses milionários, fretaram um avião particular e tentaram fingir trabalhar em um motel da comunidade remota de Beaver Creek (considerada grupo prioritário por estar isolada e mais vulnerável). Depois de vacinados, eles foram descobertos, denunciados e multados por não cumprir o isolamento social.

Cuba

Turistas serão bem-vindos para receber a vacina Soberana 2 contra covid-19, informou Vicente Verez, diretor do Instituto Finlay de Vacinas de Havana, em vídeo divulgado pela TV TeleSur, em 5 de fevereiro. Segundo Verez, o país planeja produzir 100 milhões de doses do imunizante cubano, que está em fase final de testes, ao longo de 2021 – o país possui 11 milhões de habitantes. Cuba também ofereceu a vacina para Venezuela, Vietnã, Irã e Índia.

Brasil

São Gonçalo (RJ) registrou alta procura de profissionais de saúde para se vacinar contra covid-19. O município abriu o programa de imunização para profissionais como psicólogos, fisioterapeutas, profissionais de educação física, sem limitação de idade ou de endereço, o que fez aumentar filas nos postos. À CNN, o secretário estadual de saúde do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Chaves, definiu o fenômeno como “falta de cidadania”. “Esse tipo de conduta, de sair de uma cidade e ir para outra procurando vacina, quebra todo e qualquer programa de imunização”, disse, em 6 de fevereiro. A prefeitura não descarta mudar o programa de imunização da cidade.

Passaporte contra a covid-19

Além do “turismo das vacinas”, outra expressão vem ganhando terreno nas discussões sobre imunização e mobilidade mundo afora: o “passaporte de vacinação”.

Países como Suécia, Dinamarca, Reino Unido, Israel e Índia sinalizaram que vão implementar medidas que facilitariam a circulação de viajantes com certificado de vacinação, derrubando restrições de movimento como a obrigatoriedade de quarentena.

Suécia e Dinamarca pretendem lançar um tipo de comprovante digital de vacinação a ser apresentado para viagens internacionais. “Dentro de três ou quatro meses, um passaporte digital covid-19 vai estar disponível para ser usado, por exemplo, em viagens de negócios”, disse o ministro das Finanças dinamarquês, Morten Boedskov, segundo reportagem do jornal Público, de Portugal.

No Reino Unido, há um protótipo de passaporte de vacinação desenvolvido por uma empresa de biométrica, a iProof, que registraria resultados de exames de covid-19 do portador e status de vacinação.

Israel, por sua vez, distribuiria um tipo de folheto verde (green booklet) para identificar quem já tomou as duas doses da vacina, segundo a rede americana CNBC.

Na Índia, estuda-se elaborar um certificado com código digital (QR code), associado ao número de telefone e um documento de identidade, a ser conferido pelas autoridades para facilitar a circulação dentro e fora do país.

O comitê de emergências da OMS (Organização Mundial da Saúde) criticou políticas de exigência de provas de vacinação como pré-requisito a viajantes, devido à disponibilidade limitada das vacinas e a questões ainda abertas sobre a extensão e a eficácia da vacinação.

Diante da pandemia global, diz a OMS, a manutenção de medidas como distanciamento social e uso de máscaras continua sendo importante mesmo após o início da imunização. “Estar vacinado não deve isentar os viajantes internacionais de cumprirem outras medidas para reduzir o risco das viagens”, destacou.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.