Como a vacinação impulsiona a imagem de China e Rússia

Potências com baixo índice de respeito aos direitos humanos nos rankings globais usam vacinas para reposicionar sua diplomacia no mundo

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Rússia e China – as duas potências com as piores colocações nos rankings de direitos humanos no mundo – estão encontrando na pandemia da covid-19 uma oportunidade de reposicionar sua diplomacia. Os dois países são responsáveis pelo desenvolvimento de duas das principais vacinas contra a covid-19 em circulação: a Sputnik-V e a Coronavac, respectivamente.

A primeira busca aprovação no Brasil após ter publicado na terça-feira (2) os resultados de seus testes clínicos na revista científica The Lancet. Já a segunda teve seu uso emergencial aprovado em 17 de janeiro. Ao menos 15 países fecharam contratos para obter a Sputnik-V antes mesmo da conclusão dos testes. Pelo menos 16 países têm contrato de compra da vacina chinesa.

Ambas gozam de vantagens tecnológicas e logísticas que as colocam em posição competitiva com as concorrentes desenvolvidas em países europeus e nos EUA. Além disso, os governos da China e da Rússia optaram por investir pesado na exportação de seus imunizantes a países em desenvolvimento, enquanto as potências concorrentes priorizam a imunização de suas próprias populações, e enfrentam gargalos na produção.

As vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna, duas das principais apostas das grandes potências ocidentais, precisam ser mantidas ultracongeladas – a primeira precisa estar a -70º e a segunda, a -20º. Essas condições de conservação tornam seu uso mais difícil em países em desenvolvimento nos quais as condições logísticas são mais precárias.

Já a vacina de Oxford, vem encontrando problemas na aplicação em idosos. Agências reguladoras da França, Bélgica, Suécia, Polônia, Alemanha e Áustria decidiram não recomendar sua aplicação em pessoas com mais de 55 anos (na Bélgica) ou mais de 65 anos (nos outros cinco países mencionados), enquanto não forem apresentados estudos adicionais com essa faixa etária.

A vacina de Oxford também enfrenta gargalos de produção. A AstraZeneca informou a União Europeia que só será capaz de entregar 25% do total de doses contratadas pelo bloco para o primeiro semestre de 2021. O anúncio fez com que o Conselho Europeu, órgão executivo do bloco, lançasse uma investigação contra o consórcio anglo-sueco, por suspeita de que ele estaria beneficiando o governo do Reino Unido em detrimento do cumprimento de obrigações contratuais com os 27 países da União Europeia.

Além das restrições impostas pela necessidade de ultracongelamento, das dúvidas sobre a segurança da aplicação em idosos e dos gargalos de produção, outro elemento que favorece as vacinas da Rússia e da China na disputa é o atraso nas tratativas ligadas ao consórcio internacional batizado de Covax, que prometia suprir a demanda dos países em desenvolvimento.

A Organização Mundial da Saúde reconheceu na segunda-feira (1º) que não poderá cumprir à risca o cronograma de distribuição de vacinas para os governos que integram o consórcio.

A diretora do departamento de imunizantes da OMS, Mariângela Simão, reconheceu que “está havendo gargalos na produção de vários fabricantes, e pode ser que os volumes sejam menores que os esperados”, dentro do consórcio Covax.

Na terça-feira (2), logo após a divulgação dos estudos da Sputnik-V na revista científica The Lancet, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que tinha feito contato telefônico com o presidente russo, Vladimir Putin, e, em entrevista à imprensa, declarou que o imunizante produzido em Moscou será “calorosamente bem-vindo”.

A China e o exemplo brasileiro

No caso da chinesa Coronavac, o imunizante é o principal em circulação no Brasil, onde a cobertura vacinal chegou no fim de janeiro a apenas 1% da população.

O caso brasileiro demonstra como a necessidade de obter a vacina chinesa levou o governo a mudar seu comportamento em relação a Pequim.

Durante meses, membros do governo Bolsonaro e pessoas próximas ao presidente deram declarações contrárias à participação da chinesa Huawei no fornecimento de equipamentos às empresas que participarão do leilão do 5G no Brasil. A China temia perder US$ 4 bilhões já investidos no setor caso as autoridades brasileiras cedessem à pressão dos EUA e excluíssem a Huawei do negócio.

Após a retenção de insumos da Coronavac em Pequim, no entanto, o discurso mudou. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, foi acionado para manter reuniões com o embaixador da China em Brasília, Yang Wanming.

Depois disso, os insumos da Coronavac foram finalmente liberados, em 25 de janeiro. Três dias depois, o conselheiro da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) Carlos Baigorri apresentou o relatório com as regras do leilão 5G no Brasil, sem qualquer restrição à Huawei.

Bolsonaro, que em outubro tinha garantido que não compraria a “vacina chinesa”, em janeiro agradeceu pela “sensibilidade do governo chinês” em liberar a carga.

O chanceler Araújo disse que a liberação ocorreu “sem qualquer condição extra-contratual” dos chineses, mas especialistas em relações internacionais ouvidos pelo Nexo disseram que o fato pode estar associado ao recuo do governo Bolsonaro no leilão do 5G.

‘Soft power’ vacinal

A projeção de poder e influência nas relações internacionais é conhecida como “soft power” (poder suave). O termo foi cunhado nos anos 1990 pelo cientista político americano Joseph Nye para referir-se à “habilidade de afetar outros por meio da atração e da persuasão, em vez do ‘hard power’ (poder duro), da coerção e da recompensa”.

Normalmente, o “soft power” faz uso de elementos culturais para promover um determinado país, como a música, o cinema, o esporte e a língua. Porém, durante a pandemia, também a ciência e a medicina passaram a cumprir essa função, segundo Jacob Mardell, analista do Merics, um instituto dedicado ao estudo do papel da China no mundo.

“Com certeza Pequim vai alavancar o uso desta tecnologia que salva vidas para obter ganhos comerciais e diplomáticos”, disse Mardell à rede britânica BBC, em 14 de janeiro. Em artigo sobre o mesmo tema, publicado em novembro de 2020, Mardell disse que a China “está melhor posicionada que os EUA para assumir a liderança global no mercado mundial das vacinas”.

As vacinas são associadas à vida, e promover o acesso a elas é algo que pode melhorar a imagem, de acordo com o pesquisador.

Na maior parte das vezes, laboratórios privados são os responsáveis pelo desenvolvimento dos imunizantes. Os governos ocidentais participam com subsídios, fundos de fomento à pesquisa e bolsas acadêmicas, além de regular o setor. Fundos privados entram com recursos financeiros nas áreas de pesquisa e de produção.

No caso chinês, “ninguém sabe a quem pertence” de fato o laboratório Sinovac, como disse em maio Matt Levine, editor da agência de notícias financeiras Bloomberg, ao explicar que a empresa chinesa vive uma longa disputa societária entre grupos de acionistas, que fez com que, em fevereiro, a Nasdaq – principal mercado de ações de tecnologia dos EUA – suspendesse a venda de papéis da empresa.

A despeito das disputas societárias e das dúvidas sobre quem são seus reais controladores, o governo chinês investe pesado na vacina desenvolvida pela Sinovac. O presidente da China, Xi Jinping, prometeu abrir uma linha de financiamento de US$ 1 bilhão para que países da América Latina e Caribe comprassem a vacina produzida pelo laboratório sediado em Pequim.

No caso da Rússia, a Sputnik-V foi desenvolvida pelo Instituto Gamelaya, fundado em 1891 como uma instituição privada, que passou para o controle estatal em 1919. Os recursos para a Sputnik-V vêm de um fundo soberano que recebe investimentos privados, mas tem participação do governo russo. À frente da iniciativa, figura com destaque o presidente Vladimir Putin.

Foi ele quem anunciou, em 11 de agosto, a descoberta da “melhor vacina do mundo”, a Sputnik-V. À época, a fala do presidente da Rússia foi recebida com desconfiança por não ter sido respaldada pela publicação dos resultados da fase de testes massivos (fase 3) em publicação científica, que permitisse o escrutínio da comunidade médica internacional, como aconteceu com os demais imunizantes em circulação.

A desconfiança fez com que até a população russa rejeitasse a vacinação. Uma pesquisa feita em outubro de 2020 – portanto dois meses depois do anúncio de Putin e três meses antes da publicação oficial do resultado das pesquisas da Sputnik-V na revista Lancet – mostrou que 59% da população russa não se sentia confiante em tomar o fármaco nacional.

Na terça-feira (2), passados três meses, a cobertura vacinal na Rússia não passava de 0,7%. Na China, era de 1,67%, mesmo com os dois países sendo os produtores de seus respectivos imunizantes.

O uso da crise sanitária atual para projetar influência econômica e poder político não é exclusividade de russos e chineses. Potências europeias, assim como os EUA e a Índia, também fazem do fornecimento de insumos uma oportunidade de ganho comercial e diplomático durante a pandemia.

A diferença é que, enquanto as potências ocidentais lutam para aumentar a vacinação de suas próprias populações, disputando doses e insumos entre si, a Rússia e a China tentam casar a vacinação interna e a exportação massiva das doses de seus imunizantes.

Foto: Jonathan Ernst/Reuters - 24.03.2020
Em primeiro plano, terno de Trump da gola para baixo. Em segundo plano, semi-escondido pelo vestuário, Fauci com um semblante inquieto
Anthony Fauci, conselheiro da Casa Branca para a pandemia

Mardell, que se dedica ao estudo do uso da vacinação como ferramenta de “soft power” chinês, diz que “Washington e Pequim fizeram promessas diferentes em relação à disposição para compartilhar suas vacinas”.

Ele relembra que “em vez de prometer o compartilhamento com países em desenvolvimento, o secretário de saúde dos EUA [Alex Azar, que deixou o posto em 20 de janeiro de 2020, com o fim do mandato de Donald Trump] deixou claro [em declaração de 10 de agosto de 2020] que as vacinas americanas [Pfizer e Moderna] só serão compartilhadas uma vez que as necessidades dos EUA tenham sido supridas”.

Sui-Lee Wee, repórter do jornal americano The New York Times que cobre a China desde 2010, diz que países de “baixa e média renda assinaram contratos de compra de vacina com a China porque elas estão disponíveis, enquanto nações ricas recorrem em sua maioria a doses da Pfizer e da Moderna”.

Mardell, da Merics, chegou à mesma conclusão: "Países ricos assinaram acordos bilionários com produtores ocidentais de vacinas, enquanto a China se voltou para suprir os países em desenvolvimento”.

Tanto Siu-Lee Wee quanto Jacob Mardell notam, no entanto, que essa estratégia chinesa oferece ao mesmo tempo uma oportunidade e um risco, pois Pequim terá de se esforçar para suprir um mercado interno gigantesco, além de vencer a desconfiança que acompanha a política e os produtos chineses em muitas países.

Se a vacina chinesa apresentar problemas ou se o suprimento delas for inferior ao prometido nos contratos, Pequim “pode sofrer sérios danos de reputação”, com o governo chinês tendo de “enfrentar a distância entre sua retórica e o que de fato é possível fazer”.

Velha estratégia renovada

O uso da saúde como instrumento de relações internacionais não é novo, mas ganhou novos contornos na pandemia. A própria Organização Mundial da Saúde conceitua o que ela chama de “diplomacia sanitária”.

A organização diz que esse movimento da diplomacia internacional veio crescendo à medida que as ameaças à saúde tornaram-se globalizadas, com o risco de ocorrência de novas pandemias e também com a possibilidade do uso de biotecnologia em atentatos terroristas de alcance global.

Mas diferente da ação individual dos países, a OMS prega a realização de “negociações globais” conduzidas multilateralmente, de maneira concertada.

“Muitos exemplos mostram que a diplomacia da saúde funciona e o alinhamento da saúde com a política externa pode gerar benefícios significativos para a saúde”, diz a organização. “Há um reconhecimento cada vez maior da saúde como objetivo da política externa e como contribuinte fundamental para o desenvolvimento, paz, redução da pobreza, justiça social e direitos humanos”.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.