O que é o G10 Bank. E qual é seu papel na pandemia

Líderes das maiores comunidades do Brasil lançam banco com capital inicial de R$ 1,8 milhão para ajudar moradores

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O G10 Favelas, iniciativa de empreendedores de impacto social e líderes das dez maiores comunidades brasileiras, lança neste mês de fevereiro de 2021 o G10 Bank, um banco com capital inicial de R$ 1,8 milhão que pretende prestar assistência financeira a moradores, muitos afetados pelo fim do auxílio emergencial na pandemia de covid-19.

O objetivo, segundo os organizadores, é facilitar acesso a microcrédito para empreendedores – empréstimos de R$ 15 mil, no máximo, a juros baixos. Também visa proporcionar cartões de débito e cartões de compra de produtores essenciais nos mercados locais no valor equivalente a uma cesta básica (R$ 631,46 seria o caso de São Paulo, o preço médio mais alto de cesta básica no país, de acordo com dados do Dieese).

A iniciativa também está buscando parcerias com companhias de cartão-benefício para que doações de cestas básicas possam ser feitas por meio de cartões, uma divisão que deve se chamar G10 Bank Benefícios, reportou a agência BBC News Brasil.

De acordo com os organizadores, parte da captação de recursos e geração de lucro do banco será revertida para a estrutura de assistência social que foi articulada nas comunidades em resposta à pandemia.

O contexto do banco

Com acesso mais limitado a serviços de saúde e condições mais precárias de moradia, comunidades periféricas estão entre as áreas mais vulneráveis ao coronavírus ao novo coronavírus.

Segundo um estudo da Rede de Pesquisa Solidária, que reúne pesquisadores de diversas universidades, a pandemia agravou quadros de desemprego e dificuldade de acesso a renda (segundo 60% das lideranças comunitárias ouvidas na pesquisa) e fome (68%).

Além do auxílio emergencial pago pelo governo federal a famílias de baixa renda (R$ 600 entre abril e agosto e R$ 300 entre setembro e dezembro), a mobilização da sociedade civil com campanhas e ações ajudou a aplacar os impactos da pandemia.

Ao longo de 2020, o G10 Favelas articulou a distribuição de 1,46 milhão de marmitas, 1,44 milhão de máscaras, 444 mil cestas básicas, 443 mil kits de higiene e 10 mil cartões com crédito para ser utilizado no comércio local, alcançando 181 territórios no país. Paraisópolis, por exemplo, foi uma das áreas que mais se destacou na mobilização comunitária no combate ao coronavírus.

13,6 milhões

é o número de pessoas morando em comunidades no Brasil, segundo estimativa dos institutos Data Favela e Locomotiva

No fim de 2020, porém, a arrecadação de fundos para viabilizar as ações caiu drasticamente. “Fazíamos 10 mil marmitas por dia. Depois tivemos que diminuir para manter. Até dezembro, fazíamos 5.000 por dia. Agora, começamos o ano entregando 500 marmitas por dia. Tem dia que a comida acaba, e a fila continua. E eu sei que essa fila vai aumentar, porque o desemprego está crescendo e a fome, aumentando”, relatou o líder comunitário Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores de Paraisópolis, à BBC Brasil. O novo banco, portanto, pretende responder a essa segunda fase da crise do coronavírus nas comunidades.

“Os bancos tradicionais exigem um critério de comprovações, de histórico econômico, de movimentação de faturamento. O diferencial do G10 vai ser justamente esse: ter um olhar voltado para o público da periferia e da favela”, disse à agência AFP a empreendedora social Elizandra Cerqueira, fundadora da associação Mulheres de Paraisópolis e do projeto Mãos de Maria, que vem produzindo marmitas solidárias para distribuir em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.

Comunidades do G10 Favelas

  1. Baixadas da Condor (PA)
  2. Baixadas da Estrada Nova Jurunas (PA)
  3. Casa Amarela (PE),
  4. Cidade de Deus (AM),
  5. Coroadinho (MA)
  6. Heliópolis (SP)
  7. Paraisópolis (SP)
  8. Rio das Pedras (RJ)
  9. Rocinha (RJ)
  10. Sol Nascente (DF)

Os modelos da iniciativa

Atualmente há mais de 100 bancos comunitários operando no Brasil. O G10 Bank, segundo os organizadores, se inspira no modelo lançado pelo economista bengali Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006.

Considerado o “pai do microcrédito”, Yunnus fundou o Grameen Bank, em Bangladesh, em 1976. A proposta é oferecer crédito para famílias pobres para fomentar atividades que lhe deem renda.

Para erradicar a pobreza, o economista defende implementar mudanças nas instituições e políticas – ou substituí-las por instituições e políticas inteiramente novas.

“Há 85 pessoas no mundo que têm mais da metade de toda a riqueza do planeta. Já a metade mais pobre da população mundial detém menos de 1% desses recursos. Que mundo é esse? [...] Luto por uma nova máquina, por alternativas, por um movimento contrário”, definiu Yunnus à revista Trip, quando esteve no Brasil para promover a Yunus Negócios Sociais, braço brasileiro da Yunus Social Business Global Initiatives, uma incubadora de empreendimentos de impacto social.

Outro modelo citado pelos organizadores foi o Banco Palmas, fundado em Fortaleza, em 1998. Idealizado por Joaquim Melo, hoje presidente da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, o banco busca implementar projetos de trabalho e geração de renda, garantindo microcréditos para produção e consumo no mercado local. Pautado pela economia solidária, o órgão oferece crédito com taxas de juros mínimos e sem requisitos para inscrição, como comprovante de renda ou fiador.

Com abertura anunciada para o fim de fevereiro, o G10 Bank não divulgou a identidade dos primeiros investidores (responsáveis pelo aporte inicial de R$ 1,8 milhão) nem detalhes sobre como serão analisados os pedidos de crédito e quais serão as condições e critérios para quem buscá-los. Segundo a BBC, a instituição terá um conselho composto por empresários, economistas e profissionais do mercado financeiro.

“O projeto não é dar dinheiro, é investir com algum retorno, para que essa operação do G10 Bank seja sustentável”, disse Jerônimo Ramos, ex-executivo da área de microcrédito do banco Santander e atualmente consultor da Avante Microfinanças, está assessorando o G10 Favelas.

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