Como foi a guerra comercial que deu origem ao Super Bowl

Nos anos 1960, liga concorrente ameaçou o domínio da NFL e ajudou a moldar a grande final do futebol americano

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    Kansas City Chiefs e Tampa Bay Buccaneers jogam no domingo (7) a 55ª edição do Super Bowl – apelido dado à final da NFL, liga de futebol americano dos EUA.

    O Super Bowl é um dos eventos esportivos mais importantes do planeta, movimentando bilhões de dólares anualmente em contratos televisivos e patrocínios. A cada ano, o jogo é sistematicamente o evento mais visto pelas televisões dos EUA, com audiências chegando a 100 milhões de pessoas só no país.

    A partida de domingo reúne dois dos melhores jogadores da liga na posição de quarterback – a mais importante do futebol americano. Tom Brady, de 43 anos, jogará o Super Bowl pela primeira vez pelos Buccaneers, após nove aparições e seis vitórias com os New England Patriots, time em que jogou entre 2000 e 2019.

    Pelo lado dos Chiefs, o quarterback é Patrick Mahomes, de 25 anos. Mahomes, que foi campeão da NFL pela primeira vez na temporada de 2019-2020, é dono do maior contrato da história dos esportes, com valor máximo de até US$ 503 milhões em dez anos.

    As origens do Super Bowl

    O primeiro jogo profissional na história do futebol americano foi registrado em 1892. A NFL, fundada em 1920, foi por décadas a única grande liga profissional do esporte nos EUA. O campeão da NFL era reconhecido em todo o país como o campeão nacional do esporte.

    Em 1959, o empresário Lamar Hunt comandou a fundação da AFL (American Football League), uma liga concorrente que ameaçou o domínio da NFL. Hunt era também dono de um dos times da nova liga, os Dallas Texans. A AFL teve sua primeira temporada em 1960, com participação de oito equipes profissionais recém-fundadas.

    A disputa comercial entre NFL e AFL

    Nos primeiros anos da década de 1960, a AFL e a NFL começaram uma guerra comercial. As duas ligas disputaram contratos de televisão, jogadores e torcedores de regiões que tinham times nas duas ligas – casos de Dallas e Nova York, por exemplo.

    A AFL chegou a entrar na Justiça contra a NFL, em um processo antitruste. A acusação de que a NFL operaria como um monopólio no mercado de televisão esportiva foi julgada e rejeitada pelos tribunais americanos em 1962.

    Apesar da disputa legal, o principal instrumento usado no conflito era o dinheiro. Usando recursos de grandes contratos assinados com emissoras de televisão no início dos anos 1960, times das duas ligas passaram a inflar salários de jogadores para atrair os principais talentos. Atletas que saíam da universidade tinham de decidir em qual liga jogariam – o pagamento era frequentemente um dos critérios usados na escolha.

    As conversas para uma fusão

    Com os custos em alta para bancar a disputa, os times das duas ligas começaram a ter problemas financeiros. Em 1966, diante da percepção de que a guerra comercial estava a ponto de se tornar insustentável, as duas ligas iniciaram conversas para uma fusão.

    As negociações tiveram como protagonistas o executivo esportivo Tex Schramm, dos Dallas Cowboys – representando a NFL –, e o fundador da AFL, Lamar Hunt. Em 1963, Hunt tinha mudado seu time de cidade e de nome: os Dallas Texans haviam migrado para o estado de Missouri e virado os Kansas City Chiefs.

    Em 8 de junho de 1966, as duas ligas anunciaram a unificação. Elas operariam ainda separadas por alguns anos – por causa dos diferentes contratos de televisão que as duas partes haviam assinado, os times das duas ligas só jogariam uns contra os outros a partir da temporada de 1970, quando os acordos separados com as emissoras já teriam expirado.

    Havia, no entanto, uma exceção à regra. O acordo da fusão previa um único jogo entre times das duas ligas: um duelo entre o campeão de cada liga, a ser realizado duas semanas após as respectivas finais. Esse jogo foi chamado originalmente de “AFL-NFL World Championship Game” – traduzindo para o português: final do campeonato mundial entre AFL-NFL.

    A primeira partida que reuniu times das duas ligas ocorreu em 15 de janeiro de 1967, em Los Angeles. Os Green Bay Packers, campeões da NFL, ganharam de 35 a 10 dos Kansas City Chiefs, campeões da AFL. Esse jogo ficaria conhecido posteriormente como Super Bowl 1.

    As duas conferências da NFL

    A fusão entre as duas ligas não apenas deu origem ao Super Bowl, mas também ajudou a moldar o formato atual da NFL.

    Em 1970, os 26 times da recém unificada NFL foram divididos em dois grupos de 13: a Conferência Americana, herdeira da AFL, e a Conferência Nacional, herdeira da antiga versão da NFL. As equipes das duas conferências iriam se enfrentar ao longo da temporada regular, e não apenas na final. O Super Bowl continuou sendo disputado por um representante de cada lado – e é assim até os tempos atuais.

    Nas décadas seguintes à fusão, a liga passou por diversas mudanças. Várias equipes mudaram de cidade e nome, e o número de times cresceu – desde 2002, 32 franquias integram a NFL.

    O futebol americano se consolidou como esporte mais popular dos EUA. O Super Bowl, por sua vez, se tornou o evento mais assistido pela televisão americana – superando sistematicamente cerimônias de premiações de Hollywood e eventos de outros esportes.

    Desde a fusão entre a NFL e a AFL, algumas outras ligas de futebol americano profissional foram fundadas – incluindo uma iniciativa capitaneada por Donald Trump entre 1982 e 1986. Mas a empreitada de Trump – que, posteriormente, presidiria os EUA entre 2017 e 2020 – não teve sucesso. Desde 1970, nenhuma liga conseguiu criar uma concorrência tão poderosa contra a NFL como a AFL de Lamar Hunt o fez na década de 1960.

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