O símbolo de ‘Jogos vorazes’ nos protestos de Mianmar

Saudação de três dedos levantados, que já foi usada por manifestantes em Hong Kong e Tailândia, indica ‘resistência’ na narrativa distópica

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Presa nesta segunda (1º), a líder civil Aung San Suu Kyi foi indiciada por autoridades de Mianmar sob acusação de ter violado leis de importação do país.

Prêmio Nobel da Paz de 1991 por sua luta em defesa da democracia no país do sudeste asiático e integrante do partido Liga Nacional pela Democracia, Suu Kyi foi a primeira conselheira de Estado e era chanceler do governo desde 2015. Dois dias após sua prisão, a polícia a indiciou sob justificativa de ter encontrado na sua casa pequenos rádios que teriam sido importados ilegalmente.

Os militares suspenderam uma série de direitos, sitiaram estradas ao redor da capital, Naipidau, e decretaram estado de urgência nacional pelo período de um ano, o que vem sendo denunciado internacionalmente como um golpe de Estado.

Antes de ser presa, Suu Kyi deixou publicada uma carta, difundida na internet, na qual pedia para o povo mianmarense “não aceitar” a ação dos militares.

Nesta quarta-feira (3), manifestantes protestaram contra o golpe em Yangon, uma das maiores cidades do país, utilizando máscaras e fazendo um sinal com as mãos (dedos indicador, médio e anelar ao alto), um gesto semelhante ao simbolizado pela saga distópica “Jogos vorazes”.

Segundo reportou a agência Reuters, manifestantes também reproduziram o sinal na cidade de Mandalay, exibindo uma faixa de apoio ao “movimento de desobediência civil”. A saudação de três dedos levantados também foi fotografada em ato em frente à embaixada da Austrália na Tailândia.

A cultura pop nos protestos na Ásia

Não é a primeira vez que o símbolo marca manifestações na Ásia. A saudação de três dedos ficou famosa nos protestos pró-democracia na Tailândia (que viveu sob regime militar entre 2014 e 2019).

Após o golpe de 2014 na Tailândia, quando ativistas buscavam táticas inovadoras para protestar contra a proibição de reuniões nas ruas, popularizou-se o símbolo dos dedos em riste: organizadas online como “flash mobs” (atos-relâmpagos, neste caso para despistar a polícia), as ações viralizaram na internet. Na época, os militares ameaçaram prender quem não obedecesse à ordem de abaixar os três dedos.

Em outubro de 2020, ativistas voltaram a realizar o gesto na capital, Bangkok, em ato contra o governo – uma monarquia constitucional com comando do primeiro-ministro e general Prayut Chan-ocha, ex-comandante do Exército Real e líder do golpe de 2014.

Nas ruas de Hong Kong, protestos de 2014 liderados por jovens também contaram com intervenções de cultura pop com post-its, memes, referências a John Lennon e Bruce Lee, ao musical da Broadway “Os Miseráveis”, inspirado no romance do século 19 do autor francês Victor Hugo, ao filme “V de Vingança”, baseado na história em quadrinhos do escritor britânico Alan Moore.

À época, emergiu o movimento Occupy Central, pregando desobediência civil e defesa da democracia em Hong Kong. Os ativistas exigiam eleições abertas previstas para 2017 na ilha, território autônomo na China – Carrie Lam, favorita do regime comunista chinês, foi eleita no pleito.

Em junho de 2019, manifestantes voltaram às ruas contra um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes de Hong Kong para a China continental sob certas circunstâncias. Sob pressões, Lam engavetou o projeto indefinidamente. Nos meses seguintes, os atos continuaram, desta vez reivindicando investigações independentes sobre violência policial e anistia a manifestantes presos.

Um dos slogans mais populares em Hong Kong, destacou o jornal The New York Times, foi a frase que ficou famosa na voz da atriz americana Jennifer Lawrence, que interpreta a heroína rebelde Katniss Everdeen na saga “Jogos vorazes”: “se nós queimarmos, vocês queimarão conosco”.

Um símbolo para resistência e revoluções

“Jogos vorazes” é uma trilogia baseada nos livros da autora americana Suzanne Collins: “Jogos vorazes”, “Em chamas” e “A esperança”. A série se desdobrou em quatro filmes – “A esperança” foi dividida em duas partes, lançadas em 2014 e 2015.

A trama se desenrola na nação fictícia de Panem (um tipo de Estados Unidos pós-apocalipse), constituída por uma capital e 12 distritos periféricos. Anualmente, os distritos são obrigados a enviar um garoto e uma garota para disputar um torneio assistido pela capital: um jogo em que os participantes devem lutar entre si até restar apenas um sobrevivente.

Katniss Everdeen se voluntaria para participar dos jogos para salvar a vida da irmã mais nova, sobrevive aos jogos e se torna um símbolo de resistência rebelde.

Na saga, os moradores dos distritos inicialmente utilizam o gesto dos três dedos para expressar agradecimento, admiração e adeus. Ao longo do jogo, o aceno adquire outros significados, como símbolo de revolta dos cidadãos comuns contra a capital que, protegida por militares, abriga apenas os ricos e poderosos.

No contexto das manifestações na Ásia, a saudação passou a simbolizar reivindicações por direitos e democracia e, nas palavras do ativista tailandês Than Rittiphan à agência BBC nos primeiros levantes de 2014, “liberdade, igualdade e fraternidade”, os três ideais da Revolução Francesa, que derrubou do poder a monarquia absolutista no fim do século 18 e mudou os rumos da história.

O gesto também remete a um tipo de ato performático de desobediência civil, uma forma de protesto político pacífico em oposição a uma ordem ou um governo visto como opressor e injusto pelos desobedientes.

Detalhada pelo autor americano Henry David Thoreau, a ideia de desobediência civil é lembrada nas ações lideradas por Mahatma Gandhi na independência da Índia e do Paquistão, Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e Nelson Mandela na resistência contra o apartheid na África do Sul.

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