Quais as boas e as más notícias sobre a vacina de Oxford

Taxa de eficácia pode ser maior se aplicação entre as duas doses for mais espaçada, diz universidade. Há evidências de redução de transmissão do novo coronavírus. Mas países europeus restringem uso por falta de dados consistentes

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A Universidade de Oxford divulgou na terça-feira (2) dados adicionais sobre sua vacina contra a covid-19 mostrando que a eficácia do imunizante pode aumentar se o intervalo de aplicação entre as duas doses recomendadas for maior do que o previsto inicialmente. Num estudo publicado como pré-print, ou seja, ainda sem revisão de outros cientistas, os pesquisadores também apontam que a vacina pode reduzir em até dois terços a capacidade de transmissão do vírus.

Os dados são positivos, especialmente para o Brasil. O governo federal apostou todas as fichas no produto, ao fechar em junho de 2020 um acordo de quase R$ 2 bilhões com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca, que produz a vacina. O negócio prevê a produção de 210 milhões de doses do imunizante no Brasil até o final de 2021, pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), mas o cronograma tem sofrido atrasos devido a dificuldades de liberação dos insumos com a China.

O maior tempo para a aplicação entre uma dose e outra poderá ser benéfico para o plano operacional de vacinação, pois mais pessoas poderiam ser vacinadas num primeiro momento até que mais doses fossem disponibilizadas. O grande desafio enfrentado pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações), atualmente, tem sido a escassez de vacinas. Até o início de fevereiro, o país tinha à disposição apenas 2 milhões de doses da vacina de Oxford, importadas da Índia.

No Reino Unido, que tem aplicado o imunizante, o governo decidiu estender o tempo entre as duas doses para até três meses. Nos Estados Unidos, que ainda analisam a liberação do imunizante, autoridades sanitárias têm se posicionado contra a ideia alegando que os dados apresentados pelos estudos eram insuficientes para a mudança.

O que dizem os dados

Em novembro de 2020, quando divulgou pela primeira vez os resultados preliminares dos testes com sua vacina, a Universidade de Oxford afirmou que a eficácia média do imunizante era de 70%. Ela poderia chegar a 90% se uma meia dose inicial fosse seguida de uma dose inteira. No caso de duas doses cheias, a taxa ficava em 62%.

A aplicação de meia dose não estava prevista e foi um erro admitido pelos pesquisadores. Originalmente, o intervalo proposto de aplicação entre cada dose era de quatro semanas.

O resultado de novembro havia se baseado em 131 casos de infecção de voluntários, retirados de dois dos quatros testes que estavam sendo feitos com a vacina. Já os dados divulgados na terça-feira (2) são considerados uma atualização do estudo, que considera agora 332 casos sintomáticos de covid-19 observados nos participantes de todos os quatro testes realizados em três países.

Para os pesquisadores, não é mais a dosagem que interfere na eficácia, mas o tempo entre cada aplicação. O imunizante apresentou uma taxa de eficácia de 54,9% com as duas doses aplicadas em menos de seis semanas. Se o intervalo, porém, for de três meses entre as duas doses, a mesma taxa salta para 82,4%.

O estudo também calculou a eficácia da primeira dose. No intervalo de 22 a 90 dias após a primeira aplicação, a taxa ficou em 76%, em média. Mas tomar apenas uma dose não seria suficiente, segundo o estudo, porque não está claro qual o tempo de duração da proteção que ela traz. Por isso, é recomendado que a segunda dose seja administrada. Ela induz o aumento no nível de anticorpos neutralizantes no organismo, o que garantiria uma proteção mais longa contra o vírus.

Os pesquisadores reconhecem que o maior tempo entre uma dose e outra pode ser benéfico para os planos de vacinação dos países. “Onde há limitação no abastecimento de vacinas, uma política de vacinar inicialmente um grande grupo com uma única dose pode garantir melhor proteção à população, no geral, do que vacinar metade do número de indivíduos num curto período de tempo”, diz o estudo.

Ao jornal britânico Financial Times a epidemiologista e professora do Imperial College de Londres Azra Ghani afirmou que os resultados precisam ser vistos com cautela, pois o estudo não foi desenhado para a avaliação dos intervalos entre as doses, e os participantes não foram colocados de forma aleatória em cada grupo para esse tipo de análise.

Segundo ela, os resultados obtidos com uma dose única foram observados principalmente em voluntários mais jovens, mulheres, trabalhadores da área da saúde, brasileiros e brancos, além de eles terem sido monitorados por mais tempo, o que difere do grupo que recebeu as duas doses. Outros fatores podem, portanto, ter interferido nos dados, de acordo com a professora.

Queda na transmissão

Pela primeira vez, um estudo sobre vacinas também tratou sobre a capacidade dos imunizantes de impedirem a transmissão do vírus. Os voluntários foram monitorados semanalmente por meio de testes do tipo PCR, que usam secreções do nariz e da garganta para identificar a presença do novo coronavírus no organismo.

Segundo o estudo, uma única dose da vacina reduziu o número de testes positivos em 67%. Quando não há a presença do vírus identificada pelo PCR, o paciente não transmite a doença, segundo os pesquisadores. Por isso, a pesquisa concluiu que a vacina pode cortar a transmissão em dois terços. Após a segunda dose, a redução no número de testes positivos foi de 49,5%.

“Os dados indicam que a vacina, usada no cronograma autorizado, pode ter um impacto substancial na transmissão ao reduzir o número de pessoas infectadas na população”, afirma o estudo.

Para alguns especialistas, porém, conclusões sobre a capacidade de barrar a transmissão do vírus ainda dependem de estudos com amostras maiores de voluntários.

As restrições na Europa

O Reino Unido foi o primeiro país da Europa a usar a vacina de Oxford, mas os países vizinhos têm adotado o imunizante com mais cautela. Um grupo de sete países (Alemanha, França, Áustria, Bélgica, Itália, Suécia e Polônia) decidiu restringir o uso do produto entre a população mais velha. A Alemanha, por exemplo, não recomenda seu uso em idosos acima dos 65 anos. Na Bélgica, o limite é ainda mais baixo: 55 anos.

Segundo esses governos, as informações fornecidas pelo laboratório AstraZeneca, que fabrica as vacinas, trazem poucos dados sobre o efeito do imunizante em idosos, que foram pouco testados. Por isso, eles decidiram esperar até que novos estudos sejam feitos para liberar a vacina para o grupo, considerado o mais vulnerável. Muitos países europeus só recomendam, por enquanto, a vacinação de idosos com o imunizante da Pfizer/BioNTech.

Na Suíça, a agência regulatória local decidiu vetar o uso da vacina de Oxford com o um todo por considerar insuficientes os dados divulgados até aqui sobre segurança, eficácia e qualidade.

No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que controla o uso das vacinas, também ressaltou que os dados ainda eram insuficientes em relação às pessoas mais velhas, mas decidiu liberar o imunizante exigindo o monitoramento dos vacinados para garantir a segurança e eficácia do produto. A situação com a Coronavac foi semelhante. Até o início de fevereiro, nenhuma dessas vacinas tinha apresentado problemas.

O uso da vacina de Oxford no Brasil

Até o início de fevereiro, o Brasil contava com cerca de 12 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, a maioria delas da Coronavac, que está sendo produzida pelo Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo. Apenas 2 milhões eram da vacina de Oxford, importadas da Índia pelo governo federal.

Integrante do consórcio internacional Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), o Brasil também esperava receber por meio do programa entre 10 e 14 milhões de doses da vacina de Oxford a partir de fevereiro — de um total de 42,5 milhões que o país tem direito até o final de 2021.

Devido às dificuldades de acesso aos imunizantes em meio a uma corrida global por vacinas, o número de doses recebidas deve ser apenas de 7,6 milhões até o meio do ano. Cerca de 1,6 milhão deve chegar ainda no primeiro trimestre.

Por causa de atrasos na importação de insumos da China para fabricar a vacina no Brasil, a Fiocruz adiou para março a entrega do primeiro lote do imunizante, com 20 milhões de doses, ao governo federal. Ele estava inicialmente previsto para fevereiro.

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