Por que o Japão ainda não iniciou a vacinação contra covid-19

A 171 dias da Olimpíada, país pretende imunizar cerca de 40 milhões de habitantes até fins de março (na melhor das hipóteses)

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A 171 dias da Olimpíada de Tóquio, cuja abertura até segunda ordem está marcada para 23 de julho, o Japão é uma das nações desenvolvidas que ainda não iniciou campanhas de vacinação contra a covid-19.

Até agora, a hipótese mais otimista do governo é conseguir imunizar 10 mil profissionais da linha de frente no fim de fevereiro e contemplar cerca de 40 milhões de habitantes até fins de março, o que corresponde a aproximadamente 30% da população do país.

De acordo com o cronograma lançado pelo premiê Yoshihide Suga, em discurso diante do Parlamento, em 20 de janeiro, o programa de imunização deve se iniciar “o mais breve possível”, dividido em quatro fases:

  • Fase 1: 10 mil profissionais de saúde, no fim de fevereiro
  • Fase 2: 3 milhões de profissionais de saúde e de cuidado, em março
  • Fase 3: 36 milhões de idosos (mais de 65 anos), no fim de março
  • Fase 4: outros grupos, priorizando grupos de risco, em data indefinida

O governo também pretende investir em uma campanha de relações públicas para encorajar a vacinação no país. Em discurso à imprensa, em 4 de janeiro, o primeiro-ministro, de 72 anos, disse que “daria o exemplo” e estaria entre os primeiros a tomar a vacina, que será gratuita, mas não obrigatória.

Os poréns para iniciar a vacinação

O governo sinalizou a compra de doses suficientes para os 126 milhões de habitantes do país: 140 milhões da Pfizer, 120 milhões da AstraZeneca e 50 milhões da Moderna, que estão no processo de aprovação no arquipélago desde dezembro.

310 milhões

é o número de doses das vacinas esperadas, segundo o premiê japonês Yoshihide Suga

126 milhões

é o número atual de habitantes do Japão

39 milhões

é o número estimado de habitantes que devem ser vacinados até o fim de março

Além da aprovação pendente das vacinas dentro do arquipélago e da logística para armazenamento e distribuição das doses ainda a definir, a ideia de imunização enfrenta resistência na sociedade japonesa.

Segundo uma enquete da empresa britânica Ipsos Mori com 13 mil pessoas em 15 países, divulgada em 30 de janeiro, os japoneses estão entre os mais hesitantes em relação às vacinas contra covid-19: apenas 17% declararam desejar firmemente tomar a vacina, ante 68% no Brasil e 66% no Reino Unido.

No Japão, 62% manifestaram preocupação com os efeitos colaterais dos imunizantes. De acordo com a pesquisa anterior, divulgada em 29 de dezembro, o percentual era ainda maior, na casa dos 76%.

Entre os motivos para a desconfiança entre japoneses está a falta de confiança nas informações oficiais e um histórico de ações judiciais relacionadas a vacinas anteriores.

Em 1992, por exemplo, um tribunal de Tóquio decidiu que o governo poderia ser responsabilizado por efeitos colaterais atribuídos a várias vacinas, escreveu Tetsuo Nakayama, do Instituto de Ciências Kitasato, em artigo científico publicado no Journal of Infection and Chemotherapy. “O governo passou a temer processos. A consequência é que os programas de vacinação do Japão não avançam há 15 ou 20 anos”, acrescentou o autor à agência francesa AFP.

De acordo com a mais recente enquete da agência japonesa NHK, divulgada em 13 de janeiro, 50% dos japoneses pretendem se vacinar contra covid-19, mas 38% não querem.

“Autoridades precisam detalhadamente explicar a evidência científica [das vacinas], assim como os efeitos colaterais. Informar o público sobre a efetividade delas deve ser feito com rapidez e transparência”, declarou Ishii Ken, do Instituto de Ciência Médica da Universidade de Tóquio.

O timing para a Tóquio-2020

Ao todo, 237 imunizantes contra covid-19 estão sendo desenvolvidos e/ou fabricados ao redor do mundo, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde). Até 2 fevereiro foram administradas mais de 100 milhões de doses de vacinas em 64 países, de acordo com a agência Bloomberg.

Enquanto Europa e Estados Unidos estão vacinando rapidamente, outros países estão se movendo mais lentamente e não devem começar a vacinação por enquanto, a fim de observar como a imunização se desenrola no resto do mundo. É o caso de Austrália e Nova Zelândia, segundo destacou o diário britânico The Guardian, e Japão, Hong Kong e Coreia do Sul, conforme destacou o norte-americano The New York Times. A diferença é que o Japão tem uma Olimpíada a realizar.

Em setembro, o diretor-executivo da Tóquio-2020, Toshiro Muto, tinha declarado que a descoberta de uma vacina não era “pré-requisito” para a realização dos Jogos.

Em novembro, enquanto os imunizantes avançavam para as últimas fases de testes, o presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Thomas Bach, disse que a vacinação não será obrigatória, mas ponderou que os atletas e integrantes das delegações deveriam se imunizar como sinal de “solidariedade” aos japoneses, os anfitriões dos Jogos.

Em janeiro, o premiê Yoshihide Suga endossou o discurso dos organizadores olímpicos e declarou que o governo japonês estava tomando todas as medidas para garantir “jogos seguros e protegidos” sem considerar a vacina como uma pré-condição.

Em fevereiro, porém, intensificaram-se os rumores sobre adiar ou cancelar a Olimpíada.

Segundo a mais recente pesquisa da NHK, 16% dos japoneses apoiam o calendário previsto para os Jogos, 39% defendem remarcá-los novamente e 38% cancelá-los de vez.

Teme-se, principalmente, um agravamento da pandemia no país, que desde dezembro enfrenta recordes de internações sobrecarregando o sistema médico e uma disparada de contágios: com o primeiro caso registrado em 16 de janeiro de 2020, o Japão conseguiu controlar relativamente o surto ao longo do ano e atingiu a marca de 100 mil casos apenas no fim de outubro. Entretanto, o número dobrou para 200 mil no fim de dezembro e ultrapassou os 300 mil em 13 de janeiro de 2021.

11 das 47 províncias japonesas estão sob estado de emergência (a diretriz mais forte das autoridades para frear a acelerada disseminação do vírus, visto que a lei japonesa não inclui a possibilidade de lockdown) até 7 de fevereiro. A expectativa é que o estado de emergência seja prorrogado até 7 de março em Tóquio e outras áreas mais atingidas.

Desde o início da pandemia, o arquipélago conta 391 mil casos (51 mil deles ativos) e cerca de 5,8 mil mortes.

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