Os resultados das vacinas diante de variantes do coronavírus

Eficácia dos imunizantes da Novavax e da Janssen foi menor contra cepa da África do Sul. Empresas testam versões adaptadas à mutação

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Dados sobre duas novas vacinas contra a covid-19 divulgados em janeiro revelam que os imunizantes têm menor eficácia contra variantes do novo coronavírus, como a surgida na África do Sul. As mutações têm sido consideradas pelos laboratórios, que já trabalham no desenvolvimento de novos imunizantes. Eles estão sendo pensados como uma dose de reforço para aumentar a proteção da população.

Até o início de fevereiro, dez vacinas contra o novo coronavírus tinham sido aprovadas para o uso limitado ou emergencial ao redor do mundo, e outras 20 em desenvolvimento estavam sendo testadas na fase 3, a última etapa dos ensaios clínicos. Todas elas, independente da plataforma que utilizam, são baseadas no sequenciamento genético do novo coronavírus encontrado em Wuhan, na China, no final de 2019.

O problema é que, quanto mais o vírus circula e mais demorada é a vacinação, maiores as chances de mutações trazem vantagens evolutivas ao coronavírus. Alterações genéticas, ocorridas por causa de erros durante a replicação do agente infeccioso, são comuns, especialmente nos vírus de RNA, como o novo coronavírus. As mutações não necessariamente os torna mais transmissíveis ou letais.

As variantes do Reino Unido, África do Sul e do Brasil (surgida em Manaus) foram identificadas ao mesmo tempo em que uma nova onda da doença ocorria. Por isso, há indícios de que elas possam ser mais contagiosas.

Os testes com as vacinas das empresas americanas Novavax e Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson) já incluem dados sobre as variantes, por terem sido encerrados no começo de 2021. O mesmo não aconteceu com imunizantes da Pfizer/BioNTech, Moderna, Oxford/AstraZeneca e Sinovac, atualmente em uso em vários países, pois os estudos com eles foram feitos antes do aparecimento das mutações.

O que dizem os dados

Novavax

Foram divulgados em 28 de janeiro os resultados dos testes no Reino Unido e na África do Sul. No estudo com cerca de 15 mil voluntários britânicos, a taxa de eficácia foi de 89,3%, e metade dos doentes foi infectada pela variante B.1.1.7, a mesma que levou o Reino Unido a adotar novo lockdown devido ao rápido aumento de casos e mortes no país. O resultado da vacina que usa um pedaço (uma proteína) do vírus foi considerado positivo, mas não se repetiu nos testes realizados na África do Sul, onde cerca de 4.000 pessoas foram testadas. Ali, a eficácia caiu para 49,4%, sugerindo que o imunizante não funciona tão bem contra a variante B.1.351, surgida na região. A nova cepa respondeu por quase todos os casos de infecção nos testes.

Janssen

Um dia após a divulgação dos resultados pela Novavax, a Janssen informou que sua vacina, a única no mundo de dose única, baseada num adenovírus (vírus de resfriado comum modificado para carregar o material genético do novo coronavírus), teve eficácia de 72% nos testes nos Estados Unidos, 66% na América Latina e 57% na África do Sul, o que novamente levantou preocupações sobre o desempenho de uma vacina contra a variante B.1.351. Os testes contaram com quase 44 mil voluntários, no total, inclusive no Brasil. Em todos os locais onde foi testado, o imunizante preveniu a ocorrência de quadros graves de covid-19 em 85% dos casos, depois de 28 dias da vacinação, e nenhum participante que se infectou precisou de hospitalização. Segundo a empresa, a proteção dada pela vacina aumenta com o tempo, mas não se sabe quanto tempo dura.

Outras vacinas

A eficácia contra a variante da África do Sul também foi menor com outras vacinas já liberadas para o uso. Testes realizados em laboratório mostraram que as vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna, que demonstraram eficácia superior a 90% nos ensaios clínicos com o vírus “original”, também tiveram desempenho menor, entre 50% a 60%, contra a B.1.351, que já foi encontrada em 31 países.

Devido à velocidade com que ela tem se espalhado, os Estados Unidos temem que a variante sul-africana responda por uma grande parcela de infectados no país até abril. Por isso, a Moderna anunciou em janeiro o início de testes em voluntários de uma vacina desenhada especialmente para combater a variante.

“Nós precisamos ter muita cautela porque esse vírus é traiçoeiro, como todos nós aprendemos da maneira mais dura no ano passado. Não podemos ficar parados agora, porque levaria meses para termos uma vacina pronta caso a gente precise”, disse Stéphane Bancel, chefe-executivo da Moderna, ao jornal britânico Financial Times, em 26 de janeiro.

Ao jornal The New York Times, em 29 de janeiro, o cientista chefe da Johnson & Johnson, Paul Stoffels, disse que a empresa também está desenvolvendo uma versão de seu imunizante com uma proteína específica da variante sul-africana. A vacina poderia ser direcionada a países que mais sofrem com a mutação.

Em fórum online organizado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) na segunda-feira (1º), o professor e pesquisador da instituição Amilcar Tanuri afirmou que novas vacinas vão precisar ser desenvolvidas se o novo coronavírus começar a apresentar mutações que o façam “escapar” dos imunizantes já utilizados na população.

“Se a gente começar a observar um aumento na incidência [de covid-19] em quem se vacinou, sequenciar e ver que são as variantes, aí é uma evidência muito forte [para fazer uma nova vacina]”, afirmou.

Pela tecnologia que empregam, as vacinas de RNA, como a da Pfizer e da Moderna, conseguiriam ser mais facilmente adaptadas. Elas usam um pedaço do RNA mensageiro do vírus. Quando injetado no organismo, o material genético do Sars-CoV-2, que causa a covid-19, dá ordens para que as próprias células humanas produzam a proteína que reveste o novo coronavírus. Essa proteína é reconhecida pelo sistema imune, induzindo a produção de anticorpos e células de defesa.

“A beleza da tecnologia do RNA mensageiro é que podemos começar diretamente a construir uma vacina que mimetiza completamente essa nova mutação e podemos fabricar a nova vacina em seis semanas”, disse o chefe-executivo da BioNTech, Ugur Sahin, ao jornal britânico Financial Times, em dezembro.

A variante de Manaus

No início da pandemia no Brasil, a capital do Amazonas viu seus sistemas hospitalar e funerário entrarem em colapso por causa da covid-19. Como os casos e mortes diminuíram em meados de 2020, alguns pesquisadores chegaram a cogitar que a cidade havia atingido a imunidade coletiva, ou seja, a parcela da população infectada foi tão grande que a transmissão começou a cair por causa da proteção natural adquirida pela maioria das pessoas.

Essa tese foi colocada em xeque por uma segunda onda da doença no começo de 2021, quando novamente os hospitais ficaram sobrecarregados e pacientes morreram sem oxigênio. Para piorar, pesquisadores descobriram uma nova variante, batizada de P.1, que compartilha algumas mutações das variantes do Reino Unido e da África do Sul, embora as três tenham origens distintas.

Amilcar Tanuri, professor da UFRJ, disse durante o fórum online na segunda-feira (1º) que culpar a catástrofe em Manaus por causa da variante seria “forçar a barra”. Segundo ele, outros fatores estão associados à crise sanitária na cidade.

“A população deixou de usar máscaras e aglomerou, até por essa questão de acharem que tinham imunidade de rebanho e que a pandemia tinha acabado. (...) A grande mortalidade é devido à lotação dos hospitais, à falta de oxigênio e à desorganização”, afirmou.

Para ele, alguns municípios, como Macaé, evidenciam que a taxa de mortalidade da primeira e da segunda onda de covid-19 é “virtualmente idêntica ou não tem diferença nenhuma”, sugerindo que a cepa em circulação pode não determinar a gravidade do problema. Tanuri defende a política de testagem seguida de isolamento de doentes como uma medida para controlar a transmissão de novas cepas do vírus.

Há, mesmo assim, o temor de que a P.1 se espalhe pelo país contribuindo para a piora da pandemia, considerando a possibilidade de que ela possa infectar novamente quem já teve a doença anteriormente. Casos já foram confirmados em São Paulo e em outros nove países, como Estados Unidos, Itália, Coreia do Sul e Japão. Países como Colômbia, Portugal, Alemanha e Turquia suspenderam voos do Brasil.

Atualmente, o país usa apenas duas vacinas: a Coronavac (da chinesa Sinovac), com eficácia de 50,38%, e a de Oxford/AstraZeneca, cuja eficácia média é de 70,4%. Não se sabe, porém, como elas respondem à nova variante encontrada em Manaus, porque não foram testadas contra a P.1. Além disso, devido à escassez de imunizantes no Brasil, apenas 2 milhões de pessoas receberam as vacinas no país em janeiro, o que representa menos de 1% da população.

Por que a vacinação é importante

Com o aparecimento de novas variantes, a pandemia do novo coronavírus ficou ainda mais complexa, segundo os cientistas. Por isso, é importante que os países façam vigilância genômica para identificar novas cepas na tentativa de conter surtos da doença.

Caso elas se espalhem por países que conseguiram realizar a vacinação em massa de sua população, é possível que a pandemia ressurja e todo o esforço se perca, fazendo com a doença pareça nunca ter fim.

Embora a eficácia dos imunizantes tenha se mostrado menor com algumas as variantes, como a da África do Sul, as vacinas ainda funcionam e deveriam ser aplicadas o mais rápido possível, de acordo com os cientistas.

“Quanto menos pessoas ficarem infectadas, menores chances são dadas à mutação para que ela se torne dominante”, afirmou ao jornal The New York Times, em 29 de janeiro, o médico especialista em doenças infecciosas Anthony Fauci, que comanda a força-tarefa do governo americano para combater a pandemia.

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