O emprego no Brasil durante a pandemia em 3 pontos

Taxa de desemprego cai e vai a 14,1%, ainda em patamares altos. O ‘Nexo’ mostra a trajetória do mercado de trabalho desde o início da emergência sanitária

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A taxa de desemprego no Brasil ficou em 14,1% no período entre setembro e novembro de 2020. É o que divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (28).

PATAMAR ALTO

Trajetória da taxa de desemprego no Brasil. Acima de 14% em 2020

A taxa referente ao período de setembro a novembro de 2020 foi divulgada como parte da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), publicada todos os meses. A pesquisa entrevista sempre em torno de 211 mil domicílios de todo o território nacional, levando em conta localização e classe social, e coleta informações sobre trabalho e renda, entre outros itens.

O risco de contágio pelo novo coronavírus levou o IBGE a fazer mudanças em suas atividades e calendário. A coleta de dados, antes feita em visitas a casas selecionadas, passou a ser feita por telefone a partir da segunda metade de março de 2020.

Em relação aos três meses anteriores, houve queda na taxa de desemprego entre setembro e novembro. Entre junho e agosto, o indicador estava em 14,4% – primeira vez na série histórica do IBGE, iniciada em 2012, que ultrapassou 14%. A taxa de desemprego ficou acima desse patamar em todos os dados divulgados desde então pelo IBGE. Portanto, apesar da queda no trimestre encerrado em novembro, o número continua em patamares historicamente altos.

O mercado de trabalho na pandemia

A taxa de desemprego não é o único dado importante para entender a crise do mercado de trabalho brasileiro na pandemia. Isso porque tecnicamente o IBGE só considera como desempregada aquela pessoa que está sem trabalho mas busca novas oportunidades. Portanto, o indicador deixa de fora as pessoas que perderam emprego mas decidiram se retirar do mercado.

Abaixo, o Nexo mostra outros números importantes que ilustram a trajetória do mercado de trabalho desde março de 2020.

Os empregos fechados e criados

A série do IBGE sobre emprego só ia até novembro de 2020 – até janeiro de 2021, não havia dados de dezembro e janeiro. Considerando que a pandemia começou em março de 2020, é possível separar os dados do emprego no período de crise sanitária em três trimestres: de março (quando a Organização Mundial da Saúde decretou estado de pandemia) a maio; de junho a agosto; e de setembro a novembro. O gráfico abaixo mostra o saldo de vagas fechadas e criadas em cada um desses períodos.

SALDOS TRIMESTRAIS

Saldo de emprego em cada trimestre de pandemia no Brasil. Quedas no primeiro e no segundo, aumento no terceiro -- mas não suficiente para compensar as perdas anteriores

O gráfico mostra como o maior impacto da pandemia sobre o mercado de trabalho ocorreu no primeiro trimestre da crise sanitária. O período entre março e maio ficou marcado pelo maior rigor das medidas de isolamento social – sejam elas impostas pelas autoridades locais ou adotadas voluntariamente por pessoas com medo do contágio pelo coronavírus.

Mas mesmo a partir de junho, com maior flexibilização das medidas de restrição à circulação, o emprego continuou caindo. Eventuais aumentos no consumo não foram suficientes para recuperar muitas das empresas afetadas pela crise econômica. O ajuste de contas das firmas – que muitas vezes significou redução do quadro de funcionários – continuou ocorrendo.

Entre setembro e novembro, o mercado de trabalho reverteu a situação e começou a gerar empregos pela primeira vez desde o início da pandemia. Mas o número de vagas novas não foi suficiente para compensar as perdas dos seis meses anteriores.

8,13 milhões

foi o total de vagas de trabalho fechadas no Brasil nos primeiros nove meses de pandemia

Formalidade e informalidade

Destrinchados, os saldos de emprego mostram como os mercados de trabalho formal e informal foram impactados de forma diferente em cada um dos três trimestres de pandemia. O gráfico abaixo mostra como os trabalhos formais e informais foram afetados entre março e novembro.

TRAJETÓRIAS DIFERENTES

Saldo de empregos formais e informais no Brasil em 2020. Informais no geral mais afetados

Os mais afetados pela pandemia num primeiro momento foram os trabalhadores informais – como vendedores ambulantes e entregadores e motoristas de aplicativos. Esse movimento expôs a maior vulnerabilidade dessa categoria, que vinha crescendo no Brasil desde a recessão de 2014 a 2016.

No período seguinte, entre junho e agosto, os mais afetados foram os trabalhadores formais – seguindo o movimento de continuidade de revisão de gastos das empresas. Entre setembro e novembro, a criação de novas vagas foi puxada pelo setor informal, refletindo a maior facilidade de reinserção nas atividades em que a contratação é mais barata e menos burocrática.

Apesar da retomada mais forte das vagas informais no terceiro trimestre da pandemia, o fechamento de postos informais desde o início da crise sanitária continuou superando o de postos formais. Das mais de 8 milhões de vagas perdidas nos nove primeiros meses de pandemia, 4,6 milhões (56,5%) eram informais.

A taxa de informalidade antes da crise era de cerca de 40%. Portanto, os trabalhadores informais arcaram com a maior parte das demissões, mesmo tendo menor participação no mercado de trabalho antes da pandemia.

A participação na força de trabalho

Por causa da pandemia, muitas pessoas saíram do mercado de trabalho – optaram por não procurar oportunidades, por medo de contágio pelo vírus ou por falta de vagas na cidade onde moram.

O auxílio emergencial, programa articulado pelo Congresso Nacional, foi um fator importante para permitir que isso acontecesse. Ao garantir uma renda mínima à população mais vulnerável, o benefício manteve algum potencial de consumo desses brasileiros. Sem o auxílio, muitas pessoas não teriam recursos para a subsistência e não teriam outra opção além de procurar trabalho e, consequentemente, se expor ao vírus.

Na pandemia, o maior momento de retirada da força de trabalho – que soma quem está trabalhando e quem está procurando emprego – ocorreu entre março e maio, quando 7,4 milhões de pessoas deixaram a força de trabalho. Isso indica, no saldo das operações, que quase todas as pessoas que perderam trabalho (7,7 milhões) decidiram não voltar a procurar emprego imediatamente. Isso explica por que a taxa de desemprego não disparou mesmo no momento mais grave da crise econômica.

FORÇA DE TRABALHO

Saldo de mudanças na força de trabalho no Brasil em 2020. Mais gente saiu do que entrou, em especial no começo da pandemia

O movimento de desidratação da força de trabalho continuou entre junho e agosto, quando o processo de reabertura econômica começou. Mas a retirada do mercado de trabalho nesse período ocorreu em um ritmo mais lento que nos três meses anteriores.

A partir de setembro, dois fatores colaboraram para a volta do crescimento da força de trabalho. Primeiro, a pandemia deu sinais de arrefecimento – os números de mortes e novas infecções pelo coronavírus começaram a cair. Além disso, o auxílio emergencial teve seu valor reduzido de R$ 600 para R$ 300, o que apertou o orçamento de famílias de baixa renda e significou, em alguns casos, a necessidade de retorno ao mercado de trabalho.

O que vem pela frente

Os fatores citados como importantes para determinar a dinâmica do mercado de trabalho – estado da pandemia, medidas de isolamento e auxílio emergencial – passaram por mudanças na virada de 2020 para 2021.

Os números de mortes e contágios pelo coronavírus aumentaram significativamente a partir de novembro. Em janeiro, a média móvel de mortes no Brasil voltou a ser superior a mil por dia pela primeira vez desde agosto. Em muitos lugares do Brasil, isso significa endurecimento das medidas de restrição da circulação. Além disso, o avanço da pandemia pode levar mais pessoas a terem receio de sair de casa para buscar emprego – podem, assim, decidir permanecer fora da força de trabalho.

Mas nem todos terão essa opção. O fim do auxílio emergencial em 31 de dezembro significou, para milhões de brasileiros, uma redução total de renda em meio à crise. Mais pessoas devem voltar ao mercado de trabalho por conta da necessidade imposta pelo encerramento do programa.

Não se sabe exatamente o ritmo pelo qual o mercado de trabalho será capaz de absorver pessoas que buscam oportunidades. Economistas apontam que a criação de novas vagas dependerá do ritmo de recuperação da economia, mas não há consenso sobre a velocidade em que isso ocorrerá.

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