Por que as máscaras caseiras estão sendo proibidas na Europa

Novas regras na Alemanha, na França e na Áustria impõem uso de máscaras industriais, que são mais caras e mais escassas

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Para conter a disseminação das variantes mais contagiosas do novo coronavírus, países da Europa endureceram as regras de uso de máscaras, banindo as proteções caseiras em locais públicos. A medida foi tomada até agora pela Alemanha, pela França e pela Áustria para controlar as novas variantes detectadas no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil, e determina o uso de proteções faciais industriais, que filtram 90% ou mais de partículas.

A primeira a anunciar a medida foi a chanceler alemã Angela Merkel, no dia 19 de janeiro. A exigência é que as pessoas usem coberturas faciais cirúrgicas (que são geralmente azuis e usadas em hospitais) ou respiradores PFF2 (equivalente à N95 no Brasil) em vez de máscaras de pano feitas em casa — a região da Bavária, no entanto, proibiu também o uso das máscaras cirúrgicas.

A mudança ocorre no momento em que o país registra aumento no número de mortes por covid-19, apesar da diminuição de novas infecções. “Peço às pessoas que levem isso a sério. Caso contrário, é difícil evitar uma terceira onda”, afirmou a chanceler a jornalistas em Berlim na quinta-feira (21).

Na sequência, a França publicou um decreto impondo a nova restrição, anunciada na sexta-feira (22). O governo francês determina que a população utilize proteção facial cirúrgica, PFF2 ou máscaras de tecido que bloqueiem mais de 90% das partículas.

Na segunda-feira (25) foi a vez da Áustria anunciar medidas parecidas. A exigência é que sejam utilizadas máscaras PFF2 ou similares (que filtram 90% ou mais de partículas) em locais públicos.

Mudança de hábito

Segundo a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde), máscaras médicas ou cirúrgicas devem ser usadas apenas por profissionais de saúde, pessoas com sintomas de covid-19 ou que tiveram contato com alguém com a doença, pessoas com 60 anos ou mais ou com comorbidades que integram o grupo de risco.

Segundo a organização afirmou na sexta-feira (22), a máscara de tecido caseira com três camadas, que deve ser utilizada pela população geral, tem eficiência já comprovada e pode filtrar cerca de 70% das partículas.

O ministro da Saúde francês, Olivier Véran, no entanto, recomendou o uso de máscaras produzidas industrialmente. Em entrevista à rádio France Inter, ele afirmou que “as máscaras artesanais, com as melhores intenções do mundo, não oferecem todas as garantias necessárias”.

A Academia Nacional de Medicina francesa discorda. A organização afirma que, se usadas corretamente, as máscaras caseiras não têm sua eficácia prejudicada. “Tal mudança nas recomendações relativas a uma prática com a qual toda a população conseguiu se familiarizar pode criar mal-entendidos e reacender dúvidas sobre a validade das recomendações oficiais”, escreveu a entidade em um comunicado.

Além das máscaras agora exigidas pelos três países serem mais caras do que as produzidas de forma caseira, há o receio de que, ao tornar o produto obrigatório, ele falte em locais em que são realmente necessários, como hospitais. Nos EUA, por exemplo, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) desencoraja a população a usar máscaras médicas para que elas sejam reservadas aos profissionais de saúde.

O governo da Alemanha, por sua vez, afirma que há oferta suficiente para a população e para os profissionais de saúde. Além disso, garante que uma ajuda financeira será disponibilizada para quem não puder comprar as máscaras: vouchers serão enviados a mais de 34 milhões de residentes alemães.

Já a Áustria afirmou que, nos primeiros dias da nova regra, vai distribuir de forma gratuita para a população 1,2 milhão dessas máscaras em locais como supermercados, a fim de garantir a ampla adoção da nova proteção.

No Brasil, o uso de máscaras se tornou obrigatório em espaços públicos e privados em todo o país em julho, mas legislações municipais já determinavam o uso da proteção. A lei nº 14.019/2020 recomenda uso de máscara industrial ou caseira, sem determinar um tipo específico de produto. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, tentou vetar o uso obrigatório de máscaras em igrejas, escolas e presídios — medida que foi derrubada pelo Congresso.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro é fotografado sem máscara promovendo aglomerações por onde passa. Mesmo com o avanço da doença no país, no dia 30 de dezembro o presidente passeou por Praia Grande sem a proteção, cumprimentando simpatizantes e pegando crianças no colo.

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