Maquiagem e caricatura: o debate sobre transfobia no BBB

Participantes homens são criticados por se maquiarem e fazerem piada. Ao ‘Nexo’, presidente de organização LGBTI diz que comportamento deslegitima identidade de gênero, mas discussão sobre o tema contribui para a visibilidade 

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    Às vésperas do Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado na sexta-feira (29), uma ação de marketing de uma marca de maquiagem no reality show Big Brother Brasil desencadeou uma discussão sobre transfobia.

    Na quarta-feira (27), um dos participantes, Caio, fazendeiro de Anápolis (GO), sugeriu que as mulheres da casa o maquiassem junto com outros 'brothers', entre eles Fiuk, Rodolffo, Gilberto e Projota. Eles então desfilaram de forma caricata usando batons e sombras.

    Lumena, outra integrante da casa, criticou a atitude dos homens héteros. Ela disse a Caio que, para ela, a brincadeira “tocou em um lugar muito violento” e é prejudicial para mulheres trans. “Eu sei que você não sabe, porque eu sei que você não tem amiga trans ou travesti, então você nunca ouviu o que eu ouvi”, disse.

    Segundo Lumena, pessoas trans que se identificam com o gênero feminino usam a maquiagem como forma de serem reconhecidas, numa atitude identitária e não de “entretenimento”, como fizeram os colegas homens.

    Caio pediu desculpas, e justificou a ação afirmando que cresceu em um ambiente machista. “Eu fui pego de surpresa por você, eu venho de um meio diferente do seu, nem melhor nem pior”, disse. “Peço perdão, peço desculpas. Não foi nada com ninguém. Era apenas para as meninas brincarem de pôr a maquiagem. Uma simples brincadeira.” Os outros integrantes da casa que participaram da ação também se desculparam.

    Nas redes sociais, os fãs do programa se dividiram. Enquanto alguns consideraram exagerada a fala de Lumena, outros caracterizaram a atitude dos participantes como transfóbica e machista por estereotipar o comportamento afeminado.

    Essa não é a primeira vez que uma ação de Caio é interpretada como transfóbica pelos fãs do reality. Na terça-feira (26), um dia depois do início do BBB, o integrante da casa afirmou que “mulher, se ela for fazer uma cirurgia para virar homem, a primeira coisa que ela tem que fazer é arrancar metade do cérebro”.

    A questão da performance

    Uma das competidoras, a cantora Karol Conká, afirmou que não viu maldade na cena. “Não há necessidade de um radicalismo em uma situação como essa que foi para desconstruir. Ninguém desrespeitou ninguém”, afirmou no programa.

    Para Simmy Larrat, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), o ponto central da discussão não diz respeito ao uso da maquiagem, mas à performance dos participantes. Quando um homem se veste de mulher e performa, ele traz o pejorativo dessa mulher, afirma Larrat.

    “Quando um homem se veste de mulher, ele não interpreta uma mulher. Quando ele se veste com roupas femininas, ele interpreta como se ali fosse uma ‘travesti’. O tempo todo ele coloca questões afeminadas, caricaturas de gays afeminados e de ‘travestis’. Quando a gente faz isso, a gente está diminuindo e deslegitimando as identidades de gênero”, disse ao Nexo.

    Caso relembrado

    Uma cena parecida aconteceu na edição anterior do programa, em 2020, quando as participantes Ivy, Manu, Rafa e Mari pediram para que Babu se deixasse ser maquiado e “montado” por elas. O caso foi relembrado nas redes sociais pelos espectadores do BBB e contraposto ao desta quarta-feira (27).

    Na ocasião, Babu concordou e as mulheres o maquiaram e vestiram. Nas redes, fãs lembraram que a situação não foi considerada transfóbica na época porque o participante não tratou a feminilidade como piada ou brincadeira.

    Para Larrat, a presença do assunto num programa como o BBB pode ajudar a ampliar a visibilidade de pessoas trans.

    “O preconceito parte ou do ódio ou da ignorância. O da ignorância a gente pode resolver, porque ignorância se vence com informação, com educação. Quando temas como esse aparecem no Big Brother para serem debatidos, para nós é importante, porque isso também é visibilidade”, disse Larrat.

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