O que muda e o que não muda com os novos lotes de vacina

Índia envia 2 milhões de doses de Oxford/AstraZeneca ao Brasil, depois de impasses na negociação. Junto com doses do Butantan, imunizantes dão fôlego à campanha de vacinação, mas ainda são insuficientes para grupos prioritários

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A Índia enviou ao Brasil um avião com 2 milhões de doses da vacina de Oxford/Astrazeneca na tarde de sexta-feira (22), depois de uma série de atrasos na exportação do produto, que representaram um desgaste para o governo brasileiro na última semana.

O avião indiano desembarcou em São Paulo, e a entrega das vacinas foi acompanhada por autoridades do governo federal. Os imunizantes devem seguir para a Fiocruz, no Rio de Janeiro, na madrugada deste sábado (23), e serão distribuídos aos estados a partir do período da tarde.

A campanha de imunização contra a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, começou no país no último domingo (17), pouco depois de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ter aprovado o uso emergencial da Coronavac e da vacina de Oxford/AstraZeneca no país.

Sem dispor de doses da vacina de Oxford, que ainda não começou a ser fabricada no Brasil, a campanha contava exclusivamente com doses da Coronavac até esta sexta-feira. Os imunizantes haviam sido importados da China pelo governo do estado de São Paulo, e o Ministério da Saúde os distribuiu aos estados.

404 mil

brasileiros haviam sido vacinados com a primeira dose da Coronavac até sexta-feira (22) em 12 estados, segundo informações de consórcio de veículos de imprensa

O plano original do governo federal era que, após a aprovação da Anvisa, a campanha de imunização contra a covid-19 fosse iniciada com a vacina de Oxford/AstraZeneca, que segundo as autoridades brasileiras chegariam da Índia na sexta-feira anterior à reunião da agência sanitária, dia 15. O acordo, porém, não estava fechado, e as doses não chegaram nesse prazo.

A vacina de Oxford/Astrazeneca era a aposta do governo de Jair Bolsonaro na crise da covid-19. A Coronavac, por outro lado, era a aposta do governador paulista, João Doria (PSDB), que é adversário político de Bolsonaro. O uso da Coronavac no plano nacional de vacinação chegou a ser descartado pelo presidente em 2020.

Com a chegada das doses da Índia, o país conta agora com dois imunizantes para a campanha de vacinação contra a covid-19, em um contexto de escassez das doses disponíveis e entraves para a produção de mais vacinas no Brasil.

Mais doses também serão introduzidas na campanha de vacinação do país depois do aval da Anvisa, nesta sexta-feira (22), ao uso de um novo lote de 4,1 milhões da Coronavac, envasadas no Instituto Butantan.

As novas remessas devem dar mais fôlego à imunização no país. Mesmo assim, a quantidade não é suficiente para vacinar todos os grupos prioritários da campanha, e as negociações para obter mais imunizantes ainda precisam avançar.

O problema da falta de doses

A quantidade de doses disponíveis até o fim da primeira semana de campanha, 6 milhões, não foi bastante para vacinar os grupos considerados prioritários no Plano Nacional de Imunização. Os estados receberam o suficiente para vacinar 3 milhões de pessoas, pois a vacina deve ser aplicada em duas doses. Com as novas doses da vacina de Oxford e da Coronavac, seria possível vacinar cerca de 3 milhões a mais — o que ajudaria a manter a campanha por mais tempo, mas ainda não seria suficiente para todos que precisam no momento.

O Plano Nacional de Imunização original definia que, na primeira fase da campanha contra a covid-19, seria obrigatório vacinar profissionais de saúde, idosos a partir de 75 anos, idosos institucionalizados e indígenas. Os grupos somam juntos mais de 8 milhões de pessoas, segundo o governo federal.

Com a escassez de doses, o plano excluiu idosos a partir de 75 anos e incluiu pessoas com deficiência institucionalizadas na primeira fase da vacinação. Em São Paulo, os quilombolas, que constavam nas prioridades do plano estadual, também foram excluídos da primeira fase da campanha, mas o governo estadual voltou atrás.

Mesmo com mudanças no plano de imunização, estados e municípios têm dificuldades para definir prioridades no contexto de escassez. Entre os impasses está o de decidir como imunizar os profissionais de saúde, que incluem categorias tão diferentes quanto intensivistas, veterinários e educadores físicos.

Na quinta-feira (21), as secretarias de Saúde de Manaus e do estado do Amazonas suspenderam a vacinação por um dia para definir os critérios de seleção dos profissionais que receberão as doses disponíveis. Especialistas e entidades da área médica defendem a priorização de profissionais que estão na linha de frente da resposta à covid-19.

Outro impasse se refere à vacinação de indígenas. Os grupos priorizados neste momento são indígenas aldeados, ou seja, aqueles que vivem em terras demarcadas. O critério exclui os indígenas que vivem em contexto urbano e aqueles que estão em terras não demarcadas ou em situação de disputa territorial.

O início da campanha de vacinação contra a covid-19 também vem sendo marcado por suspeitas de irregularidades. Em ao menos sete estados autoridades investigam casos de pessoas que estão fora do grupo prioritário, mas supostamente “furaram a fila” e se vacinaram. Os investigados são, na maioria, prefeitos e funcionários públicos.

O problema da falta de insumos

A campanha de vacinação no país não tem apenas o problema da escassez de doses: tem também o problema da falta de insumos necessários para produzir mais doses. Sem produção local, o país corre o risco de precisar interromper a campanha de vacinação, pouco depois de tê-la iniciado.

O país depende principalmente da importação de insumos da China para conseguir produzir imunizantes em solo nacional e usá-los na campanha de vacinação brasileira. O principal deles é o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), componente que garante que a vacina cumpra seu papel de imunizar o organismo.

A importação de IFA está atrasada, pois a China tenta equilibrar a imunização da própria população com a estratégia de exportar o insumo. O movimento repete a diplomacia sanitária que já havia marcado o início da pandemia, com vendas e doações de máscaras, respiradores e outros insumos de Pequim ao exterior.

O problema afeta tanto a produção da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo paulista, quanto do imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca. O IFA usado na fabricação de cada uma das vacinas é diferente.

O Butantan recebeu 6 milhões de doses prontas da China e produziu 4,1 milhões no Brasil, usando IFA importado. A Fiocruz, que deve produzir a vacina de Oxford no Brasil, precisa receber os insumos do país asiático para começar a fabricação do imunizante e prevê entregar as primeiras vacinas produzidas em território nacional apenas em março.

O impasse é semelhante ao que o Brasil teve com a Índia até receber as primeiras doses da vacina de Oxford na sexta-feira (22). A Índia também atrasou o envio dos imunizantes ao país porque buscava equilibrar a exportação das doses com a imunização da população local. Por enquanto, ainda não há data para chegada dos insumos chineses.

Apesar das decisões internas da China e da Índia, a diplomacia brasileira tem responsabilidade pelos atrasos dos insumos, segundo especialistas. “O governo Bolsonaro criou muitas tensões e problemas desnecessários”, disse Mauricio Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais da Uerj, em entrevista ao Nexo publicada na quarta-feira (20).

O Ministério da Saúde negocia com a China a chegada dos insumos. A embaixada do país no Brasil disse na quinta-feira (21) que fará esforço máximo para avançar na importação. Os governos estaduais, como o do estado de São Paulo, também têm dialogado com os chineses para tentar garantir que a campanha de vacinação não seja interrompida.

A busca por alternativas

Com a escassez de doses de vacinas, uma das medidas cogitadas entre autoridades do país é adiar a aplicação da segunda dose da Coronavac, com o objetivo de usar todos os imunizantes disponíveis agora para ampliar a quantidade de pessoas imunizadas com o primeiro lote de vacinas.

A Coronavac deve ser aplicada em duas doses em um intervalo de 14 a 28 dias, segundo os desenvolvedores do produto. O Instituto Butantan afirmou na quinta-feira (21) que não endossa a proposta de adiar a segunda dose, pois não é possível saber sobre a resposta imune de pacientes que fiquem um período mais longo sem a segunda aplicação.

A Fiocruz, por outro lado, recomenda a aplicação de uma dose única da vacina de Oxford no primeiro momento. “Nós já temos uma comprovação da eficácia de 73% por 120 dias a partir da primeira dose. Tratamos a segunda dose quase como um reforço”, disse Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, em entrevista na quinta-feira (21). Por enquanto, o Ministério da Saúde diz que a imunização deve seguir o que sugere a Oxford/AstraZeneca.

A proposta de adiar a segunda dose da vacinação para cobrir mais pessoas o mais depressa possível foi adotada no Reino Unido, que desde o início de dezembro de 2020 vem aplicando em sua população o imunizante da Pfizer e a vacina de Oxford/AstraZeneca. A eficácia da dose única na região, porém, ainda é pouco conhecida.

Em Israel, que vacinou grande parte de sua população com a primeira dose da Pfizer, a estratégia não parece estar dando certo. A Pfizer havia estimado que a dose única poderia atingir 52% de eficácia — com duas doses, ela é de 95% —, mas na prática o resultado foi menos eficaz do que se imaginava, segundo as autoridades do país.

Caso consiga os insumos necessários, o Instituto Butantan diz que terá capacidade de produzir 1 milhão de doses da Coronavac por dia. O laboratório promete entregar, ao todo, 46 milhões de doses da vacina até abril. A Fiocruz diz que planeja entregar 100 milhões da vacina de Oxford no primeiro semestre.

Os representantes de outra vacina, a Sputnik, produzida na Rússia, tentam obter a autorização para uso emergencial do imunizante no Brasil. A Anvisa, contudo, recusou um pedido dos russos no último sábado (16), pois não houve testes clínicos da Sputnik no país. Os russos podem apresentar um novo pedido.

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