Sem folia, sem feriado: como será o carnaval em 2021

Festa tradicional foi suspensa no país. Parte dos estados e dos municípios decidiu também cancelar os dias de descanso em fevereiro. Blocos e músicos tentam promover alternativas virtuais

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Originalmente prevista para começar em 13 de fevereiro, a comemoração do carnaval de 2021 foi adiada em todo o país. Se mantidas, as gigantescas aglomerações geradas pela festa seriam como “bombas” de contágio do novo coronavírus.

Ao mesmo tempo, as folgas de segunda e terça-feira de carnaval – que caem nos dias 16 e 17 de fevereiro em 2021 – foram canceladas pela maioria dos estados. Pela lei, a festa não é um feriado nacional, mas um ponto facultativo. Ou seja, estados e municípios têm autonomia para decidir sobre a folga.

No início do ano, o governo federal chegou a se comprometer a manter o feriado. Em 11 de janeiro, Gilson Machado, ministro do Turismo, orientou os brasileiros a não cancelar planos de viagens. Dias antes, em sua live de 7 de janeiro, o presidente Jair Bolsonaro errou ao afirmar que o feriado integrava uma lei federal e que ele pretendia manter a folga.

Na Câmara dos Deputados tramita um projeto de lei que transforma os dias 12 e 13 de julho em feriado nacional, para a celebração do carnaval. O autor da proposta, Dr. Luiz Antônio Teixeira Jr (PP), acredita que, na data, grande parte da população brasileira já vai estar imunizada contra o novo coronavírus – uma perspectiva que agora parece distante da realidade.

Definições sobre feriado

Recife e Olinda

Com mais de 1.500 blocos e pouco menos de 400 mil habitantes, Olinda possui um dos carnavais mais tradicionais do país, que, assim como o da vizinha Recife, foi cancelado por meio de um decreto. Na quinta-feira (28), o governo estadual suspendeu o ponto facultativo e não haverá feriado em Pernambuco nos dias 15 e 16 de fevereiro.

São Paulo

A cidade brasileira que mais reuniu foliões na festa de 2020 —foram cerca de 15 milhões de pessoas, segundo a prefeitura— cancelou na sexta-feira (29) o ponto facultativo. O feriado fica suspenso nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro.

Belo Horizonte

A capital mineira suspendeu o feriado de carnaval, que deve ser transferido para uma nova data ainda não divulgada. O prefeito Alexandre Kalil (PSD) afirmou que vai se basear no que for decidido pelos governos do Rio de Janeiro e da Bahia.

Salvador

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), afirmou que não vai estimular qualquer atividade festiva no estado e que, portanto, o feriado não está mantido. O feriado também foi cancelado no estado. Em 2020, cerca de 3 milhões de pessoas acompanharam os trios elétricos da capital Salvador.

Fortaleza

No Ceará, o governador Camilo Santana (PT) cancelou o carnaval e o ponto facultativo de segunda (15) e terça-feira (16) de carnaval. Ainda não há previsão de que o feriado seja remarcado para outro dia.

Rio de Janeiro

A festa não é ponto facultativo no estado desde 2008, ano em que uma lei estabeleceu feriado na terça-feira de carnaval. Em 2021, o feriado está mantido, mas não haverá blocos ou desfiles. O adiamento da folia foi orquestrado com a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) e representantes dos blocos de carnaval tradicionais da cidade, originalmente para os dias 11 e 12 de julho. Na quinta-feira (21), o prefeito da capital, Eduardo Paes (DEM), anunciou o cancelamento do evento em 2021, e disse que o governo local vai promover editais para entidades que vivem da festa.

Programação online

Blocos e músicos que tradicionalmente guiam as ruas do país em época de carnaval vão tentar adequar o formato singular da folia ao de uma tela. De Pernambuco, os clássicos blocos Galo da Madrugada e O Homem da Meia-Noite planejam fazer lives em fevereiro.

O bloco Olodum, cujas músicas regem as festas de carnaval em todas as cidades do país, também vai se reunir para fazer uma apresentação virtual no dia 12 de fevereiro, às 19h.

Além deles, a cantora Daniela Mercury agendou a live chamada “Carnaval virtual da rainha” também para 12 de fevereiro. No dia seguinte, Claudia Leitte e Ivete Sangalo se juntam para um show virtual também com repertório carnavalesco. No dia 14, o cantor Bell Marques, ex-Chiclete com Banana, fará uma transmissão ao vivo.

A festa derradeira

Quando o mais recente carnaval brasileiro começou, em 22 de fevereiro de 2020, a China já tinha mais de 80 mil pessoas infectadas pelo novo coronavírus e outros países da Europa e da Ásia já anunciavam números alarmantes de infectados.

No Brasil, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recomendava em entrevistas que foliões mantivessem a chamada “etiqueta respiratória” — que inclui medidas como colocar a mão na frente da boca quando tossir ou espirrar, lavar as mãos regularmente e não compartilhar copos, garrafas ou talheres.

O ministério, no entanto, não empreendeu ações oficiais para evitar o possível contágio de covid-19 durante o carnaval. Na época, não havia evidências científicas de que o vírus circulava no Brasil.

O primeiro caso de covid-19 no país foi confirmado um dia depois da quarta-feira de cinzas, em 26 de fevereiro, em um viajante vindo da Itália. Em 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia de coronavírus e, no dia 12, a primeira morte pela doença foi registrada no Brasil.

Em abril, quando as mortes por covid-19 no Brasil chegaram a cerca de 500 por dia, o médico Drauzio Varella criticou a benevolência com que os brasileiros trataram a doença e disse que, diante do avanço do coronavírus na China, o carnaval deveria ter sido cancelado. “Certamente o vírus se disseminou ali naqueles encontros de grande quantidade de gente”, disse no dia 15 daquele mês.

De acordo com um estudo da Fiocruz divulgado em maio, Varella estava certo. O novo coronavírus circulava desde o início de fevereiro pelo Brasil, 20 dias antes da detecção oficial do primeiro caso. Segundo a pesquisa, a transmissão comunitária — aquela em que não é mais possível determinar a origem da infecção — começou em pelo menos quatro países (Brasil, Itália, Holanda e EUA) entre duas a quatro semanas antes de seus governos detectarem os primeiros casos.

A pesquisa foi a primeira a apontar o período em que a transmissão comunitária teve início no Brasil. Em todos os países europeus e americanos que foram analisados pelo estudo, a circulação do novo coronavírus começou antes que medidas como restrição de viagens aéreas e distanciamento social fossem implementadas.

Especialistas apontam que, quando o carnaval aconteceu, não era possível determinar que o vírus já circulava no país. “Naquela época, eles [do Ministério da Saúde] ainda não dispunham dos testes para identificação da covid-19”, disse a professora e pesquisadora aposentada de doenças infecciosas da Universidade Federal de Pernambuco, Vera Magalhães, ao UOL.

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