Como a diplomacia brasileira paga seu preço na vacinação

Para cientista político e professor do departamento de relações internacionais da Uerj, ‘estrago está feito’ e agora é preciso ‘reduzir danos’ após problemas com fornecedores de insumos como a China

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O primeiro momento da vacinação contra a covid-19 no Brasil é marcado pelos gargalos de materiais que vêm do exterior. O país depende de insumos principalmente da China e da Índia para conseguir avançar na imunização dos brasileiros.

Na sexta-feira (15), a Índia negou a exportação imediata de duas milhões de doses da vacina de Oxford e da AstraZeneca para o Brasil, frustrando planos do Ministério da Saúde. Um voo chegou a ser organizado para buscar os imunizantes comprados pelo governo federal, mas a operação teve de ser barrada.

O cancelamento ocorreu após o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Anurag Srivastava, ter dito que ainda era “muito cedo” para falar na exportação do produto.

Na terça-feira (19), o governo indiano anunciou a exportação das primeiras doses para seis países, deixando de fora o Brasil – a lista incluía apenas países vizinhos. O envio das vacinas para o Brasil só deverá ocorrer na sexta-feira (22), segundo fala do secretário de Relações Exteriores da Índia à agência de notícias Reuters.

Em paralelo, o Brasil também aguarda a liberação de insumos pela China para conseguir produzir imunizantes em solo nacional. A importação de IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), considerado o principal componente da produção de vacinas, está atrasada.

O problema afeta as duas vacinas que já têm autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uso emergencial: a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo paulista, e o imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca. O IFA usado na fabricação de cada uma delas é diferente.

Tanto o Instituto Butantan como a Fiocruz – fundação ligada ao Ministério da Saúde que tem parceria com a vacina de Oxford – esperam a liberação dos insumos da China.

O Butantan recebeu 6 milhões de doses prontas da China e já produziu 4,8 milhões no Brasil, usando IFA importado. Já a Fiocruz ainda precisa receber os insumos do país asiático para começar a fabricação do imunizante e prevê entregar as primeiras vacinas produzidas em território nacional apenas em março.

As decisões de Índia e China de atrasar o envio de recursos ao Brasil são pautadas por prioridades internas. Os países buscam equilibrar o interesse em imunizar suas próprias populações com o interesse em exportar vacinas e insumos para outros destinos, em especial parceiros comerciais estratégicos.

Maurício Santoro, cientista político e professor do departamento de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), disse ao Nexo que as decisões internas de Índia e China não eximem a diplomacia brasileira no caso dos gargalos de insumos em janeiro de 2021.

“O governo Bolsonaro criou muitas tensões e problemas desnecessários, tanto com a China como com a Índia”, afirmou Santoro. “O estrago está feito. O que se pode tentar fazer agora é uma estratégia de controle de danos, mas, ao que tudo indica, os insumos vão demorar a chegar, o que deverá custar milhares de vidas. É um preço muito caro que o Brasil está pagando por esses erros de política externa”.

A dependência da campanha nacional de vacinação com relação à Índia e à China expôs a política externa do governo de Jair Bolsonaro. Abaixo, o Nexo relembra pontos de tensão na diplomacia com os dois países asiáticos.

A problemática relação com a China

As relações de Bolsonaro com a China, principal parceira comercial do Brasil, são tensas desde a campanha presidencial de 2018. À época, o ex-capitão e deputado federal ostentava um discurso anti-China, num contexto de rechaço ao comunismo, que preocupava o governo do país asiático.

No primeiro ano de governo, já houve episódios de atrito, como quando o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, afirmou que “não venderia a alma” para exportar soja e minério de ferro para a China. Mas os desgastes entre os dois países se aprofundaram em 2020, sobretudo após a chegada da pandemia de covid-19.

Em março de 2020, nos primeiros dias de pandemia, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, usou suas redes sociais para culpar a China pela crise sanitária global. A postagem rendeu respostas em tom de indignação e repúdio vindas do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, e do próprio perfil da embaixada chinesa. O episódio inaugurou o endosso público dos aliados de Jair Bolsonaro ao argumento americano do “vírus chinês”.

No começo de abril, foi a vez do então ministro da Educação de Bolsonaro, Abraham Weintraub, desgastar as relações Brasil-China. Em uma publicação no Twitter, Weintraub ridicularizou o sotaque chinês por meio de uma referência ao personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, e insinuou que o país teria ganhos geopolíticos com a disseminação do coronavírus pelo mundo.

Além da revolta e pedidos de retração vindos da embaixada chinesa no Brasil, Weintraub chegou a ser alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal pelas declarações, que a Procuradoria-Geral da República considerou racistas contra os chineses. Em depoimento escrito à Polícia Federal, o então ministro negou que tenha cometido um ato de discriminação.

A resistência à Coronavac

A corrida pelas vacinas também foi palco de atritos entre o governo Bolsonaro e a China. O presidente atacou a busca de uma vacina chinesa contra a covid-19. “Não compraremos a vacina chinesa de João Doria”, disse o presidente em referência à cooperação entre laboratórios chineses e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em outubro. Doria é um potencial adversário de Bolsonaro nas eleições presidenciais brasileiras de 2022.

“Não acredito que a vacina chinesa transmita segurança, pela sua origem”, disse o presidente brasileiro. “Da China nós não compraremos.”

Em 2021, a Coronavac é a primeira vacina à disposição dos brasileiros no início da campanha de vacinação contra a covid-19 no país – algo que foi considerado uma derrota política de Bolsonaro. O Ministério da Saúde começou o plano de imunização comprando e distribuindo a Coronavac para todos os estados do Brasil.

O leilão do 5G

Outro ponto de tensionamento nas relações entre Brasil e China é o leilão do 5G – o sinal de telefonia de quinta geração –, que está previsto para o primeiro semestre de 2021. Isso porque há pressão, principalmente do governo dos EUA, para que o Brasil barre a participação da Huawei – gigante chinesa de tecnologia – no leilão. O argumento é de que o 5G chinês é um Cavalo de Troia para a espionagem cibernética.

No começo de 2021, ainda não se sabe se o governo brasileiro irá bloquear a Huawei. A diplomacia chinesa deu a entender que pode restringir os negócios bilaterais com Brasil, caso a empresa sofra retaliações no processo de leilão do 5G. O leilão, portanto, pode afetar o clima entre o Brasil e seu maior parceiro comercial.

Em novembro de 2020, Eduardo Bolsonaro, que é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, novamente causou atritos ao usar o Twitter para acusar a China de usar a tecnologia 5G para operações de espionagem cibernética. Após protestos da embaixada chinesa no Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão defendeu a participação da Huawei no leilão do 5G.

A falta de apoio à Índia na OMC

O histórico da relação do governo Bolsonaro com a Índia não chega nem perto de ser tão tenso como no caso da China. Assim como Bolsonaro, o primeiro-ministro Narendra Modi é um dos expoentes da nova onda conservadora entre os líderes mundiais.

Em janeiro de 2020, pouco antes da OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar a pandemia, o presidente brasileiro foi à Índia para firmar uma série de acordos comerciais. No encontro, Modi disse o seguinte: “Apesar da distância geográfica entre nós, estamos juntos de mãos dadas em muitos fóruns globais e também somos parceiros de desenvolvimento”.

Mas a boa relação entre os dois governos também teve alguns percalços desde que Bolsonaro subiu ao poder. A Índia viu com insatisfação a decisão do Brasil, em abril de 2019, de declarar que abriria mão do tratamento diferenciado dado a economias em desenvolvimento na OMC (Organização Mundial do Comércio), em troca do apoio dos EUA à candidatura brasileira para a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Isso iria na contramão do interesse da Índia de manter os benefícios que vêm com esse tratamento.

Durante a pandemia, a OMC foi palco de outro conflito entre Brasil e Índia. Em outubro de 2020, o país asiático apresentou no órgão internacional um pedido para quebrar a patente de vacinas e medicamentos relacionados ao combate à covid-19. O Brasil se opôs à proposta indiana, que acabou perdendo força.

Por fim, o episódio do não-envio, na sexta-feira (15), de duas milhões de doses do imunizante de Oxford/AstraZeneca, criou um constrangimento diplomático entre os dois países. O governo indiano disse que o Brasil havia se precipitado ao preparar um avião para buscar a vacina. O país só deve iniciar o envio das doses na sexta-feira (22).

Segundo Maurício Santoro, professor da Uerj, a crise dos insumos das vacinas em janeiro de 2021 mostra um erro de cálculo de Bolsonaro, que tentou negociar “favores” com o governo indiano para conseguir apressar o envio das vacinas.

“Apesar desse bom relacionamento bilateral [entre Brasil e Índia], 'amigos, amigos, negócios à parte'. A Índia tem uma diplomacia profissional, uma política externa bastante focada, em termos dos interesses nacionais”, disse Santoro ao Nexo.

As ações em meio ao atraso dos insumos

Na crise dos insumos das vacinas em janeiro de 2021, o Brasil corre para tentar remendar as relações com Índia e China. O presidente Jair Bolsonaro recebeu o embaixador indiano em Brasília, Suresh K. Reddy, nesta segunda-feira (18), no Palácio do Planalto, para discutir a compra de vacinas da AstraZeneca/Oxford que não foram entregues ao Brasil.

Na terça-feira (19), o Brasil mudou a posição na OMC em relação à quebra de patentes. Em vez de uma oposição agressiva, a diplomacia brasileira adotou o silêncio, para evitar um aprofundamento dos desgastes com o governo indiano. Na quinta-feira (21), o secretário de Relações Exteriores da Índia disse à agência de notícias Reuters que o envio das doses ao Brasil teria início na sexta-feira (22).

Na quarta-feira (20), o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), se reuniu com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, para tratar da liberação de insumos que estão parados em Pequim. Em entrevista ao canal GloboNews após o encontro, Maia disse que a reunião foi “muito positiva” e que o não-envio dos insumos para o Brasil é uma questão técnica, e não política. O presidente da Câmara também revelou que, segundo contatos na embaixada chinesa, o Executivo federal não entrou em contato com a embaixada da China em meio à crise dos insumos.

Segundo Santoro, o Brasil tinha o grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) como opção para manter boas relações com os dois países asiáticos – ou, ao menos, evitar que o atrito chegasse ao ponto em que chegou. Mas o bloco foi “completamente relegado” pelo governo Bolsonaro.

“A gente pode especular sobre como teria sido se a gente tivesse uma diplomacia realmente mais voltada para esse tipo de diálogo com a China e com a Índia. Mas o governo Bolsonaro cavou a própria cova no que diz respeito à questão das vacinas”, disse Santoro ao Nexo. “Não vamos conseguir planejar uma saída da pandemia no Brasil sem um bom nível de cooperação internacional. E os erros diplomáticos brasileiros dos últimos anos estão cobrando um preço muito caro”.

O isolacionismo diplomático de Bolsonaro e Araújo

A posição internacional brasileira no início de 2021 é um reflexo da estratégia de Bolsonaro e de Ernesto Araújo de se alinhar totalmente a Donald Trump, ex-presidente dos EUA – que assumiu a Casa Branca em janeiro de 2017 e foi sucedido pelo democrata Joe Biden na quarta-feira (20).

Tanto Trump como Bolsonaro – dois dos maiores expoentes da nova extrema direita populista no mundo – assumiram posições anticientíficas na pandemia, minimizando os riscos do coronavírus e desincentivando o uso de máscaras. Além disso, ambos promoveram discursos antidemocráticos – Bolsonaro com suas frequentes ameaças de ruptura constitucional, e Trump com sua contestação sem provas dos resultados eleitorais de 2020 e incitação à invasão do Congresso americano no início de 2021.

Com a saída de Trump do poder, o Brasil deve aprofundar sua posição de isolamento no cenário internacional. Biden, que não tem o perfil conservador de seu antecessor, deve ter na questão ambiental – em que o governo Bolsonaro é alvo de fortes críticas – um dos principais motes de sua política externa.

Portanto, para o Brasil permanecer alinhado aos EUA, será necessário uma mudança radical de posição do governo Bolsonaro em relação a diversas pautas. Mas, de acordo com Maurício Santoro, não há indícios de que isso irá ocorrer. “Toda sinalização do governo Bolsonaro tem sido de que as coisas vão continuar mais ou menos no mesmo rumo em que estavam com Trump. Mas agora é diferente: há outro grupo político na Casa Branca, com posição bem mais crítica com relação ao Brasil. Vem um período complicado para o presidente brasileiro pela frente”, explicou Santoro ao Nexo.

Na quarta-feira (20), Bolsonaro cumprimentou Biden pelo Twitter e disse que a relação entre Brasil e EUA é “longa, sólida e baseada em valores elevados, como a defesa da democracia e das liberdades individuais”. O presidente brasileiro foi o último líder do G-20 a parabenizar o democrata pela vitória contra Trump – a mensagem de Bolsonaro veio 38 dias após a confirmação do resultado.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.