Os esforços da Rússia para liberar sua vacina no Brasil

Sputnik-V, anunciada por Putin como ‘a melhor do mundo’ tem entrada no Brasil barrada pela Anvisa, mas diz que vai recorrer com nova documentação

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A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou no domingo (17) o uso emergencial da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e do imunizante feito em parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, com participação da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do governo federal.

Uma terceira candidata, entretanto, a russa Sputnik-V teve seu primeiro pedido de registro negado no sábado (16), e agora tenta enviar nova documentação para obter autorização, como suas equivalentes chinesa e anglo-sueca. As três são as principais candidatas ao programa de imunização que teve início neste domingo (17), com a aplicação da primeira dose da Coronavac, em São Paulo.

A Anvisa disse que o registro da Sputnik-V foi recusado por não apresentar requisitos mínimos para submissão e análise, mas que o laboratório pode apresentar novo pedido. Já os fabricantes da vacina russa dizem que a autoridade sanitária brasileira apenas “solicitou informações adicionais, que serão fornecidas em breve”.

O pedido foi protocolado pela farmacêutica União Química, que tem acordo com os russos para produzir o imunizante no Brasil. O motivo principal para ele não ter sido validado pela Anvisa é que não foram feitos testes clínicos com o imunizante em território brasileiro, requisito regulatório para que uma vacina possa ser aprovada no país.

Sem o aval da Anvisa, a União Química começou na sexta-feira (15) uma produção voltada à exportação da Sputnik-V do Brasil para a Argentina. O país sul-americano foi o terceiro a aprovar o uso do medicamento e, no sábado, recebeu um segundo lote da vacina vindo da Rússia, com cerca de 300 mil doses.

Os russos dizem esperar ainda que o Senado brasileiro aprove uma lei que já passou pela Câmara, que libera o uso de vacinas estrangeiras no Brasil caso elas tenham sido aprovadas por serviços sanitários de outros países. Os responsáveis pela Sputnik-V dizem que o medicamento russo já recebeu aprovação em Sérvia, Belarus, Argentina, Bolívia, Argélia, Palestina, Venezuela e Paraguai, além de outros dois países não mencionados que dariam autorização “na próxima semana”, em referência ao fim de janeiro.

O contexto da vacina na Rússia

A Sputnik-V é produzida pela Instituto Gamaleya, com recursos do Fundo Russo de Investimentos, e foi apresentada ao mundo em 11 de agosto de 2020, pelo presidente Vladimir Putin, como o primeiro imunizante efetivo do mundo contra a covid-19.

O anúncio foi feito em tom ufanista, antes mesmo de concluída a fase de testes. A própria escolha do nome foi uma alusão ao primeiro satélite artificial lançado pelo homem em órbita, em 1957, quando a Rússia impôs derrota aos americanos na corrida espacial que se estabeleceu na Guerra Fria (1945-1991).

Em 5 de dezembro de 2020, a Rússia começou a campanha de vacinação em Moscou com esse medicamento. Até 11 de janeiro, “mais de 1,5 milhão de pessoas” tinham sido vacinadas com a Sputnik-V na Rússia, segundo o governo local. O analista de dados russo Alexander Dragan, entretanto, questiona a cifra. Em entrevista ao jornal Moscow Times, ele disse estimar o número de imunizados em no máximo 300 mil.

Nesta segunda-feira (18), o governo pretende massificar a campanha de vacinação com a Sputnik-V em todo o país. “Precisamos passar da vacinação em larga escala para a vacinação massiva”, disse Putin em reunião de gabinete, referindo-se ao produto russo como “o melhor do mundo”.

Os casos do Paraná e da Bahia

No Brasil, os governos baiano e paranaense tentaram acordos bilaterais diretos com Moscou. No caso do Paraná, o acordo envolveu a participação da Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná) na fase de pesquisas. A parceria foi anunciada com destaque pelo governador Ratinho Júnior (PSD), em agosto. Porém, em dezembro, não havia notícia de avanços. O site de notícias UOL disse ter questionado a Tecpar a respeito, e recebeu a resposta de que “o fundo de investimento russo alterou o projeto negociado com o Brasil”, sem maiores detalhes.

O governo da Bahia entrou com um pedido no ao Supremo Tribunal Federal no sábado (16) para que autorize a importação de doses da Sputnik-V no estado, de maneira emergencial.

“Lamentavelmente a Anvisa persiste na postura inflexível diante da calamidade pública que o Brasil enfrenta, o que a enfraquece e diminui. Esperamos que os tribunais superiores do país possam estar mais conectados com a realidade e dar uma resposta urgente à nossa sociedade”, diz Fábio Vilas-Boas, secretário de Saúde da Bahia.

ESTAVA ERRADO: Uma versão anterior deste texto continha um erro no nome do instituto responsável pela produção da Sputnik-V na Rússia. O correto é Instituto Gamaleya. O texto foi corrigido às 20:44 de 27 de janeiro de 2021.

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