Como a ineficácia do tratamento precoce expõe seus defensores

Twitter barra post do Ministério da Saúde, Anvisa aprova vacina contrapondo teorias infundadas do presidente e membros das Forças Armadas relatam constrangimento

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    A defesa do tratamento precoce para covid-19, um dos pilares do discurso do governo do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, vem sendo contestada de forma cada vez mais explícita no Brasil, para além dos alertas de cientistas.

    Além de não fazer efeito contra a covid-19, conforme a grande maioria dos estudos feitos pelo mundo, especialistas também dizem que a estratégia de buscar hospitais com sintomas leves pode sobrecarregar mais ainda os sistemas de saúde.

    Abaixo, o Nexo explica em três itens como o discurso do governo Bolsonaro vem sendo contestado e mostra por que tal tratamento não existe, mesmo diante de relatos pontuais de pessoas que dizem ter melhorado e de médicos que insistem em receitá-lo.

    O Ministério da Saúde barrado no Twitter

    No sábado (16), uma postagem do Ministério da Saúde no Twitter foi marcada pela rede social como contendo “informações enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas à Covid-19”. A mensagem não foi tirada do ar, mas passou a ser divulgada com esse alerta.

    O texto do órgão oficial comandado pelo general Eduardo Pazuello incentivava as pessoas a solicitarem o “tratamento precoce” quando sentissem os primeiros sintomas da doença – o que não é recomendado pela ciência ou por organizações ligadas à saúde, como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Sociedade Brasileira de Infectologia.

    O Twitter havia tomado a mesma medida em um post de Bolsonaro feito na sexta-feira (15). Na mensagem, o presidente elencava medicamentos que, administrados “precocemente”, estariam supostamente associados à redução da mortalidade da doença – o que não é verdade.

    Junto ao texto, Bolsonaro postou um vídeo do jornalista Alexandre Garcia, alinhado ao governo, falando sobre o tema e usando informações incompletas para fazer a defesa de um tratamento considerado ineficaz.

    A rede social também colocou o mesmo alerta sobre uma postagem da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP), que compartilhou o mesmo vídeo de Garcia e citou um estudo do American Journal of Medicine, publicado em agosto de 2020 – que supostamente comprovaria a eficácia do tratamento precoce.

    O estudo, porém, não usa o método considerado o “padrão-ouro” – isso quer dizer que não é um estudo randômico que compara um grupo de tratamento e outro de controle.

    As mais de 70 pesquisas que foram feitas desde o início da pandemia usando esse padrão-ouro metodológico – ou seja, estudos clínicos randomizados controlados, que serão explicados abaixo – mostram que a cloroquina e outros remédios defendidos pelo governo brasileiro não são eficazes contra o coronavírus.

    O presidente desmentido pela Anvisa

    Além da ação do Twitter – uma das principais redes sociais usadas por Bolsonaro para mobilização de sua base de apoio –, o tratamento precoce inexistente defendido pelo governo brasileiro sofreu outra contestação importante, esta vinda de um órgão ligado ao próprio governo federal.

    Durante a reunião de domingo (17) em que aprovaram o uso emergencial de duas vacinas no Brasil, integrantes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) rejeitaram de forma veemente a existência de um tratamento precoce contra a covid-19.

    “Até o momento não contamos com alternativa terapêutica aprovada disponível para prevenir ou tratar a doença causada pelo novo coronavírus”

    Meiruze de Freitas

    diretora da Anvisa e relatora dos pedidos de uso emergencial da Coronavac e da vacina de Oxford, em 17 de janeiro de 2021

    “Considerando que a autorização de uso emergencial num cenário em que não há medicamentos para tratar a emergência do coronavírus, considerando por fim o interesse público envolvido, justifica o seu uso neste momento, voto pela autorização de uso emergencial excepcional e temporário da Fiocruz e do Butantan”

    Alex Campos

    diretor da Anvisa, em 17 de janeiro de 2021

    A reunião da Anvisa foi transmitida pela internet e gerou muito engajamento nas redes sociais, que acompanharam as falas da diretoria por cerca de cinco horas.

    A mensagem dos membros da agência contra o tratamento precoce foi comemorada por cientistas e médicos brasileiros, que reconheceram a importância do órgão federal rejeitar a política ineficaz pregada por Bolsonaro e Pazuello.

    O constrangimento nas Forças Armadas

    As Forças Armadas participam de forma ativa no governo Bolsonaro, com quadros da reserva e da ativa, como é o caso do ministro da Saúde. Relatos de bastidores publicados pelo jornal Folha de S.Paulo mostram que integrantes do Exército, além de outros militares que participam do governo, se dizem constrangidos com o alinhamento de Pazuello ao negacionismo científico de Bolsonaro.

    Segundo as fontes ouvidas pelo jornal, tal alinhamento prejudica a imagem das Forças Armadas. Uma possível solução apontada nos bastidores seria Pazuello passar da ativa para a reserva. Outra alternativa seria que ele deixasse o comando do Ministério da Saúde.

    Pesam contra o ministro não apenas a defesa do tratamento precoce ou o fato de que os piores momentos da pandemia aconteceram (e seguem acontecendo) sob sua gestão no ministério.

    Episódios recentes, como o fracasso na importação imediata de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca da Índia, a derrota do governo federal na corrida contra o governo paulista de João Doria (PSDB) pela primeira dose de vacina aplicada no país e o colapso do sistema de saúde de Manaus, elevaram a preocupação de membros das Forças Armadas, segundo a reportagem.

    Em mais de uma ocasião desde o colapso do sistema de saúde de Manaus, Bolsonaro e Pazuello atribuíram a crise no Amazonas à falta do tratamento precoce com os remédios ineficazes contra a covid-19.

    Desde o início da pandemia, Bolsonaro vem apostando em medicamentos sem eficácia como forma de dar confiança para que as pessoas saiam de casa e furem o isolamento social. Manter o distanciamento é uma das estratégias recomendadas pelas autoridades sanitárias para evitar o alastramento das contaminações.

    Bolsonaro primeiro defendeu a cloroquina. Depois, avançou para o coquetel que inclui outros medicamentos, como vermífugos. O governo então passou a usar a expressão “tratamento precoce” para defender o uso dos remédios ineficazes. Na segunda-feira (18), diante de uma série de contestações, Pazuello tentou acertar o discurso, recorrendo à mentira. “Falamos de atendimento precoce. Não de tratamento precoce”, disse o ministro.

    Por que o tratamento precoce não existe

    A cloroquina e a hidroxicloroquina são substâncias usadas para o tratamento de doenças como malária e lúpus que não demonstraram eficácia contra o novo coronavírus.

    A hidroxicloroquina – indicada e produzida pelo governo brasileiro – foi testada em ao menos dez diferentes ensaios clínicos e não mostrou nenhuma diferença em relação ao grupo que tomou um placebo (substância sem efeito). Todos esses estudos seguiam o “padrão-ouro” metodológico – ou seja, eram ensaios clínicos randomizados.

    A ciência concluiu, a partir desses múltiplos estudos – que podem ser consultados em um painel criado pela Associação Médica Britânica –, que a substância não interfere no quadro do paciente com covid-19 e nem reduz chances de contágio.

    Uma pessoa ter tomado cloroquina e se curado da covid-19 não significa que um evento foi causa do outro; assim como uma pessoa que tomou café durante todos os dias da pandemia e não contraiu o vírus não pode dizer que foi a bebida que impediu que isso acontecesse.

    Para encontrar um remédio efetivo contra a covid-19, é preciso que um estudo “padrão-ouro” – estudo clínico randomizado controlado – comprove que uma substância específica seja efetivo contra a doença.

    Essa metodologia investiga dois grupos randomizados de pessoas: um em que as pessoas tomaram o remédio, e outro em que as pessoas tomaram um placebo (substância sem efeito). O grupo controle, que tomou o placebo e não usou a droga, serve para ilustrar o que acontece se a pessoa não tomar o medicamento. Se o grupo que tomou o remédio tiver resultados melhores (e que tenham significância estatística) que o grupo controle, isso significa que o tratamento funciona.

    Se não houver diferença estatística significante nos resultados entre os grupos, isso significa que o medicamento não é eficaz – não há provas de que a droga alterou o quadro final dos pacientes que a ingeriram.

    Foi exatamente essa a conclusão de um estudo sobre a cloroquina, feito por hospitais e instituições de pesquisa brasileiros, e publicado em julho no New England Journal of Medicine. Outras pesquisas também chegaram ao mesmo resultado: a cloroquina não é eficaz contra o coronavírus.

    As brechas dos estudos que dizem o contrário

    O estudo do American Journal of Medicine que frequentemente é citado nas redes sociais para defender o uso da cloroquina contra a covid-19 não usa esse método e não provê indícios de que o medicamento funciona. Outros estudos com metodologia melhor e mais completa mostram justamente que a substância não é eficaz.

    Há muitos exemplos de pessoas que tomaram medicamentos de “tratamento precoce” e se curaram da covid-19 ou não contraíram o vírus – há inúmeros depoimentos sobre isso que podem ser facilmente encontrados nas redes sociais. Mas isso não significa que os remédios funcionam, já que um único exemplo não pode servir como prova de causalidade. É necessário que estudos científicos comprovem se o medicamento é, de fato, efetivo.

    E, com base nos estudos feitos até 18 de janeiro de 2021, não há comprovação de que a cloroquina – ou qualquer outro medicamento defendido pelo governo – funcione para tratamento contra a doença.

    A ciência mostra que uma pessoa que toma cloroquina tem a mesma chance de se curar da covid-19 que uma pessoa que não toma. Testes científicos também apontaram ineficácia quando o remédio foi combinado no tratamento com a azitromicina (antibiótico), também recomendado pelo governo.

    Além de não funcionar contra o coronavírus, a cloroquina e a hidroxicloroquina trazem também riscos. Há possíveis efeitos colaterais em consumir esses medicamentos, entre os quais: dor de cabeça, diarreia, vômitos, enjoo, irritações na pele, coceiras, convulsões, confusão mental, arritmia, queda da pressão arterial, perda da visão, fraqueza muscular e sangramentos.

    O uso da ivermectina – outro medicamento sem eficácia comprovada contra o coronavírus – também é defendido por Bolsonaro. O medicamento surgiu no contexto da pandemia de covid-19 em abril de 2020. Na ocasião, cientistas da Universidade de Melbourne, na Austrália, realizaram testes in vitro – ou seja, em laboratório – para estudar os efeitos da ivermectina no novo coronavírus. Naqueles testes, a substância foi efetiva contra o vírus.

    Porém, a realidade do laboratório é diferente da realidade cotidiana e logo constatou-se que, para que o medicamento fosse efetivo em um paciente de covid-19, a dose necessária seria 17 vezes maior do que a máxima diária permitida, o que tornaria a ivermectina, na prática, um veneno. Entre os efeitos colaterais da ivermectina estão tontura, vertigem, tremor, febre, dores abdominais, dores de cabeça, coceira e queda brusca na pressão sanguínea.

    As únicas substâncias com eficácia comprovada para conter o coronavírus são as vacinas que passaram por estudos clínicos rigorosos e tiveram aprovação científica. É o caso da Coronavac e da vacina de Oxford/AstraZeneca, que receberam aval para uso emergencial da Anvisa no domingo (17).

    Como um todo, as vacinas também têm sido alvo do discurso negacionista de Bolsonaro. O presidente já chegou a dizer que não irá se vacinar, e desestimula seus apoiadores a receberem os imunizantes.

    O tratamento precoce como política pública

    Mesmo sem provas de que funciona, o tratamento precoce virou política pública no Brasil. Prefeituras pelo país decidiram distribuir kits com os remédios defendidos por Bolsonaro. O Ministério da Saúde passou a recomendar o tal tratamento oficialmente em julho de 2020, já sob o comando do general Pazuello. Em 14 de janeiro de 2021, o governo federal lançou um aplicativo de celular que estimula médicos a prescreverem medicamentos ineficazes.

    O tratamento precoce ganhou força como política do Ministério da Saúde justamente sob Pazuello. Em abril e maio, Bolsonaro trocou dois ministros da pasta, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. A não aceitação da agenda do tratamento precoce foi um dos motivos por trás das duas demissões.

    Com Pazuello no cargo, a pasta passou a seguir a vontade do presidente: não aderiu ao discurso a favor do isolamento social (adotado por governadores e prefeitos, com impacto negativo para a economia), e passou a recomendar o uso da cloroquina para casos leves, sob orientação médica e consentimento do paciente, mesmo sem comprovação da sua eficácia.

    A política do governo brasileiro vai na contramão das recomendações da comunidade científica internacional, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Sociedade Brasileira de Infectologia.

    Não é só ineficaz, é um problema

    Há diversos problemas em adotar uma política pública na área da Saúde que não é baseada em evidências científicas – em especial durante uma pandemia. Em primeiro lugar, os medicamentos associados ao tratamento precoce, além de não trazerem benefícios, podem colocar a saúde das pessoas em risco. Um exemplo é a cloroquina, que não é recomendada para pessoas com problemas cardíacos.

    Além disso, ao optar por essa política, o governo gasta tempo, energia e recursos em formas ineficazes de combate à pandemia. A insistência com métodos não eficazes de enfrentar a pandemia significa que há menos dinheiro, energia e tempo indo para outras áreas como, por exemplo, logística de distribuição de vacina e suprimento de oxigênio para hospitais.

    O tratamento precoce também dá às pessoas a falsa sensação de segurança. Quem acredita erroneamente na eficácia de medicamentos como a cloroquina pode se sentir seguro para circular pelas ruas, com uma percepção falsa de que não corre riscos de contrair o coronavírus. Ao fazer isso, ela se expõe mais ao vírus e expõe também os outros, dificultando ainda mais o controle da pandemia.

    Por fim, o tratamento precoce é uma política pública perigosa porque alimenta a desconfiança e a negação da ciência. Ele contribui para aumentar a resistência de parte da população com relação às vacinas aprovadas cientificamente – que são, comprovadamente, eficazes contra o coronavírus.

    A vacinação é um passo importante para frear o avanço do vírus ao redor do mundo. Com boa parte da população imunizada, menos pessoas serão infectadas e, consequentemente, casos graves e mortes diminuirão significativamente. Além disso, com menor circulação do vírus, será possível retomar com mais segurança atividades como aulas presenciais, eventos culturais e o funcionamento normal da economia. Portanto, qualquer política que desencoraje a vacinação é prejudicial para os esforços de combate à pandemia.

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