Os riscos da nova variante. E seu papel no colapso em Manaus

Países fecham fronteiras para viajantes do Brasil. Governo do Amazonas tenta justificar colapso com o surgimento de variante. Diretor da OMS diz que não se pode culpar apenas as mutações pelo caos

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O governo da Itália anunciou no sábado (16) que vai proibir a entrada de viajantes vindos do Brasil até o fim do mês de janeiro para tentar impedir que uma nova variante do novo coronavírus identificada no Amazonas chegue ao país europeu.

Há suspeita de que a mutação tornou o vírus mais transmissível e contribuiu para a aceleração do contágio na capital amazonense, levando ao colapso do sistema de saúde e à falta de oxigênio nos hospitais. O cenário dramático da cidade, que repercutiu na imprensa mundial, levou o Reino Unido a também proibir a entrada de brasileiros já na quinta-feira (14).

Diante de pedidos de providências sobre a situação de calamidade na cidade, o governo amazonense argumentou no sábado (16) que não poderia ter se preparado para a alta no contágio por causa do surgimento da nova variante.

A situação no Amazonas

O estado enfrenta, desde o fim de 2020, uma disparada no número de infecções de covid-19 e mortes pela doença, que levou a um segundo colapso do sistema de saúde da capital, Manaus. A situação atual é mais grave que a crise ocorrida entre março e junho, quando corpos chegaram a ser enterrados em valas coletivas.

Por causa da alta nas internações, a demanda por oxigênio nos hospitais quase triplicou em meados de janeiro. Desde quinta-feira (14), familiares e médicos relatam mortes por falta de ar, pacientes precisam de ventilação manual de profissionais da saúde e bebês prematuros estão sob risco. Na sexta-feira (15), doentes começaram a ser transferidos para outros estados em aviões da FAB (Força Aérea Brasileira). No sábado (16), o Amazonas contabilizou 80 novas mortes pela doença. O total desde o início da pandemia ultrapassa 6 mil.

A nova variante brasileira

Uma variante é uma nova linhagem do vírus (também chamada de cepa), que surge a partir de uma série de mutações. Os primeiros sinais de que a nova variante estava em circulação no Brasil foram dados quando o Japão anunciou, no dia 10 de janeiro, que havia encontrado a linhagem em viajantes que haviam estado no Brasil e voltaram ao país no início de janeiro. A Fiocruz Amazônia, unidade técnico-científica da Fundação Oswaldo Cruz no Amazonas, concluiu na terça-feira (12) que a mutação tinha origem no estado.

Mutações em organismos como o novo coronavírus são comuns e fazem parte da evolução natural de epidemias virais. Os vírus invadem células para se multiplicarem e, durante o processo de cópia, podem ocorrer erros que alteram seu código genético. Quando há muitas mutações, surgem novas linhagens, ou cepas — grupos da mesma espécie, mas com marcas genéticas distintas.

Os pesquisadores ainda tentam entender quais as características da variante encontrada no Amazonas, conhecida agora como B.1.1.28. Eles afirmam que as mutações podem ajudar a explicar a explosão de casos de covid-19 no estado desde o fim de 2020, embora não sejam a única causa para esse aumento, atribuído também à falta de medidas de prevenção como o distanciamento social.

Um estudo ainda em preprint (ou seja, ainda não publicado em revistas acadêmicas) que contou com a participação de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) mostrou que a nova linhagem brasileira do novo coronavírus estava presente em 42% das pessoas testadas em Manaus em dezembro.

A pesquisa aponta que a variante também tem mais potencial de transmissão e reinfecção. Apesar de mais frequente no Amazonas, a nova linhagem está presente no país inteiro, segundo a Fiocruz.

A preocupação com novas cepas

Outras variantes do agente causador da covid-19 foram descobertas em setembro de 2020 no Reino Unido e em dezembro, na África do Sul. Ambas têm mutações que aumentam a capacidade de transmissão do vírus, segundo estudos. O governo britânico impôs um lockdown no fim do ano para conter o contágio, e alguns países criaram restrições para voos da região.

50

países, pelo menos, registraram casos da variante britânica do novo coronavírus até quarta-feira (13), segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde); a linhagem sul-africana foi encontrada em 20

Não há indícios que as novas variantes sejam mais letais. A maior capacidade de transmissão, porém, preocupa em termos de saúde pública, justamente pelo potencial de aumentar o contágio e lotar hospitais, o que pode causar ainda mais mortes.

As vacinas contra a covid-19 devem ser eficazes contra a nova variante brasileira, segundo pesquisadores. Embora o vírus tenha passado por mutações, elas não seriam suficientes para impedir a resposta das vacinas. Especialistas alertam, porém, que, quanto mais mutações houver, mais chances de surgirem cepas resistentes aos imunizantes.

A probabilidade de novas variantes surgirem aumenta na medida em que o vírus circula. “Quanto mais a covid-19 se espalha, mais possibilidades há de que continue evoluindo. A transmissibilidade de algumas variantes do vírus parece estar aumentando”, disse o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom, na segunda-feira (11).

Culpa pelo agravamento da crise

No sábado (16), o governo do Amazonas afirmou que o colapso da saúde se deu por uma “infeliz coincidência absolutamente imprevisível” devido ao surgimento da nova linhagem. O argumento aparece num ofício enviado pela Procuradoria-Geral do estado do Amazonas à Justiça Federal, que tinha cobrado providências das autoridades sobre a crise. O documento foi revelado pelo jornal O Globo.

O ofício cita que o governador do estado, Wilson Lima (PSC), decretou quarentena em dezembro, mas omite que o governo recuou dias depois, após protestos de empresários e comerciantes. Só na primeira semana de janeiro de 2021 o Amazonas voltou a impor restrições ao comércio não essencial, por determinação da Justiça.

Ao comentar a situação de Manaus na sexta-feira (15), o diretor do programa de emergências da OMS Michael Ryan afirmou que não se pode culpar apenas as novas variantes pelo agravamento da pandemia. A entidade está estudando a nova cepa junto com cientistas do Brasil.

“Não é a nova variante que está na raiz desse crescimento. É muito fácil colocar a culpa no vírus, mas infelizmente o problema é o que as pessoas não fizeram. Se o vírus fica mais eficiente, as pessoas precisam redobrar a prevenção e o combate”

Michael Ryan

Diretor do programa de emergências da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 15 de janeiro de 2021

A brasileira Mariângela Simão, vice-diretora-geral da OMS, disse que o fato de a capital amazonense ter desmontado antes da hora a infraestrutura montada no início da pandemia também contribuiu para o colapso atual. Um estudo do Instituto Votorantim identificou que o estado do Amazonas desativou, entre julho e outubro, 85% dos leitos criados para a covid-19.

A transmissão, qualquer que seja a variante do vírus, ocorre da mesma forma: por meio de gotículas de salivas ou partículas suspensas no ar. Portanto, segundo especialistas em saúde, as recomendações de prevenção continuam sendo as de manter o distanciamento social, evitar aglomerações (especialmente em lugares fechados), usar máscaras corretamente e lavar as mãos com frequência.

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