O fracasso de Bolsonaro com a Índia. E a disputa pela Coronavac

Presidente preparou avião para buscar vacinas da Oxford/AstraZeneca, mas precisou abortar viagem após recusa do país asiático. Ministério da Saúde então requisitou doses ao governo paulista

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A Índia, que segundo o governo federal enviaria doses da vacina de Oxford e da AstraZeneca para o início da campanha de imunização contra o novo coronavírus no Brasil, negou a exportação imediata dos itens em comunicado divulgado nesta sexta-feira (15), o que frustrou planos do Ministério da Saúde.

O governo federal havia organizado uma operação para buscar as doses do imunizante com um avião fretado ainda na quarta-feira (13). Por questões logísticas internacionais, o voo acabou sendo reagendado para sexta. Com o veto da Índia, porém, não há previsão de data para a importação das doses para o Brasil.

2 milhões

de doses da vacina de Oxford com a AstraZeneca seriam enviadas pela Índia para o Brasil, segundo os planos do governo federal

A Índia vetou o envio do imunizante, porque, segundo o governo local, não é possível autorizar a exportação enquanto o país não começar a campanha de vacinação em sua população. Ainda na quinta-feira (14), o governo indiano havia dito que era “muito cedo” para dar respostas ao Brasil sobre o envio de vacinas, e o país havia se precipitado ao querer enviar um avião.

“O processo de vacinação está apenas no começo na Índia. É muito cedo para dar uma resposta específica sobre o fornecimento a outros países, porque ainda avaliamos os prazos de produção e de entrega. Isso pode levar tempo”

Anurag Srivastava

porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, em declaração na quinta-feira (14)

O cronograma indiano para envio de vacinas para outros países não está concluído. “Parece que o Brasil queimou a largada ao anunciar oficialmente o envio de uma aeronave para transportar 2 milhões de doses de vacina”, afirmou uma reportagem do jornal indiano Hindustan Times sobre a operação brasileira. A vacina é produzida na Índia pelo Instituto Serum, fabricante que licenciou o imunizante de Oxford e da AstraZeneca.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, ligou para o chanceler da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, na quinta-feira (14), e fez um último apelo pela liberação das doses. Ouviu, no entanto, que a situação só seria resolvida “nos próximos dias”, o que frustra os planos do governo brasileiro.

O lote de vacinas importadas da Índia seria um adiantamento do imunizante que, mais tarde, deve ser produzido no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A vacina da AstraZeneca é uma aposta do governo de Jair Bolsonaro na crise da covid-19. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deve decidir sobre o uso emergencial do imunizante no domingo (17).

Com a negativa da Índia, o Ministério da Saúde requisitou nesta sexta-feira (15) que o Instituto Butantan envie ao governo federal suas 6 milhões de doses da vacina Coronavac. A Anvisa também deve decidir sobre o uso emergencial do imunizante no domingo.

A Coronavac é uma aposta do governador paulista, João Doria (PSDB), adversário político de Bolsonaro, e seu uso no plano nacional chegou a ser descartado pelo presidente em 2020. Ainda em dezembro, o tucano anunciou que a vacinação começaria no estado de São Paulo em 25 de janeiro.

O Instituto Butantan respondeu ao pedido do Ministério da Saúde afirmando que não teria como entregar 6 milhões de doses do imunizante porque a pasta não fez um plano para distribuí-las entre os estados. Entre secretários estaduais de Saúde, a medida do governo federal pareceu uma tentativa de confisco político, segundo informações do jornal Folha de S.Paulo.

Qual o plano para a vacinação

O primeiro passo para o início de uma campanha nacional de vacinação com a Coronavac ou a vacina de Oxford é a autorização da Anvisa para uso emergencial dos imunizantes. A decisão deve acontecer neste domingo, depois de uma análise da equipe da agência dos estudos sobre a segurança e a eficácia das duas vacinas.

A campanha deve ser organizada no país no âmbito do Plano Nacional de Imunização, também chamado pela sigla PNI, que é conduzido pelo Ministério da Saúde. O plano prevê que o governo federal coordene a campanha, decidindo o cronograma de vacinação e distribuindo as doses das vacinas disponíveis para estados e municípios.

O ministro Eduardo Pazuello afirmou em reunião virtual com prefeitos na quinta-feira (14) que, caso houvesse aprovação da Anvisa, a vacinação estaria prevista para o dia 20 de janeiro e deveria começar simultaneamente em todas as capitais do país. A previsão original incluía, no entanto, as 2 milhões de doses da vacina de Oxford vindas da Índia, além de 6 milhões da Coronavac.

O plano nacional de vacinação define uma ordem prioritária de imunização da população, com quatro fases iniciais previstas. Segundo o Ministério da Saúde, a ordem pode sofrer mudanças. A ideia é que as quatro primeiras etapas imunizem 51 milhões entre os mais de 210 milhões de habitantes do Brasil.

Quais as fases do plano

Fase 1

Vacinar profissionais da saúde e pessoas acima de 80 anos (4,26 milhões), pessoas de 75 a 79 anos (3,48 milhões) e indígenas com idade acima de 18 anos (410 mil).

Fase 2

Vacinar pessoas de 70 a 74 anos (5,17 milhões), pessoas de 65 a 69 anos (7,08 milhões), pessoas de 60 a 64 anos (9,09 milhões).

Fase 3

Vacinar 12,66 milhões de pessoas acima dos 18 anos com comorbidades, entre as quais hipertensão, diabetes mellitus, doença pulmonar crônica, doença renal, doenças cardiovasculares, indivíduos transplantados, anemia falciforme, câncer e obesidade grave.

Fase 4

Vacinar professores do nível básico ao superior (2,34 milhões), profissionais de segurança (850 mil) e funcionários do sistema prisional (144 mil).

Quais os gargalos da vacinação

Mesmo com a autorização da Anvisa, o início da vacinação no país deve acontecer apenas depois que o governo federal e os estados acertarem pontos ligados à logística, à distribuição de doses e ao abastecimento de insumos usados para a imunização, como seringas e agulhas.

O Ministério da Saúde tem recebido críticas por demorar para comprar imunizantes, por deixar passar lacunas no plano nacional de vacinação e pela falta de iniciativa para coordenar a campanha em parceria com os estados e municípios. Mais de 50 países haviam iniciado a vacinação contra a covid-19 até sexta-feira (15).

O ministro Eduardo Pazuello, até quarta-feira, não havia dado uma resposta clara sobre o cronograma de vacinação no país, chegando a dizer, no dia 11 de janeiro, que ela viria “no dia D e na hora H”. Antes disso, o ministério apontava datas diferentes para o início da campanha, variando entre o fim de janeiro e meados de março, conforme as condições de logística.

Embora o governo federal tenha um plano de distribuir os imunizantes para todos os estados, secretários estaduais de Saúde afirmam que o ministério não apresentou detalhes de como a distribuição seria feita, ou quais seriam os critérios para a divisão. Em reunião nesta sexta-feira (15) com o ministério, os governos locais dizem que houve apenas discussões de “generalidades”.

A pasta de Pazuello deve enviar as vacinas aos estados por meio de aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) e de outros aviões fretados, que sairão de Guarulhos (SP) para o restante do país, segundo o jornal Folha de S.Paulo. O governo deve contar também com uma frota terrestre com baús refrigerados para armazenar as doses e apoio das Forças Armadas para segurança.

Outras críticas ao governo federal se devem à demora para comprar insumos essenciais para a vacinação, como seringas e agulhas. No fim de dezembro, o Ministério da Saúde havia conseguido comprar 7,9 milhões de produtos, 2,4% do total dos 331 milhões previstos para a campanha em todo o país.

A compra desses insumos para campanhas de vacinação tradicionais costuma ser feita pelos governos estaduais, que geralmente adquirem os materiais e os encaminham para os municípios. Com a urgência da pandemia do novo coronavírus, porém, o Ministério da Saúde optou por também obter os produtos e coordenar a distribuição.

A pasta tenta resolver o impasse por meio de um instrumento chamado requisição administrativa, segundo o qual o governo se apropria dos itens das indústrias que os fabricam para pagamento posterior. Na quarta-feira (13), o ministério requisitou 60 milhões de seringas dentro desse modelo, segundo informações do jornal Folha de S.Paulo.

Com essa estratégia, o governo chegou a requisitar seringas e agulhas já encomendadas pelos estados. Logo depois, o governo de São Paulo ingressou com uma ação no Supremo Tribunal Federal para garantir os produtos que havia comprado, e o ministro Ricardo Levandowski decidiu a favor do estado.

O início da campanha de vacinação deve contar com as seringas e agulhas adquiridas pelo governo federal e com os estoques dos governos estaduais. As secretarias de Saúde têm ao menos 116 milhões de itens disponíveis, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Os estados, porém, apontam risco de escassez dos produtos caso não haja novas aquisições pelo governo federal.

Qual o estado da pandemia

Enquanto o governo federal busca vacinas para dar início à campanha de imunização, o país vive uma segunda onda da pandemia do novo coronavírus, marcada por uma tendência de aumento de casos e mortes pela infecção e por colapsos de sistemas de saúde, depois de um breve recuo da covid-19 na metade de 2020.

A pandemia voltou a crescer em novembro, com a alta da transmissão do vírus e o afrouxamento das medidas de prevenção, como o distanciamento social. A situação foi agravada por aglomerações em festas de fim de ano. Na sexta-feira (15), o país tinha 8,3 milhões de casos de covid-19 registrados e mais de 207 mil mortes.

O Amazonas voltou a ter recordes de internações e sepultamentos com a segunda onda, depois de ter sido duramente atingido pela pandemia no primeiro semestre de 2020. Em cidades como Manaus, a explosão é apontada como resultado da falta de regras de distanciamento. Em dezembro, a cidade teve protestos contra o fechamento do comércio. Cientistas também investigam se o contágio pode ter acelerado devido ao surgimento de uma nova variante, mais transmissível.

O número de internações pela doença aumentou tanto no estado que os hospitais de Manaus sofrem com falta de oxigênio para os pacientes. Há relatos de pessoas que morreram de falta de ar, sem receber o tratamento adequado.

O agravamento da crise criou um cenário de caos e desespero na quinta-feira (14), quando o governo do Amazonas passou a transferir pacientes com covid-19 para outros estados. Os casos ganharam destaque na imprensa, e a sociedade civil se mobilizou para comprar cilindros aos doentes e fazer doações. A Venezuela ofereceu oxigênio ao governo amazonense.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, comentou o quadro em Manaus na quinta (14), declarando que “a responsabilidade é da prefeitura e do governo”. Ele atribuiu a situação da cidade a problemas logísticos e de infraestrutura, mas também ao clima local e à ausência de um “tratamento precoce” que o governo defende, mas que não é eficaz contra a covid-19.

Ele havia viajado a Manaus no dia 11 de janeiro. Naquele dia, o governador Wilson Lima (PSC) classificou a situação dos hospitais como “dramática” e pediu auxílio do governo federal para o fornecimento de oxigênio. O apoio anunciado pelo ministro, porém, não conseguiu evitar a situação de caos que se seguiu.

Com o avanço da pandemia, todas as regiões do país têm ao menos um estado em situação crítica de vagas em UTIs (unidades de terapia intensiva) públicas por conta da alta taxa de internações por covid-19. Oito estados, incluindo o Amazonas, têm mais de 80% das UTIs ocupadas. Outros são Rondônia, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Amapá.

Mortes e internações por covid-19 também subiram no estado de São Paulo após as festas de fim de ano. A taxa de ocupação de leitos está em 66,3%, sobrecarregando tanto o sistema público quanto o privado de saúde. No interior, as mortes pelo novo coronavírus de 1º a 14 de janeiro superaram as de todo o mês de novembro.

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