Como EUA e Venezuela aparecem no colapso sanitário de Manaus

Bolsonaro recorre a Trump, mas é Maduro quem se antecipa e oferece cilindros de oxigênio. Governador do Amazonas agradece disposição do país caribenho

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O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, anunciou na quinta-feira (14) que seu país está disposto a enviar “o oxigênio necessário para atender a contingência sanitária em Manaus”.

A oferta venezuelana foi feita enquanto o governo brasileiro gestionava outra ajuda internacional, com os EUA, para obter apoio de duas aeronaves capazes de transportar numa única viagem 70 metros cúbicos de oxigênio para a capital do estado do Amazonas.

As negociações com dois países – grandes antagonistas político-ideológicos entre si – ocorrem no momento em que o governo brasileiro falha em fornecer a ajuda necessária a uma capital brasileira que enfrenta em janeiro de 2021 seu segundo colapso na pandemia da covid-19.

Os hospitais de Manaus necessitam de 76 mil metros cúbicos diários de oxigênio para os pacientes, mas a produção local é de 28,2 metros cúbicos. Médicos e parentes das vítimas buscam cilindros de oxigênio por todas as partes. A polícia chegou a fazer apreensão de cilindros de oxigênio confiscados de empresas privadas.

Diante da falta de recursos, a FAB (Força Aérea Brasileira) fez na manhã de sexta-feira (15) os primeiros voos de evacuação de pacientes do Amazonas para outros estados. Duas aeronaves militares brasileiras são usadas na operação.

Apesar da mobilização dos recursos nacionais, o governo brasileiro recorre à ajuda externa para fazer frente à emergência em Manaus. O governo estadual também faz apelos. Essa busca tem um imperativo sanitário, mas as ramificações político-ideológicas marcam o contexto em que a relação se dá.

Além do contatos com Venezuela e EUA, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, também mencionou relações com a Índia e com o Reino Unido, para obtenção de lotes da vacina da Astra/Zeneca fabricadas em solo indiano.

A relação com os EUA

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, expoente da extrema direita, busca fortalecer a ligação com o americano Donald Trump, a despeito de este estar prestes a deixar a Casa Branca e ter se tornado o primeiro presidente da história americana a enfrentar dois processos de impeachment – o mais recente passou na Câmara e ainda precisa ser votado no Senado.

A partir de 20 de janeiro, a relação de Bolsonaro será com o democrata Joe Biden, que venceu a eleição de 3 de novembro e assume o posto em 20 de fevereiro.

Biden e a vice, Kamala Harris, criticaram Bolsonaro no passado pela devastação na Amazônia, e chegaram a falar em boicotes e sanções para pressionar o governo brasileiro na questão ambiental. O presidente brasileiro, por sua vez, manteve apoio à contestação eleitoral feita por Trump, mesmo depois de o próprio republicano ter recuado em seu pleito de revisão dos resultados.

Na pandemia, Bolsonaro buscou firmar parcerias com os EUA de Trump, mas, apesar de alguns gestos pontuais, prevaleceu na Casa Branca o lema “América primeiro”. Em abril de 2020, Trump disse, por exemplo: “Precisamos das máscaras. Não queremos outros [países] conseguindo máscaras. Você pode até chamar de retaliação porque é isso mesmo. É uma retaliação. Se as empresas não derem o que precisamos para o nosso povo, nós seremos muito duros.”

Até o início da tarde de sexta-feira (15), o Itamaraty não havia publicado detalhes do pedido de ajuda aos EUA.

A relação com a Venezuela

Enquanto o Brasil pede e espera pela ajuda dos EUA, a Venezuela se antecipa e anuncia a disposição para fornecer oxigênio próprio, num gesto que foi bem recebido pelo governo do estado do Amazonas, mas que não foi comentado pelo governo federal.

O governador Wilson Lima (PSC) respondeu à mensagem do chanceler venezuelano Twitter, dizendo: “O povo do Amazonas agradece!”. Muitos seguidores do governador na rede publicaram mensagens em espanhol, falando da importância da solidariedade latino-americana.

A Venezuela é o maior antagonista do atual governo brasileiro na região. O presidente Nicolás Maduro não é reconhecido como legítimo pelo governo Bolsonaro.

Em abril de 2020, Maduro chamou Bolsonaro de “coronalouco” e culpou o presidente brasileiro pelas milhares de mortes ocorridas no Brasil. Ernesto Araújo chamou Maduro de “facínora” em sessão no Senado, em setembro.

Para o presidente brasileiro, a Venezuela é exemplo de destino que os países da região podem atingir se optarem por eleger líderes de esquerda. A analogia foi usada no passado para se referir à eleição do esquerdista Alberto Fernández como presidente da Argentina.

A própria Venezuela vive imersa numa grave crise política, econômica e humanitária, com falta de alimentos e itens básicos de higiene. O país tem apenas 1.090 mortos registrados pela doença, mas a oposição diz que os dados são manipulados pelo governo.

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