Por que a poupança teve o pior rendimento em 18 anos

No ano em que a captação da caderneta bateu recorde em meio à pandemia, desempenho do investimento foi negativo

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    A caderneta de poupança teve captação recorde em 2020, de acordo com dado divulgado pelo Banco Central em 7 de janeiro de 2021. No ano, os brasileiros depositaram R$ 3,132 trilhões na poupança, e os saques somaram R$ 2,965 trilhões. O saldo foi o maior da série histórica iniciada em 1995.

    R$ 166,3 bilhões

    foi a diferença entre depósitos e saques da caderneta de poupança em 2020

    R$ 1,036 trilhão

    É o total de dinheiro que os brasileiros mantinham na poupança no final de 2020. Foi o primeiro registro acima de R$ 1 trilhão na série do Banco Central

    A procura recorde pela poupança em 2020 esteve associada a dois movimentos principais. Por um lado, a crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus levou brasileiros a sustentarem preocupações com relação ao futuro. O risco de perder o emprego e a renda levou muitas pessoas, quando possível, a reduzirem o consumo e guardarem dinheiro. A caderneta de poupança – investimento que é, historicamente, o mais popular no Brasil – acabou sendo o destino de parte considerável dessas economias.

    Outro fator que ajudou a impulsionar a entrada de dinheiro na poupança foi o auxílio emergencial voltado para trabalhadores informais e autônomos. O benefício, articulado pelo Congresso Nacional em março, alcançou diretamente mais de 67 milhões de brasileiros.

    Os depósitos, que foram de R$ 600 entre abril e agosto e R$ 300 entre setembro e dezembro, eram feitos pela Caixa Econômica Federal em contas-poupança digitais. Ou seja, o dinheiro transferido pelo governo federal era aplicado automaticamente na caderneta de poupança. Os pagamentos do programa foram encerrados no fim de 2020.

    O rendimento da poupança em 2020

    Em paralelo à captação recorde da poupança em 2020, os rendimentos da caderneta tiveram o pior desempenho desde 2002. Em termos reais – corrigidos pela inflação do período –, os ganhos foram negativos. Ou seja, o aumento de preços da economia brasileira superou os rendimentos nominais da poupança, corroendo o poder de compra de quem deixou o dinheiro nas cadernetas.

    2,3%

    foi o resultado negativo da caderneta de poupança em 2020

    INFLAÇÃO DESCONTADA

    Rendimentos reais acumulados em 12 meses. Poupança e Selic mergulharam em território negativo em 2020

    O resultado da poupança em 2020 foi levemente inferior ao de 2015, quando as perdas foram de 2,28%. Em 2002, o rendimento real negativo da poupança foi de 2,9%, de acordo com levantamento da consultoria Economatica.

    O que está por trás do rendimento ruim

    O rendimento da poupança é calculado de jeitos diferentes para depósitos feitos antes e depois de 3 de maio de 2012. O dinheiro colocado antes dessa data rende a uma taxa de 0,5% ao mês – ou 6,17% ao ano. A esse rendimento, soma-se a Taxa Referencial de juros, que desde 2017 está zerada.

    Se o dinheiro foi aplicado na poupança a partir de 4 de maio de 2012, o rendimento é calculado tendo a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia, como referência. Se a meta da Selic estiver acima de 8,5% ao ano – algo que não acontece desde setembro de 2017 –, a poupança renderá à taxa de 0,5% ao mês, mais a Taxa Referencial. Se a Selic estiver abaixo de 8,5% ao ano, como ocorre desde o segundo semestre de 2017, o rendimento da poupança será 70% da Selic, somados à Taxa Referencial.

    A cada queda da Selic abaixo de 8,5% ao ano, portanto, o rendimento da poupança cai junto. E em 2020, a taxa Selic chegou a seu menor patamar na história – 2% ao ano, nível em que está estacionada desde agosto. Dessa forma, a queda da taxa de juros significou um menor rendimento para a poupança.

    TRAJETÓRIA DOS JUROS

    Evolução da meta da taxa Selic. Mínima histórica de 2% ao ano em 2020, mas já foi maior que 14% em anos recentes (2016).

    Os cortes na Selic estão relacionados ao contexto econômico do Brasil em 2020. Na pandemia, os juros passaram por diversas quedas, pensadas para tentar estimular a economia brasileira em meio à crise, por meio do aumento de liquidez. O movimento deu sequência aos cortes iniciados no final de julho de 2019, quando o Banco Central optou por baixar os juros depois de eles passarem 16 meses no mesmo patamar.

    O fator da inflação

    O rendimento da poupança também é afetado por outro fator que não aparece na fórmula do cálculo. Trata-se da inflação, que pode corroer os ganhos reais da aplicação na poupança.

    Tanto a taxa Selic como o rendimento da poupança têm valores nominais e reais. O rendimento nominal é aquele que não considera os efeitos de corrosão da inflação. Se um investimento rende a 10% nominais ao mês e nesse período os preços da economia não mudam (não há inflação), o ganho real foi de 10%. Mas se esse rendimento de 10% for acompanhado de um aumento de 10% nos preços da economia, o ganho real foi nulo.

    Portanto, para calcular o rendimento real de algo – seja dos juros básicos, da caderneta de poupança ou de um fundo de ações –, é necessário subtrair a inflação dos ganhos nominais.

    Em 2020, a inflação no Brasil foi de 4,52%, conforme divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (12). A variação dos preços é medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), publicado mensalmente pelo IBGE. A aceleração dos preços foi puxada principalmente pelo grupo de alimentos.

    INFLAÇÃO DESDE 2010

    Trajetória da inflação e metas no Brasil. Em 2020, acima do centro mas abaixo do teto

    A inflação de 4,52% em 2020 foi a maior registrada no Brasil desde 2016. Apesar de não ter sido muito alta em termos históricos – o Brasil é um país com passado hiperinflacionário –, a combinação de aceleração da inflação com os juros em baixa prejudicou a poupança em 2020.

    Renda fixa, juros e inflação em 2021

    A poupança é uma das modalidades de investimentos de renda fixa, em que o investidor já sabe, no momento em que aplica, como vai ser o rendimento do dinheiro ao longo do tempo. Isso não quer dizer, no entanto, que é possível necessariamente calcular com antecedência o valor exato recebido ao fim de uma aplicação em renda fixa.

    Boa parte dos investimentos de renda fixa são os chamados pós-fixados. Ou seja, quando se aplica o dinheiro, combina-se que os rendimentos serão pagos com base em um índice pré-determinado, mas de valor futuro ainda desconhecido. Os dois principais exemplos de índices usados no Brasil são a inflação e a Selic – que são, justamente, variáveis centrais para definir o rendimento real da caderneta de poupança. Além da poupança, outros exemplos de investimentos de renda fixa são aplicações como o Tesouro Direto, o CDB (Certificado de Depósito Bancário), a LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e a LCA (Letra de Crédito Agrário).

    No início de 2021, a expectativa de agentes de mercado no Brasil – captada pelo boletim Focus do Banco Central – é que a Selic deverá chegar ao final do ano em 3,25%. Ou seja, espera-se que a taxa de juros suba pela primeira vez desde meados de 2015 e saia de seu patamar historicamente baixo. Isso deve melhorar o rendimento nominal de investimentos da renda fixa atrelados aos juros, como a poupança.

    Os agentes de mercado também esperam que a inflação seja menor em 2021 do que em 2020 – a variação projetada para o IPCA é de 3,34%. Se as expectativas publicadas no boletim Focus no começo do ano se concretizarem, a poupança deverá ter um desempenho melhor em 2021 em relação ao ano anterior. Isso porque tanto os juros quanto a inflação terão movimentos favoráveis aos rendimentos de quem investe na poupança.

    A alternativa da renda variável

    Como a Selic serve de referência para o restante da economia, se a sua taxa cai, a tendência é que isso reduza os rendimentos de renda fixa e diminua a atratividade desses investimentos. Em compensação, cresce a atratividade de investimentos de renda variável, em que um ativo pode ou não valorizar após a compra.

    Um exemplo de investimento em renda variável é a compra de ações na bolsa de valores. Há ações que pagam dividendos, mas quem compra esses papéis geralmente está apostando no aumento dos preços das ações. A ideia é esperar que os ativos se valorizem, para vender a um preço mais alto. Outros investimentos comuns de renda variável são moedas estrangeiras.

    Esse tipo de investimento pode proporcionar ganhos muito maiores que a renda fixa. Mas há também um risco maior de perdas, que exige mais atenção do investidor aos movimentos do mercado.

    Em 2020, a bolsa brasileira registrou um tombo enorme em fevereiro e março – época em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a pandemia do novo coronavírus. Nos meses seguintes, a trajetória foi de recuperação gradual, a ponto das perdas do início do ano terem sido compensadas. O Ibovespa, principal índice da bolsa de valores de São Paulo, fechou 2020 com ganho nominal de 2,9%. Corrigindo pela inflação, o resultado negativo de 1,53% ainda foi melhor que o desempenho da poupança.

    Já o dólar teve valorização de pouco mais de 23% frente ao real, já corrigida pela inflação. Isso significa que uma pessoa que comprou dólares no início de 2020 chegou ao final do ano com ganhos reais de mais de 23% – muito superior ao rendimento da caderneta de poupança. O boletim Focus projeta que, em 2021, a cotação do dólar caia para R$ 5,00 até o final do ano no Brasil – mas o câmbio é uma variável considerada muito volátil e imprevisível por economistas.

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