Como a falta de oxigênio eleva o drama da pandemia em Manaus

Sem insumo nos hospitais, médicos são obrigados a fazer ventilação manual em pacientes de covid-19. Bolsonaro atribuiu crise a falta de ‘tratamento precoce’ que não existe

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O agravamento da crise sanitária em Manaus causada pela pandemia do novo coronavírus criou um cenário de caos e desespero nos hospitais da cidade devido à falta de oxigênio para atender pacientes internados com covid-19. Há relatos de pessoas com infecção respiratória que morreram pela falta do insumo, sem receber o tratamento adequado.

Familiares têm se mobilizado para comprar e levar cilindros aos doentes. Profissionais de saúde também tiveram que se revezar a cada 20 minutos para fazer ventilação manual com um equipamento conhecido como ambu ou BVM (bolsa válvula máscara). Sociedades médicas não recomendam o uso da técnica em pacientes com covid-19 devido ao alto risco de contaminação da própria equipe médica.

Em vídeo divulgado em redes sociais na quinta-feira (14), uma mulher chora e pede para quem tiver disponibilidade que leve oxigênio para uma unidade de saúde de Manaus. Ao jornal Folha de S.Paulo o pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, descreveu os hospitais da cidade como “câmaras de asfixia”, devido às mortes ocorridas pela falta do insumo. “Os pacientes que conseguirem sobreviver, além de tudo, devem ficar com sequelas cerebrais permanentes”, afirmou ao jornal.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, viajou à capital do Amazonas na segunda-feira (11) para anunciar medidas de apoio ao estado. Naquele dia, o governador Wilson Lima (PSC) classificou a situação dos hospitais como “dramática” e pediu auxílio do governo federal para o fornecimento de oxigênio. O apoio anunciado pelo ministro, porém, não conseguiu evitar que hospitais registrassem falta de oxigênio na quinta-feira (14).

Na sexta-feira (15), o ministro do Supremo Ricardo Lewandowski determinou que o governo federal faça tudo a seu alcance para suprir os hospitais com oxigênio e conter a "seríssima crise sanitária" na cidade. Ele deu um prazo de 48 horas para que a gestão de Jair Bolsonaro apresente um plano detalhado do enfrentamento da situação.

A piora da crise do oxigênio

Entre as medidas anunciadas pelo governo federal em apoio ao Amazonas, estavam a abertura de leitos em hospitais federais e a disponibilização de recursos para a contratação de 1.400 profissionais de saúde. Um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) descarregou na manhã de quinta-feira (14) tanques de oxigênio para reforçar os hospitais.

As empresas que fornecem oxigênio para os hospitais do estado têm uma capacidade de produção diária de 28,2 mil metros cúbicos por dia, mas a demanda, com o aumento dos casos de covid-19, chegou a 76 mil. A empresa White Martins, principal fornecedora do governo do Amazonas, anunciou na quinta-feira (14) que tenta importar oxigênio da Venezuela para suprir a demanda do estado.

“O que aconteceu é que, de última hora, a nossa demanda [por oxigênio] aumentou significativamente e a empresa nos informou que não poderia mais nos fornecer na capacidade que nós precisávamos. Foi aí que nós começamos a fazer essa grande mobilização com o governo federal”, disse o governador à TV Globo, na quinta-feira (14).

Na manhã de quinta-feira (14), o Hospital Universitário Getúlio Vargas, ligado à Universidade Federal do Amazonas, ficou cerca de quatro horas sem oxigênio, o que gerou desespero nos funcionários. Outros hospitais e serviços de pronto-atendimento ficaram sem o insumo. Como todo o sistema de saúde do estado está em colapso, há risco de mais hospitais enfrentarem o problema.

Sem condições de atender a todos os pacientes, o Amazonas decidiu transferir ao menos 750 pacientes para cinco ou seis estados que possam recebê-los, como Goiás, Distrito Federal e estados do Nordeste. O governo do Pará, na tentativa de evitar o aumento de casos de covid-19, decidiu proibir a circulação de embarcações saídas do estado vizinho.

Na noite de quinta-feira (14), após os relatos de escassez repercutirem durante o dia, Pazuello anunciou numa live com o presidente Jair Bolsonaro o envio cilindros de oxigênio para Manaus em aviões da Força Aérea Brasileira. O governo brasileiro também pediu ajuda aos EUA para transportar insumos até a capital amazonense.

A aposta infundada na cloroquina

Como solução para o caos em Manaus, o Ministério da Saúde tem pressionado a prefeitura a distribuir aos pacientes nos hospitais municipais remédios ineficazes contra a doença, como a hidroxicloroquina (medicamento contra a malária) e a ivermectina (geralmente usado contra piolho e sarna).

Na terça-feira (12), o presidente Jair Bolsonaro atribuiu o aumento nas mortes em Manaus à falta de adesão ao que ele chama de “tratamento precoce” contra a covid-19. Não existe tratamento do tipo comprovadamente eficaz contra a doença, e a explicação do presidente sobre o quadro na cidade não se sustenta em evidências.

“Olha o que estava acontecendo em Manaus agora (...). Mandamos ontem [segunda-feira, 11], o nosso ministro da Saúde para lá. Estava um caos. Não faziam tratamento precoce. Aumentou assustadoramente o número de mortes. E mortes, pessoal, por asfixia, porque não tinha oxigênio. O governo estadual e municipal deixou [sic] acabar oxigênio. É morrendo asfixiado”, afirmou o presidente, a apoiadores.

Durante a transmissão pela internet feita por Bolsonaro na quinta-feira (14), o ministro disse que a responsabilidade pela ação durante a crise sanitária em Manaus continua sendo do prefeito e do governador do estado. “Mas nós estamos apoiando em todos os aspectos”, afirmou. Na live, eles voltaram a defender o “tratamento precoce” contra a covid-19.

Pazuello lançou durante sua visita a Manaus um aplicativo de uso exclusivo de médicos para incentivar a prescrição de medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

O Ministério Público decidiu investigar a recomendação para o “tratamento precoce” feita pelo governo federal. Ao canal CNN Brasil, o subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado disse que a estratégia poderia representar desperdício de dinheiro público já que a OMS (Organização Mundial da Saúde) não considera os remédios eficazes.

O segundo colapso da saúde na cidade

A falta de oxigênio na capital do Amazonas se deve à explosão de hospitalizações desde o fim de 2020. Nos 13 primeiros dias de janeiro, a cidade teve 2.429 novas internações. Em comparação, o número foi de 2.128 durante todo o mês de abril de 2020, no primeiro pico da pandemia. Em alguns hospitais, pacientes dividem espaço com corpos devido à falta de local para armazená-los ou são barrados na porta por falta de vagas.

Os casos aumentaram devido ao descumprimento das regras de isolamento e das aglomerações nas eleições e nas festas de fim de ano, segundo autoridades de saúde do município e do estado. O governador tentou fechar o comércio não essencial em dezembro, mas recuou após protesto de lojistas. As atividades só foram suspensas no começo de janeiro por ordem da Justiça.

Pesquisadores também investigam se uma nova variante do coronavírus surgida entre dezembro e janeiro em Manaus pode ter contribuído para o rápido aumento de casos e mortes na cidade. A descoberta da mutação no vírus foi anunciada no domingo (10) pelo Ministério da Saúde do Japão, que afirmou ter detectado a variante em quatro viajantes que retornaram ao país no começo de janeiro após passarem pelo Amazonas. Mutações em vírus são comuns e esperadas, mas podem torná-lo mais contagioso, como parece ser o caso da variante encontrada em Manaus.

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