O estudo que põe em xeque a periodização da Idade da Pedra

Descoberta de cientistas da Alemanha e do Senegal mostra que a primeira cultura humana pode ter durado 20 mil anos a mais do que se pensava

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    A pré-história, apesar de não ter moldado a contemporaneidade tal qual os eventos do século 20, é importantíssima para entender a evolução da humanidade numa escala mais ampla.

    A humanidade surgiu na África há 5 ou 7 milhões de anos. Conforme o tempo foi passando, os animais do gênero Homo foram se desenvolvendo e se tornando mais inteligentes e hábeis.

    Em um título dado por historiadores do século 19, a humanidade atingiu, há cerca de 3 milhões de anos, a Idade da Pedra, caracterizada pela criação de ferramentas de pedra por parte dos seres humanos.

    A Idade da Pedra pode ser dividida em três períodos: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico, com o primeiro sendo o mais antigo e o último o mais recente.

    O período Paleolítico, por sua vez, é separado em outros três momentos: Paleolítico Inferior (de 3 milhões a.C a 250 mil a.C), Paleolítico Médio (de 250 mil a.C a 40 mil a.C) e Paleolítico Superior (de 40 mil a.C a 10 mil a.C) – este último momento coexistiu com o Mesolítico (de 13 mil a.C a 9 mil a.C) durante 3 mil anos. Entre o Mesolítico e o Neolítico, houve também um momento de transição (sinalizado em cinza no gráfico abaixo).

    É consenso entre os historiadores que o Paleolítico Médio foi um dos momentos de maior desenvolvimento da humanidade, dadas as limitações da época. Porém, novas descobertas feitas por cientistas do Instituto Max Planck, da Alemanha, e da Universidade Cheik Anta Diop, no Senegal, colocam em xeque as ideias que se tinham em relação à duração desse período. Elas foram anunciadas em um artigo da revista Scientific Reports publicado na segunda-feira (11).

    O que foi descoberto. E seu impacto

    Eleanor Scerri, doutora em arqueologia e chefe do Departamento de Estudo da Evolução Pan-Africana do Instituto Max Planck, e Khady Niang, doutora em arqueologia e pesquisadora da Universidade Cheik Anta Diop, foram as líderes da pesquisa.

    Scerri e Niang visitaram 11 sítios arqueológicos espalhados por todo o Senegal, escavando e catalogando o que foi encontrado. Na busca, encontraram ferramentas de pedra – em especial flechas e pás – feitas com materiais e métodos que correspondem ao período da Idade da Pedra Média.

    Contudo, por meio de análises de composição e de estrutura, as cientistas constataram que alguns dos achados tinham sido feitos com materiais e métodos que correspondiam ao Paleolítico Médio, mas com um detalhe intrigante: elas tinham sido feitas há 11 mil anos, o que, na prática, dão cerca de 20 mil anos a mais ao período em relação ao consenso que se tinha.

    Linha do tempo da Idade da Pedra

    “Antes do nosso trabalho, a ideia que se tinha da África é que muito antes de 11 mil anos atrás, os últimos traços do Paleolítico Médio tinham desaparecido, junto com a vida que refletiam”, afirmou Niang ao site do Instituto Max Planck na segunda-feira (11).

    “Essas descobertas mostram a importância de investigar a fundo o continente africano, se queremos realmente entender o passado humano”, disse.

    Para Scerri, o artigo pode incentivar novas pesquisas que investigam o oeste da África, podendo levar a novas grandes descobertas e uma possível reescrita do que se entende da pré-história.

    “O oeste africano é a fronteira final dos estudos da evolução da humanidade. Não sabemos quase nada do que aconteceu ali na pré-história”, afirmou.

    “Quase tudo que sabemos das origens humanas é extrapolado a partir de descobertas em pequenas porções do leste e do sul da África”, concluiu.

    Para além da possibilidade de incentivar novas pesquisas na área, o artigo de Niang e Scerri ajuda a solidificar ainda mais a noção de que os processos históricos não se deram de forma linear e bem delimitada, e que todas as mudanças vistas na pré-história se deram de forma relativamente lenta e gradual.

    Colaboraram Sariana Fernandez e Thiago Quadros com o gráfico

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.