Como o marketing de Doria turvou as virtudes da Coronavac

Adiamentos de anúncio e divulgação parcial de dados de eficácia alimentaram narrativas antivacina e podem prejudicar a imunização no país, segundo pesquisadores

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tornou-se alvo de críticas pela forma como foram divulgados os resultados dos testes da Coronavac, vacina que está sendo produzida pelo Instituto Butantan por meio de uma parceria com o laboratório chinês Sinovac.

O anúncio de dados parciais num primeiro momento e a demora para revelar a taxa global de eficácia da vacina foram vistos por parte da comunidade científica como prejudicial para o entendimento da população sobre a importância de se vacinar, num contexto de crescente atuação de grupos antivacinação, inclusive no Brasil.

Dados do Datafolha também mostram que a resistência da população em se vacinar tem aumentado. Em dezembro de 2020, 22% dos entrevistados disseram que não pretendiam tomar a vacina contra a covid-19 — em agosto, esse número era de 9%. A porcentagem de quem resiste à vacinação aumenta para 50% quando o entrevistado é perguntado se toparia receber um imunizante desenvolvido na China.

A mudança na opinião da população coincide com o período em que o presidente Jair Bolsonaro passou a se manifestar contra a vacinação, embora não seja possível dizer que essa tenha sido essa a causa principal na tendência captada pela pesquisa.

As lacunas na comunicação

Depois de uma série de adiamentos no final de 2020, Doria anunciou em 7 de janeiro que a taxa de eficácia da Coronavac variava de 78% (considerando casos leves que precisam de intervenção médica) a 100% (para casos moderados que requerem internação ou graves).

Os dados foram comemorados, mas considerados insuficientes pela comunidade científica. Faltava a divulgação do número de infectados entre os voluntários que tomaram a vacina e entre os participantes que receberam um placebo (substância sem efeito). A comparação entre os dois grupos testados permite o cálculo global da eficácia. O governo paulista disse que os números não foram divulgados inicialmente porque o contrato com o laboratório Sinovac, que desenvolveu a vacina, não permitia.

A taxa global, de 50,38%, só foi revelada pelo Instituto Butantan na terça-feira (12), após pressão e críticas da comunidade científica. O número é o mínimo aceitável pela OMS (Organização Mundial de Saúde), pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelas agências reguladoras de outros países para a aprovação de uma vacina contra a covid.

Além disso, foi dito que a taxa de 100% de eficácia em casos moderados e graves, que havia sido divulgada inicialmente, não pode ser considerada, pois se baseia apenas em sete casos observados nos estudos, e o número é estatisticamente insuficiente.

Doria, que havia participado da divulgação dos dados parciais, não esteve no anúncio dos resultados completos. O governo abriu espaço durante a divulgação para cientistas de fora do Butantan comentarem os resultados de modo a reforçar a urgência da aprovação da Coronavac. O pedido emergencial para seu uso está sendo analisado pela Anvisa, ligada ao governo federal. O órgão deve decidir sobre o tema no domingo (17).

A eficácia ficou abaixo da obtida por outros imunizantes, como os da Pfizer e da Moderna, que superaram os 90%. Mas os números não são comparáveis porque cada teste usou critérios próprios, com recortes diferentes.

Mesmo com 50,38% de eficácia, a vacina comprada pelo Butantan funciona, provou-se segura e será fundamental para desafogar o sistema hospitalar e reduzir o número de mortes pela covid-19. Para isso, segundo os cientistas, ela deve começar a ser aplicada o quanto antes de maneira ampla, tendo em vista o agravamento da pandemia no país. O temor dos cientistas é que os erros de comunicação não tenham deixado isso claro para a população.

O impacto da falta de transparência

Nos últimos meses de 2020, Doria criou uma expectativa na população em torno dos dados da vacina. Para parte da comunidade científica, a falta de transparência na divulgação passou a ideia de que o governo tentou esconder algo, ao selecionar apenas os números que lhe interessavam. Isso acabou encobrindo os resultados positivos.

“Vamos arrumar o que a brilhante comunicação do governo de São Paulo está estragando. Os resultados da Coronavac são muito bons! Eles têm impacto na estratégia de uso, têm limitações, mas são bons mesmo. Muito melhores que a pataquada da comunicação oficial”, escreveu em sua conta do Twitter o médico Marcio Bittencourt. Ele lembrou que os dados indicam que a pessoa que não se vacinar tem cinco vezes mais chances de precisar de um médico se for infectada.

O médico Drauzio Varella chamou de “trapalhada” a forma como o governo paulista tratou os dados, em entrevista à GloboNews. “Isso é uma demonstração do que acontece quando assuntos técnicos e científicos servem de argumentos para uso político. Tivemos desde o início essa dicotomia entre governo de São Paulo e Ministério da Saúde”, disse.

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, na quarta-feira (13), o médico e advogado Daniel Dourado disse que a comunicação sobre as vacinas tem se concentrado em números que ninguém entende bem, deixando a população confusa e desconfiada, situação agravada pela atuação do presidente Bolsonaro em desacreditar a vacinação.

“É consenso entre cientistas e formuladores de políticas sanitárias que a cobertura vacinal é um elemento mais importante do que a eficácia das vacinas para controlar uma epidemia. Ou seja, é preferível uma vacina com menor eficácia que chegue a toda a população-alvo a uma vacina mais eficaz, mas que só possa ser disponibilizada a uma parcela dessa população. Por isso, a comunicação precisa ter como meta incentivar o maior número possível de pessoas a se vacinarem”, escreveu.

Ao Nexo o pesquisador João Henrique Rafael Junior, analista de comunicação do IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP de Ribeirão Preto e idealizador da União Pró-Vacina, iniciativa que visa combater a desinformação sobre o tema, disse que a Coronavac já era alvo de ataques, mas que os erros de comunicação do governo paulista jogaram ainda mais combustível nos grupos antivacinas.

“Antes do anúncio, houve uma série de adiamentos. Cada vez que a divulgação era adiada, isso incendiava os grupos e as redes antivacina. Os erros não começaram agora na comunicação da Coronavac. Esses grupos estão atuando desde o primeiro semestre atacando as vacinas ainda em desenvolvimento. Sabíamos que quanto mais se aproximasse do final da pesquisa e do início da vacinação, esses grupos se tornariam mais ruidosos”, disse.

Para ele, a falta de transparência dificulta iniciativas de combate à desinformação. “Precisamos dos dados e de transparência para que possamos apresentar todas as informações corretas quando enfrentamos a desinformação ou conversamos com o público em geral. É muito prejudicial quando as informações chegam de forma fragmentada”, afirmou.

Quando o anúncio sobre a eficácia de 50% foi feito na terça-feira (12), os grupos antivacina aproveitaram as brechas na comunicação para acusar o governo de São Paulo de esconder algo, segundo o pesquisador. Ele monitorou publicações no Twitter e no Facebook.

“As redes de desinformação começaram a confundir todos os números e a dizer: ‘Olha como o governo mente. Falaram que era 90%, depois 78%, e agora 50%’. Agora a gente vai ter que desmontar essas narrativas, só que cada vez mais perto do início da vacinação. Esse processo de comunicação nos deixou com menos tempo de reação, inflamou o esses discursos e criou uma nova linhagem de desinformação. O cenário se tornou ainda mais desafiador”, disse.

A politização da vacina

De olho nas eleições presidenciais de 2022, Doria e Bolsonaro vêm travando uma disputa política em torno da vacina. Em novembro de 2020, a Anvisa chegou a suspender os testes com a Coronavac depois da morte de um voluntário. Os estudos foram retomados após confirmação de que o caso não tinha relação com a vacina.

A suspensão levantou, porém, suspeitas de ter sido realizada para atrasar as pesquisas do Butantan, o que a agência negou. Bolsonaro chegou a publicar nas redes sociais que havia ganhado a disputa com Doria com a paralisação dos testes.

O governo de São Paulo vem planejando a própria vacinação sem contar com o Ministério da Saúde. Em junho de 2020, firmou parceria com o laboratório chinês Sinovac para a realização de testes da vacina no Brasil e a produção do imunizante pelo Instituto Butantan caso ele se mostrasse eficaz. No final de setembro, sem sequer ter concluído os testes, Doria anunciou a intenção de disponibilizar a Coronavac para os grupos prioritários na segunda quinzena de dezembro de 2020. Depois, com o atraso nos testes, adiou a iniciativa para 25 de janeiro.

É papel do governo federal planejar e executar um plano nacional que garanta a toda a população, independente da região onde ela estiver, o acesso à vacina. Desde os anos 1970, com a criação do Programa Nacional de Imunizações, o país passou a ter um calendário único de vacinação, coordenado pelo Ministério da Saúde.

Bolsonaro, porém, adotou uma linha negacionista durante a pandemia. Ele desdenhou da gravidade do novo coronavírus e apostou em remédios sem eficácia contra a covid-19 para defender o funcionamento do comércio e dos serviços. Dois ministros médicos foram substituídos na pasta da Saúde por um general do Exército sem experiência na área.

O ministério chegou a cogitar inicialmente o início da imunização em abril de 2021. Pressionado, apresentou em dezembro um plano de vacinação que não citava datas. O órgão apostou inicialmente em poucas opções de vacinas: a desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório anglo-sueco AstraZeneca, para ser produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), e as opções oferecidas pelo consórcio Covax Facility, da OMS. O Canadá, por exemplo, fechou contrato com sete laboratórios ao longo da pandemia e iniciou a vacinação ainda em dezembro.

Com a pressão exercida por São Paulo, o Ministério da Saúde acabou incluindo a Coronavac em seus planos, mesmo com as declarações anteriores de Bolsonaro para não comprá-la. Após a divulgação do resultado de eficácia pelo Butantan, Bolsonaro ironizou a vacina na quarta-feira (13), em conversa com apoiadores: “Essa de 50% é uma boa?”, questionou. Doria respondeu que a declaração do presidente era “lamentável” e disse que Bolsonaro, em vez de comemorar que o país tenha uma vacina segura e eficaz, “brinca de ser presidente”.

Em sua conta no Twitter, o governador escreveu: “Renomados cientistas declararam sua satisfação com a apresentação dos estudos clínicos de segurança e eficácia da vacina do Butantan. O apelo da ciência é pelo fim da politização e início da vacinação”.

A etapa mais recente da briga entre ele e o presidente diz respeito à autorização para o uso da Coronavac, que depende de aval da Anvisa, órgão cujos diretores foram escolhidos e nomeados por Bolsonaro. Existe o temor de que a agência atue para prejudicar os planos de Doria. A Anvisa nega interferência política e diz que analisa os pedidos de maneira técnica. O governo federal, assim como o governo paulista, tem dito que a vacinação deve começar em janeiro.

A decisão sobre a liberação das vacinas da Fiocruz e do Butantan está marcada para o domingo (17). O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a distribuição para os estados ocorrerá de três a quatro dias após a aprovação de um imunizante. Numa primeira etapa, apenas grupos prioritários como profissionais de saúde, idosos com 75 anos ou mais, indígenas e quilombolas devem ser vacinados.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.