Como Macron usa a soja brasileira para pressionar Bolsonaro

Presidente francês diz que pretende substituir a compra do produto brasileiro por uma produção europeia, para conter devastação da Amazônia

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    Emmanuel Macron disse na terça-feira (12) em visita à região agrícola de Tilly, 80 km a noroeste de Paris, que “depender da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”. O presidente da França afirmou então que a Europa deve produzir a soja que consome, entre outras fontes leguminosas e oleaginosas de proteína vegetal.

    A soja, exportada como grão ou em farelo, é uma das principais fontes de nutrição animal, de aves, de porcos e de gado destinados ao consumo humano na forma de carne, leite e ovos em todo o mundo.

    O Brasil é o segundo maior produtor e exportador de soja do mundo, atrás apenas dos EUA. Embora a França tenha participação pequena nesse mercado, suas decisões têm influência em outros compradores, especialmente dentro da União Europeia.

    A fala de Macron foi postada por ele mesmo no Twitter, com texto e vídeo. Ele disse: “Quando [nós, franceses] compramos a soja que é produzida a um ritmo acelerado às custas da destruição florestal no Brasil, não estamos sendo coerentes com nós mesmos. (...) A maneira concreta de pôr um fim a isso não é apenas falar, mas fazer: nós precisamos hoje da soja brasileira para viver e, por isso, nós vamos produzir soja europeia ou equivalente para que nosso modelo se sustente. Isso é algo que a Europa nos permite.”

    O Nexo entrou em contato nesta quarta-feira (13) com o Palácio do Eliseu (sede do Executivo francês), com o Ministério das Relações Exteriores da França e com a Embaixada da França em Brasília, mas todos esses órgãos disseram que não têm informações a acrescentar à fala do presidente francês.

    Como a fala de Macron foi recebida no Brasil

    Do lado brasileiro, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não havia reagido até a tarde de quarta (13). O presidente Jair Bolsonaro também não. O Itamaraty não respondeu aos pedidos de informação do Nexo a respeito do tema, assim como o Ministério do Meio Ambiente. O Ministério da Agricultura afirmou por escrito que Macron mostra completo desconhecimento sobre o processo de cultivo do produto importado pelos franceses e leva desinformação a seus compatriotas. A pasta diz que o Brasil detém domínio tecnológico para dobrar a atual produção com sustentabilidade, seja em áreas já utilizadas, seja recuperando pastagens degradadas, não necessitando de novas áreas. Toda a produção nacional tem controle de origem.

    No setor privado, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) publicou nota rechaçando a fala do presidente francês.

    Para a associação, Macron usa o argumento do meio ambiente como desculpa para justificar uma postura protecionista em relação aos próprios agricultores franceses. A Abiove afirma que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008”.

    Em julho de 2020, um estudo publicado na revista Science sustentou que pelo menos 20% da soja produzida na Amazônia e no Cerrado e exportadas à União Europeia podem provir de áreas de desmatamento ilegal. O artigo foi contestado à época pelo agronegócio brasileiro. A Abiove disse que “gera uma visão distorcida da realidade”.

    O setor da soja gera 1,4 milhão de empregos, envolve 243 mil produtores e movimenta US$ 100 bilhões por ano no Brasil, sendo que 70% de toda a produção é destinada ao mercado exterior, de acordo com dados da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja).

    A associação disse ao Nexo que, “de cada US$ 100 exportados pelo Brasil, US$ 14 vem da soja”, o que corresponde a 14% do total das exportações brasileiras. O produto está no topo da lista, acima de petróleo, minérios, açúcar e máquinas.

    Dos mais de 101 milhões de toneladas de soja que o Brasil exporta, 13 milhões vão para países da União Europeia, dos quais 5 milhões vão para a França. O maior comprador no mundo é, de longe, a China, que fica com 73,2% de toda a soja que o Brasil exporta.

    A questão do desmatamento

    A declaração de Macron foi feita seis dias depois de a organização ambientalista Bund e a Fundação Heinrich-Böll, ligada ao Partido Verde alemão, terem publicado, em 6 de janeiro, um documento chamado “Atlas da Carne 2021”, no qual associam agropecuária com desmatamento no Brasil.

    O estudo afirma que “50% dos produtos agrícolas enviados à União Europeia vindos do Brasil são produto do desmatamento, especialmente soja, carne bovina e café”.

    O governo alemão estima que 71% da terra cultivável do mundo esteja sendo usada atualmente para a produção de ração animal. O governo francês não fez referência a dados próprios ou de terceiros para subsidiar a fala de seu presidente.

    Segundo o documento alemão, 220 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos na Amazônia e no Cerrado do Brasil entre 2006 e 2017, o que corresponde a mais de 60% do tamanho da Alemanha. Cerca de 10% desse território foi utilizado para plantação de soja.

    A projeção feita pela Aprosoja para a safra 2020/2021 prevê um crescimento de 2,2% na tonelagem total de soja colhida em relação à safra anterior. A área plantada cresceu 4% em um ano, mas a entidade diz que esse avanço não se deu sobre áreas de preservação.

    A Abiove relembra que, em 2006, os produtores aderiram à Moratória da Soja no Brasil, por meio da qual assumiram “o compromisso de não comercializar, nem financiar, soja produzida em áreas que foram desmatadas no bioma [amazônico] após 22 de julho de 2008”.

    “De 2008 a 2018, [a área cultivada] passou de 1,7 milhão para 4,6 milhões de hectares (170% de expansão em dez anos, ou 10,5% de crescimento ao ano)”, mas a entidade argumenta que “a expansão da soja no bioma Amazônia ocorreu somente nas áreas que se encontravam abertas, portanto, livres de desmatamento”.

    Os interesses da França na questão

    Há três elementos – político, econômico e diplomático – no contexto da fala de Macron. Esses fatores combinados ajudam a explicar o motivo de ele ter mencionado o meio ambiente e as relações comerciais com o Brasil.

    O elemento político

    Politicamente, esta é uma das muitas respostas que o presidente francês se esforça em dar ao lobby ambiental, que cresce não apenas na França, mas em toda a Europa.

    Na eleição de 2019 para o Parlamento Europeu, partidos que têm como prioridade a causa ecológica ampliaram sua participação de 52 para 69 assentos, tornando-se a quarta maior força nessa instância continental.

    Macron foi executivo de um dos maiores bancos da Europa, o Rothschild, além de ministro do gabinete do presidente socialista François Hollande. Ele busca imprimir uma identidade dinâmica e competitiva em seu estilo de governar, prometendo não só à França, mas à Europa, um lugar de destaque numa nova ordem global, marcada pela decadência do poder americano e pela ascensão da China. A questão ecológica é parte importante desse processo europeu.

    Como líder de um movimento de centro-direita chamado République en Marche (República em Movimento), Macron busca aliar pautas conservadoras (que roubem parte do eleitoral de direita e de extrema direita) com pautas sociais e ecológicas (que roubem votos da esquerda tradicional e da esquerda populista). Politicamente, portanto, a preocupação com a Amazônia se encaixa nesse contexto.

    O elemento econômico

    A produção de soja e de outras culturas que sirvam de matéria-prima para a nutrição de animais usados para consumo humano tornou-se uma prioridade à medida que a compra de carne, leite e ovos cresceu, acompanhando o aumento do poder aquisitivo em várias partes do mundo, especialmente na China.

    Esse aumento fez com que países produtores buscassem ampliar a área cultivada do produto, aproveitando o bom momento no consumo de proteína animal, que depende da soja como ração. Para diminuir a dependência de fornecedores externos e para incentivar a própria agricultura, a França apostou num programa de fomento à produção local.

    No fim de 2020, o governo Macron lançou um programa que pretende aumentar em 40%, num prazo de três anos, a área cultivada de soja ou de culturas semelhantes, de vegetais oleaginosos e leguminosos, no território do próprio país. No longo prazo, a meta é chegar a 2 milhões de hectares em 2030.

    “Hoje temos 1 milhão de hectares dedicados ao cultivo de oleaginosas (canola, girassol, linho) e leguminosas (soja, ervilha, vagem, lentilha)”, disse ao anunciar o plano, em dezembro de 2020, o ministro da Agricultura da França, Julien Denormandie, anunciando também um pacote de 100 milhões de euros para o setor. Do ponto de vista econômico, portanto, a França quer prescindir o máximo possível da soja brasileira.

    O elemento diplomático

    Macron e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tornaram-se antagonistas abertamente desde a 45ª Cúpula do G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido), realizada no balneário francês de Biarritz, em agosto de 2019.

    Bolsonaro não participou, pois o Brasil não é membro do G7. Ainda assim, o país foi durante alguns momentos o centro das atenções, quando Macron falou do tema ambiental como uma prioridade, e apontou para o Brasil de Bolsonaro como mau exemplo.

    O presidente francês disse que Bolsonaro “mentiu” quando disse que preservaria a Amazônia. Em resposta, o presidente brasileiro manifestou nas redes apoio a uma postagem que dizia que a primeira-dama da França, Brigitte Macron, é feia, o que Macron classificou como algo “triste para os brasileiros”.

    No mesmo mês de agosto de 2019, Bolsonaro havia abortado um encontro com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, dizendo que estava com a agenda cheia. No momento do encontro, entretanto, o presidente brasileiro estava cortando o cabelo. Le Drian ironizou mais tarde a “urgência capilar” do presidente brasileiro.

    Vários problemas combinados

    O governo brasileiro espera que a União Europeia aprove um aguardado acordo comercial com os países-membros do Mercosul. Para que isso ocorra, é preciso que cada um dos Parlamentos dos 27 países que compõem deem sinal verde. Cada vez que um governo europeu manda sinais como os da França, aumenta o risco de o acordo ser rejeitado.

    Além do atrito com a França, o governo Bolsonaro também enfrenta tensões com a China, maior destino das exportações brasileiras. Em março de 2020, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente e responsável pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, culpou Pequim pela pandemia da covid-19.

    O embaixador da China no Brasil, Yang Yanning, reagiu nas redes sociais, cobrando retratação. A conta oficial da Embaixada disse “repudiar veementemente” os ataques de Eduardo.

    Além dos desentendimentos com a França e a China, o governo brasileiro também insiste em manter os laços de afinidade e a defesa do governo do presidente americano, Donald Trump, que, após ser derrotado nas eleições de 3 de novembro, incentivou uma invasão ao Congresso americano em 6 de janeiro e passou a enfrentar na reta final do mandato um processo de impeachment, o segundo em seus quatro anos de governo.

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