A ameaça à Repórter Brasil. E a alta de ataques à imprensa

Investidas desestabilizam sites e chegam a tirá-los do ar para censurar conteúdos. Agressões virtuais contra veículos de comunicação crescem 140% em 2020, segundo associação de jornalismo

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    Investidas virtuais contra a imprensa cresceram 140% em 2020 na comparação com o ano anterior, segundo um levantamento feito pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

    Os ataques incluem xingamentos e ameaças de morte, além de tentativas de bloqueio e derrubada de páginas de blogs, coletivos de comunicação, sites de notícias e perfis específicos de jornalistas.

    Alguns desses ataques buscam captar e expor dados pessoais (prática conhecida como doxing) de repórteres e editores. Há registro de ações que extrapolaram o ambiente digital, chegando a ameaças físicas.

    Os incitadores das investidas contra a imprensa vão desde agentes do governo descontentes com a cobertura política a influenciadores digitais que costumam propagar notícias falsas e estimulam seus seguidores a constranger e atacar jornalistas e veículos de mídia.

    A situação vem se somar a reiteradas declarações de Jair Bolsonaro contra a imprensa. Entre vários ataques a veículos de comunicação e seus profissionais, o presidente já chegou a dizer que encheria a boca de um repórter de porrada, após ouvir uma pergunta que não gostou.

    O caso da Repórter Brasil

    O site da Repórter Brasil, organização que investiga e denuncia violações de direitos humanos a partir de grandes reportagens, foi derrubado durante algumas horas no dia 6 de janeiro após receber uma série de ataques virtuais e e-mails que exigiam a exclusão de conteúdos publicados de 2003 a 2005 na plataforma.

    No dia seguinte, houve uma tentativa de invasão física da sede da instituição em São Paulo, impedida pela chegada de vizinhos. A conexão entre as duas investidas ainda não está provada, mas a entidade registrou dois boletins de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo.

    Em uma nota de repúdio aos ataques, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e o SJSP (Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo) afirmam que “é a primeira vez que temos no Brasil um ataque cibernético com objetivo assumido de censura, portanto, assumidamente um ataque à liberdade de imprensa”.

    Sobre as chantagens que vêm recebendo, a Repórter Brasil afirma que “não atendeu, nem atenderá nenhuma tentativa de constrangimento ilegal, ainda mais uma que represente autocensura”.

    Mais veículos de imprensa sob ataque

    Em 2020, outros veículos independentes de comunicação também foram alvos de diferentes tipos de ataques virtuais. Em outubro, o Congresso em Foco teve seu perfil no Instagram sequestrado. O criminoso tentou vender a conta a outros usuários, mas ela foi recuperada.

    Em agosto, a Agência Lupa, empresa jornalística especializada em checagem, foi vítima de notícias falsas no Twitter, no Facebook e no WhatsApp. Já o site Ponte Jornalismo, que publica reportagens sobre direitos humanos e segurança pública, sofreu três semanas de ataques sucessivos até que fosse derrubado e ficasse fora do ar durante alguns minutos.

    Em setembro, o site da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) foi derrubado duas vezes e os agressores de um dos ataques foram identificados pela polícia. No mesmo mês, o portal paraense Roma News sofreu instabilidade e ficou fora do ar durante a cobertura de uma ação da Polícia Federal que investigava fraudes em contratos do governo estadual.

    O ciberataque que leva ao estresse de IP

    A tática usada pelo grupo que tirou do ar o site da Ponte e do Roma News é chamada de negação de serviço distribuída, ou DDoS (distributed denial of service, em inglês). Ela sobrecarrega o servidor de um site a partir de um hacker que comanda um exército de bots (robôs). Eles geram um grande tráfego artificial, conhecido também como “estresse de IP”, que resulta no colapso do servidor, dificultando e até inviabilizando a conexão.

    A Abraji publicou uma nota afirmando que uma das investidas sofridas pela Repórter Brasil também foi do tipo DDoS. Atualmente, essa espécie de invasão é muito popular. Em 2020, ataques DDoS chegaram a atingir sites do governo brasileiro, entre eles o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) durante as eleições municipais.

    Na deep web, existe um mercado de empresas que oferecem serviços para sobrecarregar sites de pequenas ou grandes companhias ou até de órgãos públicos. O preço é definido pelo impacto e tempo de duração da ação criminosa. O DDoS, por exemplo, pode ser contratado por US$ 10 e o pagamento é feito em criptomoedas, que são difíceis de rastrear.

    Intenções e efeitos de tentativas de silenciamento

    Para a advogada e diretora executiva da ONG Artigo 19, Denise Dora, ataques virtuais e presenciais contra jornalistas são feitos para afetar o ambiente de liberdade de expressão e, fundamentalmente, da autonomia da imprensa. Segundo Dora, a ideia de que é necessário atacar o jornalismo para consolidar um projeto de autoritarismo no país é muito forte.

    “[Os ataques] fazem parte de uma estratégia organizada de algumas forças políticas no Brasil e no mundo que hoje ocupam lugares de poder. Temos que pensar que a ideia de que um projeto autoritário para um país e para o mundo passa por uma estratégia de produzir desinformação e produzir medo ou receio, de se sentir ameaçado por quem produz a informação correta e apurada”, afirmou ao Nexo.

    O pesquisador e professor da Universidade Metodista de São Paulo Ivan Paganotti ressalta que, além do impacto econômico causado às empresas vítimas de ataques que passam a ser obrigadas a destinar recursos e tempo para se proteger, o impacto indireto causado por essas investidas é o constrangimento.

    “A ideia desses ataques é basicamente dificultar ou impedir denúncias ou divergências. Dificultar que os jornalistas consigam fazer apurações, mostrar por documentos, testemunhos, observação direta, situações problemáticas ou divulgações de opiniões divergentes”, disse ao Nexo.

    Paganotti ressalta que essas violências podem gerar o efeito contrário ao pretendido pelo agressor, já que, ao tentar silenciar um veículo independente, outras empresas maiores acabam abraçando a causa de defesa da liberdade de imprensa e de expressão, divulgando e dando visibilidade às organizações atacadas.

    Em ataque a jornalistas, mulheres são alvo predileto

    Entre os jornalistas, as mulheres foram as maiores vítimas individuais de ataques cibernéticos em 2020. Segundo levantamento da Abraji divulgado em dezembro, 20 dos 72 registros de assédios virtuais contra profissionais da imprensa se referiam a jornalistas do gênero feminino, 36 a meios de comunicação e 16 a homens. A associação ressalta que essa realidade não é só brasileira: as jornalistas são os alvos digitais preferidos no mundo todo.

    Uma pesquisa internacional realizada pela Unesco e pelo ICFJ (Centro Internacional para Jornalistas) divulgada em setembro mostra que a violência virtual contra as profissionais de mídia pode levar a ataques físicos. O levantamento feito com 1.210 jornalistas mulheres mostra que cerca de 73% delas foram alvos de abuso, ameaças, assédio e ataques online. Além disso, 20% delas acredita que abusos e ataques sofridos offline estão relacionados com a violência virtual.

    De acordo com o levantamento, as ciberameaças geralmente estão relacionadas a violência sexual. Muitas delas também incluem violações de segurança que podem expor informações dessas mulheres.

    Segundo o ICFJ, “essas ameaças combinadas podem ser chamadas de ‘violência online de gênero’. Os perpetradores variam de misóginos individuais e grupos que buscam calar as mulheres, até agentes de desinformação ligados ao estado com o objetivo de minar a liberdade de imprensa e acabar com o jornalismo crítico por meio de ataques orquestrados”.

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