‘Cyberpunk’: de game badalado a alvo de processo por falhas

Responsável por um dos jogos mais esperados de 2020, estúdio polonês virou alvo de críticas e pressões judiciais

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    Lançado em dezembro de 2020, “Cyberpunk 2077” era um dos jogos mais esperados do ano. Jogadores do mundo todo aguardavam o game ansiosamente desde seu anúncio, ainda em 2012.

    Ambientado em um universo futurista de ficção científica, “Cyberpunk 2077” prometia infinitas possibilidades de customização e de criação de histórias aos jogadores. Seria possível customizar o personagem ao máximo, da voz aos órgãos genitais, e decidir como ele se comportaria – afetando, até certo ponto, o desenvolvimento da trama. O enredo do jogo se dá em torno de uma disputa do protagonista, conhecido como V, e uma megacorporação.

    O fim da expectativa, no entanto, logo deu lugar a uma polêmica. Isso porque “Cyberpunk 2077” foi entregue com uma série de erros e falhas técnicas.

    Os bugs, como são chamados na comunidade tecnológica, eram os mais diversos. Iam de falhas inócuas – como personagens flutuando no cenário – a outros mais graves, que afetam o jogo em si, como problemas nas armas usadas em combates.

    Aos poucos, o estúdio polonês CD Projekt Red, responsável pelo título, está lançando pacotes de atualização que corrigem parte dos problemas. Mas ainda há muito o que ser arrumado – e ações de investidores e do governo da Polônia têm colocado ainda mais pressão sobre a empresa.

    O impacto das falhas

    A presença das falhas em “Cyberpunk 2077” trouxe grandes dores de cabeça para a CD Projekt Red.

    Na imprensa especializada, o jogo recebeu uma série de notas baixas, o que, na indústria dos games, influencia direta e significativamente no sucesso comercial de um título. No site Metacritic, que reúne opiniões de veículos de comunicação do mundo todo, “Cyberpunk 2077” tem 56% de aprovação, com os bugs sendo o principal problema.

    Por isso, pessoas do mundo todo começaram a pedir reembolso do valor pago, movimento que culminou com a retirada de “Cyberpunk 2077” da loja digital da PlayStation, uma das principais plataformas do mercado.

    Com o alto número de pedidos de reembolso, a CD Projekt Red se prontificou a tornar o processo o mais simples possível aos insatisfeitos, que podem contatar o estúdio com poucos cliques e receber o dinheiro de volta.

    Os problemas também refletiram nas finanças do estúdio, que viu suas ações caírem 57% entre a semana que antecedeu o lançamento e os 11 dias posteriores a ele.

    ‘Cyberpunk’ na Justiça

    “Cyberpunk 2077” tem trazido problemas legais para a CD Projekt Red, na forma de um processo movido por investidores na Justiça americana e uma notificação do governo polonês.

    O processo foi aberto em 25 de dezembro, sob liderança do escritório de advocacia americano Rosen Law, que representa investidores do estúdio que compraram ações entre janeiro e novembro de 2020.

    O argumento dos investidores é de que a CD Projekt Red “deu declarações falsas sobre o desenvolvimento do jogo", incutindo-os a erro na hora da compra de ações. A empresa nega e afirma que, embora tenha problemas, apresentou um produto completo e jogável, reiterando que vai fornecer atualizações com correções.

    A notificação por parte do governo da Polônia chegou na segunda-feira (11), enviada pelo Escritório de Competição e Proteção ao Consumidor da Polônia (o equivalente a uma mistura do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, e do Procon no Brasil).

    Segundo o órgão, os bugs podem configurar propaganda enganosa, o que pode acarretar ao estúdio uma multa equivalente a 10% de seu faturamento bruto no ano de 2020.

    A entidade afirmou que vai acompanhar de perto o processo de correção dos problemas para garantir a satisfação dos consumidores que compraram o game. Um prazo para tudo ser resolvido não foi dado, dada a complexidade existente no desenvolvimento de jogos.

    Por que ‘Cyberpunk’ chegou com tantos bugs

    É comum que softwares – dos jogos aos programas de computador – tenham bugs em algum momento. Eles acontecem por erros de programação, conflitos com funcionalidades do sistema em que estão rodando, entre outros motivos.

    “Cyberpunk 2077” chamou a atenção pela quantidade de bugs, muitos deles graves, aliado ao fato de o game ter passado oito anos em desenvolvimento, um tempo relativamente longo.

    Além do amplo tempo para a criação do jogo, as críticas se tornaram mais duras pelo fato de o lançamento de “Cyberpunk 2077” ter sido adiado três vezes apenas em 2020, sob o pretexto de que os meses a mais melhorariam a qualidade do produto final.

    Originalmente, o título seria lançado em 16 de abril de 2020. Em janeiro daquele ano, foi adiado para setembro, depois para novembro e, por fim, dezembro.

    Nesse ínterim, os funcionários da CD Projekt Red e de empresas terceirizadas que prestavam serviços ao estúdio tiveram de cumprir um regime de horas extras por meses, um processo que, na indústria, é conhecido como crunch.

    Para ficar pronto, um game necessita do trabalho de algumas milhares de pessoas, já que o produto passa por uma série de longas etapas de desenvolvimento, cada uma com suas particularidades, desafios e demandas.

    Um game requer que haja, por exemplo, equipes dedicadas a criar as câmeras, os “atores” (modelos em 3D), o cenário e seus detalhes, os veículos, armas e todo o resto, cada uma com um número de profissionais diferentes, e focadas apenas nisso. Ao todo, cerca de 1.100 funcionários da CD Projekt Red trabalharam no desenvolvimento.

    A produção de jogos – especialmente grandes títulos, como “Cyberpunk 2077” – é difícil, custosa e demorada. O consenso na indústria é de que o crunch existe justamente por isso: são muitas coisas a serem criadas por um número de pessoas que, apesar de grande, não é suficiente para garantir que o processo seja feito numa escala de trabalho normal.

    Para analistas de mercado, o crunch foi o responsável por tornar o lançamento de “Cyberpunk 2077” tão problemático.

    “Sobrecarregar os desenvolvedores não ajuda a manter o controle de qualidade dos estúdios”, escreveu o colunista Sydney Hallman no site Slate em 18 de dezembro de 2020. “A CD Projekt Red não fez nada para acalmar as expectativas, lançando anualmente belíssimos trailers enquanto adiava o lançamento, sempre prometendo a melhor versão possível do game.”

    O mesmo foi dito pelo crítico Christopher Teuton, do site ScreenRant. “Ninguém que trabalha 100 horas por semana vai ter um bom desempenho”, escreveu em 12 de dezembro. “Intervalos, descanso, sono e tempo com a família são coisas que todo mundo precisa para recarregar as energias e, apesar de ‘Cyberpunk 2077’ precisar de mais trabalho, ter uma equipe sobrecarregada e exausta torna a correção dos problemas mais difícil.”

    A CD Projekt Red não comentou as críticas feitas às suas questões trabalhistas, e limitou-se a dizer que continuaria trabalhando em correções para os problemas do game.

    Até 13 de janeiro de 2021, cinco pacotes de atualização e correção tinham sido lançados. Pelo menos mais um está garantido, em algum momento de fevereiro. Não se sabe quantos serão necessários para corrigir todos os problemas presentes no jogo.

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