Um roteiro para entender o fim da produção da Ford no Brasil

Após mais de 100 anos no país, montadora americana anunciou que vai fechar suas três fábricas brasileiras em 2021

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    A Ford anunciou na segunda-feira (11) que irá encerrar a produção de automóveis no Brasil em 2021. Com a decisão, três fábricas serão fechadas no país: Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). As atividades das duas primeiras serão interrompidas imediatamente. A de Horizonte, que produz jipes para a marca Troller, continuará funcionando até o último trimestre de 2021.

    A Ford não irá sair por completo do Brasil. O Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, onde são desenvolvidas novas tecnologias, continuará funcionando, assim como a sede administrativa e o campo de provas (usado em testes de automóveis), ambos no estado de São Paulo. Além disso, a empresa continuará vendendo carros no Brasil – mas eles serão importados de outros países.

    Ao todo, entre demissões, compensações e pagamento de dívidas, o custo das operações de encerramento deverá ser de US$ 4,1 bilhões (R$ 22,5 bilhões no câmbio de 12 de janeiro de 2021).

    O anúncio da montadora americana não foi recebido com surpresa por especialistas. Dois anos antes, no início de 2019, a multinacional já havia anunciado o fechamento da fábrica de São Bernardo. Abaixo, o Nexo traz os pontos-chave para entender a interrupção da produção da Ford no Brasil.

    Quantas vagas de emprego serão fechadas ao todo?

    Até o início de 2021, a Ford empregava 6.171 pessoas no Brasil. Boa parte delas deve ser demitida até o fim do ano, com o encerramento da produção da montadora americana no país.

    Ao portal de notícias G1, a empresa informou que cerca de 5.000 pessoas serão demitidas no Brasil e na Argentina – outro país onde a empresa passará por reestruturação em 2021. A companhia não detalhou exatamente quantas pessoas perderão trabalho em cada país.

    Não há definições sobre destino das fábricas onde a Ford está instalada. Segundo o blog da jornalista Ana Flor, da GloboNews, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), entrou em contato com as embaixadas da China, do Japão e da Coreia do Sul para uma visita à planta Camaçari. O processo para atrair uma nova montadora para o local, portanto, já foi iniciado.

    Por que a Ford vai deixar de produzir carros no Brasil?

    Na nota em que anunciou o fim da produção no Brasil, a Ford elencou alguns dos motivos por trás da decisão. O primeiro ponto citado é a transformação do mercado automotivo global, com início do processo de migração para carros elétricos e autônomos. Esse movimento ocorre por demandas de consumidores e também por regulações ambientais mais rígidas de governos pelo mundo.

    A priorização dos carros elétricos não é exclusividade da Ford no início de 2021. Apesar de ainda incipiente no Brasil e no mundo, o novo modelo de automóvel tem atraído e exigido cada vez mais investimentos, trazendo um custo alto para desenvolvimento de produtos. Esse foi um dos motivos por trás da fusão entre a italiana Fiat e a francesa Peugeot, aprovada pelos acionistas em 4 de janeiro de 2021.

    Outro aspecto levantado pela Ford na nota publicada na segunda-feira (11) é a pandemia do novo coronavírus, que, segundo a própria empresa, trouxe “persistente capacidade ociosa da indústria e redução das vendas na América do Sul, especialmente no Brasil”.

    O mercado de carros já vinha em baixa no Brasil desde 2014, ano de início da recessão que durou até 2016. Até 2020, o nível de vendas de 2013 nunca chegou a ser recuperado. A pandemia derrubou ainda mais os números da indústria automotiva no Brasil – em 2020, a produção total de carros caiu 31,6% em relação ao ano anterior. Dados da FGV (Fundação Getulio Vargas) obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo confirmam que o setor tem grande capacidade ociosa, operando em nível mais baixo que a média do restante da indústria de transformação.

    Em 2020, o desempenho da Ford foi pior que a média do restante do mercado no Brasil: a empresa teve queda de quase 40% nas suas vendas. A multinacional, que historicamente era a quarta maior montadora do país, caiu para a quinta posição no ranking de parcela do mercado brasileiro em 2020.

    O comunicado da empresa também cita um desejo de sustentar o modelo de negócios no Brasil e na América do Sul em SUVs, picapes e veículos comerciais. Ou seja, a empresa deve focar em modelos mais rentáveis, algo que já faz parte de sua estratégia global desde 2018. O deslocamento da produção para a Argentina é parte desse movimento. A planta argentina foca em picapes; a fábrica de Taubaté é especializada em motores e a fábrica de Camaçari produz modelos EcoSport e Ford Ka.

    Um último fator levantado pela Ford é a desvalorização do real frente ao dólar em 2020. O câmbio alto aumentou os custos de importação de insumos importantes da linha de produção, encarecendo e prejudicando as operações da empresa.

    Por quanto tempo a montadora ficou no Brasil?

    Os primeiros automóveis Ford a serem comercializados no Brasil eram importados dos EUA e começaram a ser vendidos em 1904.

    A montadora foi a primeira a fabricar carros no Brasil – as operações duraram mais de 100 anos. A planta pioneira foi inaugurada em 1919, no centro de São Paulo, produzindo o famoso modelo Ford T.

    A empresa esteve presente no boom de automóveis no Brasil nos anos 1950, favorecida pela política econômica do governo de Juscelino Kubitschek. No final dos anos 1970, a greve dos metalúrgicos do ABC contou com a participação dos funcionários da fábrica da Ford em São Bernardo. Nesse contexto, notabilizou-se o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, uma figura que marcaria a política do país nas próximas décadas.

    A decisão da Ford de fechar fábricas atinge apenas o Brasil?

    As mudanças anunciadas pela Ford no Brasil no início de 2021 se inserem em um contexto maior da atuação global da empresa. O foco em linhas mais rentáveis e a preparação para a chegada do carro elétrico e autônomo motivaram alterações na sua estrutura em outros países nos últimos anos.

    Essa estratégia exige corte de gastos e concentração de recursos em investimentos com maior rentabilidade. Em 2016, a montadora americana fechou suas fábricas na Austrália. Três anos depois, foi a vez da planta da Ford na França. Em 2019, cortes de empregos foram feitos na Rússia, nos EUA e no Reino Unido. No Brasil, a fábrica de São Bernardo foi fechada também em 2019.

    Em 2021, o ano começa com o anúncio da reestruturação na América do Sul, afetando principalmente o Brasil.

    De onde virão os novos carros da Ford agora?

    Com o fim da linha de produção brasileira, o país deve importar carros da Ford do Uruguai e da Argentina. A empresa americana também fala em importação de “outros mercados”, sem especificar os países de origem. Um dos resultados dessa migração é que a empresa deixará de produzir e ofertar os modelos EcoSport e Ford Ka – apesar de manter os serviços de manutenção e assistência.

    Em dezembro de 2020, o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters, anunciou um programa de investimentos de US$ 580 bilhões na Argentina, onde a produção é centrada em picapes. Além da expansão da produção, os recursos serão usados para modernizar a planta localizada na Grande Buenos Aires.

    A fábrica na Argentina é considerada mais rentável, por ter uma operação menor e produzir veículos de uma linha com maior valor agregado. A preferência dada à produção argentina estaria também ligada à maior dolarização da economia do país, o que facilitaria o repasse de custos. Ou seja, com fornecedores e clientes aceitando fazer transações em dólar, a montadora fica menos dependente de movimentos do câmbio local. No Brasil, onde a economia não é dolarizada, as operações são mais dependentes da trajetória do câmbio.

    O atual governo federal tem papel na decisão da Ford?

    A Ford não mencionou diretamente o governo brasileiro no anúncio do fechamento das fábricas. Portanto, não é possível afirmar que a decisão da empresa esteja diretamente ligada a alguma política ou medida do governo. Mas empresários e políticos se pronunciaram na segunda-feira (12).

    A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirmou em nota que o acontecimento “corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano sobre a ociosidade local, global e a falta de medidas que reduzam o custo Brasil”. Custo Brasil é uma expressão usada geralmente para se referir à soma de obstáculos que dificultam os negócios no país, como sistema tributário complexo e ineficiente, problemas de infraestrutura, alta burocracia e insegurança jurídica.

    Os diagnósticos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e da Confederação Nacional da Indústria são similares aos da Anfavea. Em notas publicadas na segunda-feira (11), as duas organizações defenderam a aprovação das reformas estruturais – em especial a reforma tributária – como forma de melhorar o ambiente de negócios, reduzir o custo Brasil e evitar que outras empresas decidam encerrar suas atividades no país.

    O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) – que articula uma candidatura para disputar a sua sucessão na Casa em fevereiro de 2021 –, disse no Twitter que “o fechamento da Ford é uma demonstração da falta de credibilidade do governo brasileiro, de regras claras, de segurança jurídica e de um sistema tributário racional”.

    O governo, por sua vez, buscou se desassociar da decisão da Ford. Em nota, o Ministério da Economia disse que lamenta o acontecimento e afirmou que “decisão da montadora destoa da forte recuperação observada na maioria dos setores da indústria no país”. A pasta também disse que “trabalha intensamente na redução do Custo Brasil”, e reforçou a importância de avançar nas reformas estruturais – que, após a aprovação da nova Previdência em 2019, estão paradas.

    Quanto de incentivo fiscal a Ford recebeu do poder público brasileiro?

    Ao longo de seus mais de 100 anos no Brasil, a Ford recebeu diversos incentivos fiscais do governo federal e governos estaduais. A maior parte deles veio na forma de renúncias na cobrança de impostos, visando favorecer as operações da empresa no Brasil – e garantindo renda e emprego para milhares de pessoas.

    Isso não é exclusividade da Ford: é uma marca da política geralmente adotada pelo poder público no Brasil com relação às montadoras. Essa prática foi muito presente nas presidências de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010) e Dilma Rousseff (2011 a 2016). Os governos petistas recebiam críticas pelo apoio visto por vezes como excessivo às empresas do setor.

    Segundo o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, a Receita Federal estima que a Ford tenha recebido R$ 20 bilhões em incentivos fiscais desde 1999. Isso significa que cifras bilionárias de dinheiro público ajudaram a manter as operações da empresa no país ao longo dos anos – mas não impediram o fechamento das fábricas em 2021.

    As montadoras que operam no Brasil também costumam contar com empréstimos do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Segundo levantamento do jornal O Globo, a Ford recebeu mais de R$ 3,5 bilhões em crédito do banco público entre 2002 e 2020. As linhas eram voltadas para projetos de desenvolvimento de novos veículos e ampliação das exportações.

    Por que esses incentivos foram incapazes de impedir o fim da produção?

    A política de subsídios do governo federal tem passado por mudanças em anos recentes. Os incentivos fiscais, por mais que ainda existam, estão em baixa.

    Bolsonaro assumiu em 2019 sob a promessa de reduzir a atuação do governo na economia, o que inclui a diminuição de subsídios para empresas privadas. Logo no primeiro mês de mandato, o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa, reforçou a resistência do governo aos incentivos fiscais a montadoras. Em reunião com executivos da General Motors que pediam mais incentivos sob a ameaça de encerrar atividades, o secretário disse: “se precisar fechar [a fábrica], fecha”.

    O próprio Bolsonaro repetiu essa linha de pensamento na terça-feira (12). Em frente ao Palácio do Planalto, o presidente disse que “faltou à Ford dizer a verdade: querem subsídios”. Bolsonaro também afirmou que “num ambiente de negócios, quando não tem lucro, você fecha. Assim é na vida em casa nossa. [...] A Ford é mesma coisa, lamento os 5.000 empregos perdidos”.

    Além dos subsídios em baixa, o momento ruim do mercado automotivo brasileiro e as adaptações das empresas a nível global ajudam a explicar a decisão da Ford de encerrar as atividades no país. E a montadora americana não é a única: a empresa alemã Mercedes-Benz também anunciou em dezembro de 2020 o fim das operações de produção no Brasil. A decisão afetou 370 trabalhadores de uma fábrica de Iracemápolis (SP), que estão com futuro indefinido no início de 2021 – a empresa diz que está “buscando alternativas” para os empregados.

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