Os principais pontos da inflação de 2020, em 5 gráficos

Preços subiram 4,52% no Brasil ao longo do ano marcado pela pandemia do novo coronavírus. Resultado foi o maior desde 2016

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A inflação no Brasil foi de 4,52% em 2020, conforme divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (12).

O dado foi publicado junto com a inflação de dezembro, que foi de 1,35%. O resultado, puxado pelo aumento na conta de luz, foi o maior para um mês no país desde fevereiro de 2003. Naquela época, o Brasil vivia um período de muita incerteza econômica diante do início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tinha a desconfiança de parte da classe empresarial.

A variação de preços é medida pelo IPCA, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, publicado mensalmente pelo IBGE. O IPCA é um dos principais índices de inflação do Brasil, e tem foco no efeito da variação sentida por consumidores com renda de entre 1 e 40 salários mínimos. Para isso, o indicador mede os aumentos de preços de centenas de produtos todo mês.

Os produtos que entram na conta do índice de inflação são escolhidos com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares – feita pelo próprio IBGE –, que revela onde os brasileiros estão gastando seu dinheiro. Cada produto ou bem entra no cálculo do índice com um peso diferente, definido a partir dos resultados da pesquisa.

A inflação de 2020 sob a perspectiva de outros anos

A inflação brasileira em 2020 superou por pouco a de 2019 (4,31%) e foi a maior desde 2016, quando o aumento dos preços foi de 6,29%. Em 2016, o Brasil estava em recessão e viu os preços subirem menos do que no ano anterior – em 2015, a inflação havia superado 10% pela primeira vez desde 2002.

De 2017 a 2020, houve crescimento da inflação em todos os anos – sempre por margens pequenas. O gráfico abaixo mostra como evoluiu a inflação no Brasil desde 1999.

HISTÓRICO DA ALTA DOS PREÇOS

Inflação anual no Brasil, medida pelo IPCA. Escadinha de 2017 a 2020, mas ainda abaixo de 2016

O gráfico acima faz um recorte de um período em que a inflação no Brasil esteve relativamente controlada, longe de seu recorde histórico nas décadas de 80 e 90. Para efeito de comparação, os preços chegaram a subir 2.477% somente em 1993, último ano antes do Plano Real, que estabilizou a situação dos preços no país e acabou com o período de hiperinflação iniciado nos anos 1980.

Em 2020 e no início de 2021, apesar de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter falado em risco de hiperinflação, o entendimento da maioria dos economistas é que a possibilidade é praticamente inexistente.

As metas de inflação em 2020

Desde 1999, o Brasil adota um regime de metas de inflação. O Banco Central estipula metas para a inflação em um ano, com uma margem para mais e outra para menos – as chamadas bandas. Então, ele deve se esforçar para cumprir os objetivos, utilizando como instrumento principal a taxa de juros – a chamada taxa Selic.

A inflação terminou 2020 dentro das metas do Banco Central. O centro da meta no ano foi de 4%; o teto foi 5,5% e o piso foi 2,5%. Com o índice de 4,52%, a inflação fechou o ano acima do centro, mas abaixo do teto.

A última vez que a variação do IPCA em 12 meses superou a banda superior da meta foi no final de 2016. O gráfico abaixo mostra a trajetória da inflação em relação à meta desde 2010.

DENTRO DAS BANDAS

Trajetória da inflação e metas no Brasil. Em 2020, acima do centro mas abaixo do teto

Em 2021, o centro da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central será de 3,75%. A variação aceita para mais ou para menos será de 1,5 ponto percentual. Ou seja, a autoridade monetária irá trabalhar para manter a variação de preços entre 2,25% e 5,25% no ano.

A inflação de 2020 ao longo do ano

Por mais que os preços tenham fechado o ano com alta de 4,52%, a primeira metade de 2020 foi marcada pela inflação em baixa no Brasil. No primeiro trimestre, os preços avançaram pouco, apenas 0,53% entre janeiro e março.

Nos três meses seguintes, houve queda dos preços. Isso ocorreu no momento de maior impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a atividade econômica do país. Com a paralisação parcial da economia – e antes do início do processo de reabertura –, a demanda por bens e serviços caiu muito, levando a uma queda nos preços. Muitos economistas identificavam, à época, uma tendência deflacionária no Brasil.

Mas a partir de junho, com a flexibilização das restrições de circulação, a inflação voltou a ganhar força. Os preços subiram de modo acelerado no restante do ano, ganhando maior ritmo no último trimestre. O movimento que levou a inflação a fechar 2020 em 4,52%, portanto, ocorreu principalmente no final do ano. É o que mostra o gráfico abaixo.

EVOLUÇÃO POUCO UNIFORME

Inflação a cada trimestre em 2020. Alta pequena no primeiro trimestre, inflação negativa no segundo. No terceiro trimestre volta ao positivo e no quarto crescimento ainda maior

De onde veio o aumento

A aceleração inflacionária do segundo semestre teve como protagonistas os alimentos. O grupo foi responsável por mais da metade da inflação do ano, como mostra o gráfico abaixo, em que a soma da contribuição de todos os grupos resulta em 4,52%, a variação final do IPCA no ano.

ALIMENTOS NA FRENTE

Peso dos grupos de produtos na inflação de 2020. Mais da metade da inflação veio dos alimentos

A alta dos alimentos ocorreu principalmente por causa da valorização do dólar ao longo de 2020. A disparada da moeda deixou os produtos brasileiros mais atraentes no mercado externo. Com isso, as exportações de alimentos aumentaram, diminuindo a disponibilidade de bens para serem vendidos no Brasil, gerando um desequilíbrio do lado da oferta.

Ao mesmo tempo, o auxílio emergencial articulado pelo Congresso em março de 2020 garantiu a uma parcela significativa da população um poder de compra mínimo para enfrentar a crise da pandemia – aumentando a demanda por bens básicos. Milhões de brasileiros saíram da pobreza temporariamente por causa do benefício, o que ajudou a dar força para a demanda de alimentos. O programa foi encerrado em 31 de dezembro de 2020.

Em 2020, outro fator que ajudou a contribuir para o aumento de preços foi o fato de as pessoas terem comido menos em restaurantes e bares. Com uma parcela maior da população passando mais tempo em casa, o consumo de alimentos tipicamente caseiros cresceu.

OS ALIMENTOS QUE MAIS SUBIRAM

Os alimentos com maior alta em 2020. Em ordem de maior alta para menor: óleo de soja, arroz, batata, tomate, leite, frutas e carnes

O gráfico acima traz os alimentos que tiveram maior alta em seus preços em 2020. O óleo de soja lidera a lista, seguido pelo arroz – cujo pacote de cinco quilos, normalmente vendido a R$15, chegou a custar quase R$ 40 na virada de agosto para setembro. Completam a lista a batata, o tomate, o leite, as frutas e as carnes.

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