O estudo que averiguou sintomas persistentes da covid-19

Pesquisa de médicos chineses acompanhou pacientes de Wuhan por até nove meses após a infecção

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A revista britânica The Lancet publicou em 8 de janeiro de 2021 um estudo que averiguou a persistência de sintomas em pacientes de covid-19 meses depois da contaminação.

Conduzido por médicos chineses da província de Wuhan, primeiro epicentro da doença, a investigação acompanhou 1.733 pessoas que foram infectadas entre janeiro e maio de 2020.

Os pesquisadores descobriram que mais de três quartos dos participantes contavam com pelo menos um sintoma da doença ou relacionado a ela mesmo seis meses depois do contato inicial com o vírus.

A expectativa é de que o estudo ajude a comunidade médica a entender melhor os mecanismos de defesa natural do corpo que agem contra o vírus e consigam compreender as possibilidades de reinfecção.

Quais as principais descobertas

O estudo concluiu que 76% dos pacientes acompanhados tinham algum sintoma da covid-19 ou correlato a ela mesmo seis meses depois da infecção pelo vírus Sars-CoV-2. Entre eles, estão pessoas que tiveram casos leves ou graves da doença.

O cansaço e a fraqueza muscular foram os sintomas mais comuns, aparecendo em 63% dos voluntários. Na sequência, 26% dos participantes reportaram dificuldades para dormir. Por fim, ansiedade e depressão foram citadas por 23%.

Dos 1.733 voluntários, 390 (22%) tinham desenvolvido sintomas graves da covid-19 quando tiveram contato com o vírus. Nesse grupo, constatou-se que 56% tinham desenvolvido algum tipo de fraqueza pulmonar, e tiveram o funcionamento do órgão parcialmente comprometido.

Além disso, em 13%, houve comprometimento da função dos rins, causada pelo aumento de creatinina, substância usada clinicamente para avaliar a saúde do órgão. Ainda não está totalmente claro como a covid-19 influenciou os rins dos pacientes.

Os médicos de Wuhan também monitoraram os anticorpos dos voluntários e constataram que, em 5,4% deles, houve redução de pelo menos 52,4% no número de anticorpos que atuam contra agentes infecciosos. Nos outros participantes, houve apenas reduções leves ou nenhum tipo de alteração.

O surgimento do novo coronavírus, identificado pela primeira vez no fim de 2019, na China, é um acontecimento recente em termos científicos. Por isso, ainda não se sabe por quanto tempo tais sintomas podem persistir ou se podem se tornar sequelas permanentes.

Como o estudo foi feito

Os voluntários foram hospitalizados entre 7 de janeiro de 2020 e 29 de maio do mesmo ano, todos no hospital Jin Yan-tan, em Wuhan. A idade média deles era de 57 anos.

Os cientistas fizeram entrevistas e exames laboratoriais conforme os pacientes recebiam alta do hospital, registrando as descobertas. Posteriormente, entre 16 de junho e 19 de setembro, repetiram o procedimento para averiguar o que havia de persistente. Além das perguntas e dos testes, houve uma caminhada de seis minutos, para avaliar a respiração e o cansaço dos voluntários.

O estudo, contudo, tem limitações. Não foi possível determinar em que momento os sintomas surgiram ou se pioraram depois da infecção ou da alta, bem como se não havia uma predisposição dos pacientes em desenvolver alguns deles. As limitações foram descritas no artigo e, segundo os revisores científicos da Lancet, não comprometeram a integridade do estudo.

Quais os próximos passos

Há poucos estudos que analisam os efeitos do Sars-CoV-2 no médio ou longo prazo. O artigo publicado na The Lancet é o maior do tipo feito até o momento.

Segundo seus autores, as descobertas podem servir como um norte para pesquisas futuras que tentem estudar as consequências posteriores da infecção. Também pode ajudar pesquisas que buscam calcular as chances de reinfecção, dado a baixa significativa de anticorpos em alguns dos pacientes.

Os médicos de Wuhan recomendam, na conclusão do artigo, que sejam feitos novos estudos, acompanhando os voluntários por mais tempo, como tentativa de mensurar até quando os sintomas possam persistir.

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