Os bloqueios a Trump nas redes. E a saída do Parler do ar

Site sai do ar depois de ter seu app excluído de lojas virtuais sob acusação de não impedir que usuários difundam mensagens de incitação à violência

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    Três dos maiores gigantes da tecnologia – Apple, Google e Amazon – vêm tomando medidas desde sexta-feira (8) contra a Parler, rede social criada em 2008 que, em 2021, ganhou destaque e adesão inédita como novo pólo digital da extrema direita na sequência do bloqueio das contas do presidente dos EUA, Donald Trump, no Twitter, no Instagram e no Facebook.

    O aplicativo Parler foi excluído das lojas online da Apple e do Google, o que impede sua instalação em sistemas operacionais iOS e Android. A Amazon se negou a hospedar a rede social em seus servidores, o que impede o acesso ao site da empresa.

    Na prática, é impossível navegar pela rede até que seus criadores encontrem uma alternativa de hospedagem dos serviços, o que pode levar mais de uma semana. Mesmo usuários já cadastrados não conseguem acessar a rede. Os que não se inscreveram e não participam, ficam impedidos de baixar o aplicativo nas principais lojas virtuais.

    A justificativa é de que grupos extremistas vinham usando o Parler para planejar novos atos de violência, como a invasão do Capitólio, prédio do Congresso americano, por parte de apoiadores de Trump, em Washington, ocorrida em 6 de janeiro.

    Com a proximidade da posse do presidente eleito, Joe Biden, no dia 20 de janeiro, cresceu o temor de que novos atos violentos, como ataques terroristas e outras ações armadas, pudessem ser articulados por meio da nova rede.

    “O Parler não sustentou seu compromisso de moderar e remover conteúdo prejudicial ou danoso, encorajando violência e atividade ilegal, e não está de acordo com as regras da App Store", disse comunicado da Apple, que baniu o app no sábado (9). A Amazon disse ter “observado recentemente um aumento persistente de conteúdo violento”.

    O que é o Parler

    A plataforma foi criada em 2008 pelo programador americano John Matzer, com a promessa de que seria um ambiente sem censura, mais livre do que os concorrentes Twitter, Facebook e Instagram.

    Ela funciona como qualquer outra rede social semelhante, com páginas de perfis e feed de postagens, que comportam textos e imagens. De forma geral, o formato é muito semelhante ao do Twitter, mas com espaço para postagem comportando textos maiores.

    Ao abrir uma conta, o usuário é informado de que as regras da comunidade são regidas apenas pela Constituição americana, que garante ampla liberdade de expressão. A exceção é para conteúdos pornográficos, que são completamente proibidos.

    A primeira campanha para povoar o Parler foi feita em 2020, por seguidores de Trump que estavam insatisfeitos com os primeiros bloqueios de mensagens publicadas pelo presidente americano nas demais redes sociais.

    Esse movimento explodiu em janeiro de 2021, depois da invasão do Capitólio, quando Trump foi banido das grandes redes até o fim do mandato, em 20 de janeiro.

    A campanha pelo Parler no Brasil

    Ainda em julho de 2020, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, convidou seus seguidores no Twitter a segui-lo também no Parler, dizendo que a nova rede respeitava a liberdade de expressão de seus membros.

    Assim como Eduardo, Carlos Bolsonaro (Rep-RJ), que também é filho do presidente, além de vereador no Rio de Janeiro, abriu conta no Parler na mesma época. Da mesma forma, o escritor Olavo de Carvalho, figura influente na extrema direita brasileira, com acesso ao presidente e a seu entorno, convidou seus seguidores a migrarem para a nova rede.

    Em janeiro de 2021, depois do fechamento da conta de Trump nas redes sociais mais importantes, Bolsonaro, assim como seu chanceler, Ernesto Araújo, e o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, também se juntaram à campanha governista de promoção do aplicativo.

    A questão da liberdade de expressão

    Algumas organizações de direitos humanos, como a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis, em português), manifestaram preocupação com o fato de empresas privadas terem o poder de silenciar vozes no debate público – especialmente no que diz respeito à decisão do Facebook e do Twitter de bloquear a conta do presidente americano.

    A conta pessoal de Trump foi excluída do Twitter. Na conta que ele possui como presidente dos EUA, a postagem mais recente é de 23 de dezembro, pois está bloqueada; e qualquer nova conta que ele tente abrir será excluída. No Facebook, a conta pessoal de Trump segue visível, mas ele não pode postar até o fim do mandato.

    O argumento da ACLU é de que alguém como o “presidente Trump pode ainda usar a [a emissora conservadora] Fox News para se comunicar com seu público [quando perde a conta na rede social], mas outros, como os militantes do movimento negro e LGBTI, que têm sido censurados pelas empresas [que administram as] redes sociais, não terão esse luxo”.

    A posição da ACLU é um exemplo do debate de fundo que acompanha as últimas ações tomadas pelas big techs. A preocupação se estende para além da punição imposta a Trump, e mostra que esse antecedente pode, no futuro, justificar medidas semelhantes contra outros atores, sem nenhum escrutínio do poder público.

    Nos últimos anos, várias plataformas tentaram se estabelecer como alternativa para as grandes redes. Além do Parler, o Gab, fundado em 2016, também tentou se firmar como a nova casa da extrema direita, mas o projeto não ganhou corpo e permaneceu como apenas mais um espaço alternativo.

    Os idealizadores do Parler buscam formas de contornar o bloqueio, e dizem estimar em pelo menos sete dias o prazo para conseguir colocar de novo a rede no ar novamente, com um novo hospedeiro. Até lá, todo serviço fica indisponível.

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