O retorno de ‘Sex and the City’. E a importância da série

Produção da HBO vai ganhar 10 novos episódios em serviço de streaming. Na virada dos anos 1990 para os anos 2000, programa foi um marco, mas também alvo constante de críticas

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    “A história continua”. Foi assim que a atriz Sarah Jessica Parker oficializou, no domingo (10), o retorno de “Sex and the City”, especulado desde o último trimestre de 2020.

    A série, exibida originalmente entre 1998 e 2004, vai ganhar uma continuação, intitulada “And Just Like That”, que será disponibilizada no serviço de streaming HBO Max, em data ainda não anunciada.

    Ao todo, o retorno terá 10 episódios, que serão gravados no segundo trimestre de 2021 em Nova York. Três das quatro protagonistas retornarão a seus papéis: Parker como Carrie Bradshaw; Cynthia Nixon como Miranda Hobbes e Kristin Davis como Charlotte York.

    A única ausente será Kim Catrall, intérprete de Samantha Jones, por desentendimentos públicos que teve com Parker ao longo dos anos. Não se sabe se ou como a falta da atriz será explicada.

    “Sex and the City” mostrava as idas e vindas cotidianas e românticas da vida das quatro amigas, que estavam na casa dos 30 anos. “And Just Like That” vai seguir o mesmo modelo, mas mostrando o dilema das personagens aos 50 e poucos anos.

    A série original

    “Sex and the City” foi levemente baseada no livro de mesmo nome publicado pela jornalista Candace Bushnell em 1997. Bushnell trabalhava para o jornal The New York Observer e foi incumbida pela direção da empresa a assinar uma coluna de comportamento, na qual discorria sobre a própria vida romântica e cotidiana, bem como a de suas amigas. O título da coluna era “Sex and the City”, e parte de seus textos foram compilados no livro.

    Os direitos de adaptação da coletânea foram comprados pela HBO ainda em 1997, com o início da produção se dando logo na sequência, sob a batuta do produtor Darren Star.

    A série estreou em junho de 1998 e logo se tornou um sucesso, colocando a HBO, um canal relativamente pequeno até então, no radar da cultura pop americana.

    Ao todo, “Sex and the City” teve 94 episódios divididos em seis temporadas, além de gerar dois filmes e uma série derivada, focada na adolescência de Carrie.

    Durante seu período de exibição, o programa foi indicado a 50 prêmios Emmy, o Oscar da TV americana, ganhando sete troféus, incluindo Melhor Série Cômica e Melhor Atriz em Série Cômica (Parker).

    O legado e a importância de 'Sex and the City'

    “Sex and the City” estreou em um momento em que as séries de TV eram vistas como uma forma de arte menor, e não tinham o mesmo prestígio que têm atualmente, e a paisagem televisiva nos EUA era composta por comédias enlatadas e dramas procedurais, aqueles em que cada episódio conta uma história única, com uma fórmula que é repetida semanalmente nos outros capítulos.

    A série chegou com uma proposta atípica para a época, tantos em termos estruturais – já que apresentava um arco emocional para suas personagens, quebrado em episódios –, quanto em termos temáticos, já que, na reta final dos anos 1990, pouco se falava sobre a sexualidade e o empoderamento feminino na TV dos Estados Unidos.

    Normalmente, críticos e estudiosos da televisão colocam a série “Família Soprano” (1999), também da HBO, como o início da “Era de Ouro da TV”, muito por ter trazido aos lares americanos a figura do anti-herói – no caso, um chefe de uma máfia já em decadência. Para a crítica Emily Nussbaum, da revista New Yorker, “Sex and the City” também merece ser creditada por isso.

    “‘Sex and the City’ era brilhante e, em certos aspectos, radical. Além disso, deu origem à primeira anti-heroína da TV, Carrie Bradshaw”, afirmou, em texto de 2013. “Carrie e suas amigas eram mais esquisitas [que outras personagens femininas anteriores]. Elas eram irônicas, agressivas e, às vezes, assustadoras. Elas eram, ao mesmo tempo, reais e abstratas, emocionalmente complexas e com um fundo filosófico”, escreveu.

    As críticas de TV britânicas Emma Saunders e Lauren Turner, da BBC, concordam que “Sex and the City” foi fundamental para pavimentar o caminho de outras produções aplaudidas que vieram depois.

    “Sem ‘Sex and the City’, nós poderíamos nunca ter tido outras diversas séries”, escreveram em 2018, citando como exemplo “Girls” – também da HBO – e “Girlfriends”, do canal The CW.

    Segundo a crítica Britt Stephens, do site PopSugar, “Sex and the City” ainda é relevante, mesmo com as mudanças vistas pelo mundo no período.

    “O que é mais memorável sobre ‘Sex and the City’ – e aquilo que devemos continuar celebrando – é a forma como a série retrata a mulher solteira na sociedade”, escreveu no vigésimo aniversário do programa, em 2018. “As protagonistas são representadas não como solitárias ou quebradas, mas sim como indivíduos tridimensionais, com vidas completas, grandes carreiras e amizades incríveis”, acrescentou.

    As problematizações sobre a série

    Assim como quase todo produto cultural, “Sex and the City” foi alvo de problematizações tanto durante sua exibição original como após seu fim, de acordo com novos parâmetros sociais.

    À época da transmissão na HBO, surgiram críticas especialmente à possível influência negativa que a série teria em mulheres jovens. Para alguns críticos e analistas de discurso, o programa seria um desserviço ao empoderamento feminino e ao feminismo como um todo.

    “‘Sex and the City é para o feminismo o que o açúcar é para a saúde bucal”, escreveu a crítica Tanya Gold, do jornal britânico Daily Telegraph, em 2010. “A primeira pista está nos créditos de abertura. Carrie está de pé numa rua de Nova York com saia de balé, do tipo que crianças usam. Ela está vestida como uma criança. [...] Antes de qualquer diálogo chegar, você sabe que vai ver dois arquétipos que ‘Sex and the City’ ama: a mulher como um objeto sexual, e a mulher como uma criança”, acrescentou.

    De acordo com a crítica Joan Swirsky, em texto publicado em 2003 do site Newsmax, o sucesso de “Sex and the City” chegaria ao ponto de ser um sinal da morte do feminismo.

    “Uma série que traz mulheres de 30 e poucos anos mandando às mulheres, jovens e mais velhas, de que carreiras, dinheiro, beleza e inteligência não são nada comparado a fazer tudo que é possível para conquistar um homem”, escreveu.

    A série também é alvo de críticas pelo fato de que todas as suas protagonistas são mulheres brancas. “Era uma produção o mais branca possível”, disse ao jornal The Guardian, em 2018, Chelsea Fairless, estilista e fundadora de um site de fãs da série. “Eles não tinham nenhuma pessoa não branca como personagem regular”, afirmou.

    Questões financeiras também foram tema para críticas, visto que as quatro protagonistas gastavam grandes quantias frequentemente. “Carrie Bradshaw tinha uma fonte de renda secreta que nunca foi revelada?”, questionou a crítica Jessica Rae, do site The Things, em março de 2020. “Ela nunca conseguiria pagar um apartamento de US$ 9 milhões e suas infinitas idas a shoppings e restaurantes escrevendo apenas uma coluna de jornal por semana. É irrealista”, afirmou.

    A onda de retornos

    O retorno de “Sex and the City” é mais um em uma tendência que tem marcado a indústria do entretenimento desde meados da década de 2010. Tanto Hollywood como a indústria da TV perceberam que é mais lucrativo e mais fácil emplacar uma produção que traz uma marca já conhecida pelo público – caso de “Sex and the City” – do que investir em uma propriedade intelectual nova.

    “Arquivo X”, “Twin Peaks", "Will & Grace” e “Três é demais” são apenas alguns dos sucessos televisivos de outrora que retornaram após anos fora do ar. É uma lógica que tem dado certo, já que os números de audiência mostram que esses projetos – mesmo quando não agradam o público e a crítica – ainda movimentam milhões de dólares anualmente.

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