Qual o papel de projeções econômicas no mundo pandêmico

Boa parte das incertezas de 2020 deve persistir em 2021. O ‘Nexo’ conversou com economistas sobre como isso muda a elaboração e a leitura de estimativas sobre a economia

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    O Banco Mundial publicou em 5 de janeiro o relatório “Perspectivas Econômicas Globais”. No documento, o órgão internacional estima o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global para 2021 e faz previsões para diversas regiões e países.

    A expectativa do Banco Mundial é que a economia do Brasil cresça 3% até o fim do ano. Para o mundo, o órgão espera uma alta de 4%. Nenhum dos números deve ser suficiente para compensar as quedas registradas em 2020, ano marcado pela eclosão da pandemia do novo coronavírus.

    É costumeiro que projeções do tipo sejam publicadas no início de um ano novo. É um período em que agentes de mercado e membros do setor público mostram suas expectativas para algumas das principais variáveis econômicas, como PIB, inflação, juros, desemprego e outros.

    Menos comum, no entanto, é o cenário de 2021, marcado por uma série de incertezas relacionadas à pandemia. Abaixo, o Nexo explica o papel dessas projeções e o que muda num ano tão difícil de prever.

    Como são feitas as projeções

    Diferentes tipos de entidades e indivíduos fazem projeções sobre a economia. Alguns desses exercícios são divulgados publicamente, como a estimativa do Banco Mundial para o PIB em 2021. Outros servem exclusivamente para uso interno, como no caso de um fundo que toma decisões de investimento com base em suas expectativas para o futuro.

    Entre as projeções que costumam ter maior repercussão nos veículos de imprensa a cada ano estão aquelas feitas por:

    • Órgãos internacionais, como Banco Mundial e FMI (Fundo Monetário Internacional)
    • Governos, que também fazem projeções sobre as economias de seus países
    • Acadêmicos e grupos de pesquisa de universidades e organizações como o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério da Economia)
    • Instituições privadas, como consultorias e grandes grupos financeiros

    No Brasil, uma das fontes mais importantes de projeções macroeconômicas é o relatório Focus, publicado pelo Banco Central a cada semana. O Focus é um documento que consolida projeções de economistas de bancos, corretoras, agências de câmbio e outros participantes do mercado financeiro e do setor empresarial. Toda semana esses agentes participam das pesquisas, preenchendo suas projeções para crescimento, inflação, câmbio, dívida pública, balança comercial e até a taxa Selic, que é definida pelo próprio Banco Central.

    Os agentes do mercado calculam com frequência esses dados, que são usados na avaliação de risco e retorno de seus investimentos, e servem como parâmetros em suas decisões. O Focus é, assim, um termômetro do mercado e um resumo de onde estão as expectativas de economistas do setor privado em um determinado momento.

    Essas projeções são elaboradas usando modelos econométricos, que são ferramentas estatísticas comumente usadas na área econômica. Esses cálculos consideram diferentes elementos, que vão desde outros indicadores até o histórico da variável que está sendo projetada. A elaboração desses modelos conta inevitavelmente com certo grau de arbitrariedade, uma vez que é necessário escolher quais variáveis entrarão na conta e o peso que cada uma delas terá sobre o cálculo.

    Por exemplo, uma projeção para o PIB de um país em determinado ano pode considerar o crescimento econômico de anos anteriores e incluir também números de consumo, desemprego, investimentos e outros indicadores. A partir desse modelo, chega-se a uma estimativa numérica para o que ocorrerá no futuro – o que está, evidentemente, sujeito a incertezas e riscos.

    A pandemia e as projeções econômicas em 2020

    No início de 2020, a perspectiva para a economia brasileira no ano era, no geral, positiva. As projeções para o PIB flutuavam entre uma alta de 2% e 2,5% – é o que foi divulgado pelo relatório Focus, por órgãos internacionais, pelo governo brasileiro e por algumas das instituições de pesquisa mais importantes do país.

    Mas a pandemia do novo coronavírus – decretada em março pela OMS (Organização Mundial da Saúde) – mudou o cenário brasileiro e global ao atingir fortemente a atividade econômica. As restrições à circulação e o medo do contágio fizeram com que as pessoas passassem mais tempo em casa, paralisando parcialmente o fluxo de dinheiro na economia.

    A pandemia praticamente anulou a validade das projeções macroeconômicas feitas no início do ano – e, ainda por cima, dificultou novos exercícios de previsão. O choque foi tamanho que as estimativas feitas entre março e junho foram bastante divergentes. Para a economia brasileira, o tombo projetado nessa época ficava entre 4% e 10%, a depender da instituição. Não estava claro se a pandemia seria duradoura, nem quanto tempo demoraria para que vacinas eficazes fossem desenvolvidas – nem se isso de fato aconteceria. Tampouco se sabia qual seria o tamanho da ação do governo para conter a crise sanitária e econômica.

    Ao longo do ano, as expectativas foram recalibradas diversas vezes – o que é normal que ocorra conforme novos dados vão sendo divulgados. Indicadores econômicos podem demorar dias, semanas ou até meses para serem medidos e publicados. O PIB brasileiro de 2020, por exemplo, só será divulgado no início de março de 2021, o que é normal no Brasil.

    Conforme as projeções foram sendo ajustadas ao longo de 2020, as perspectivas foram convergindo. No final de 2020, já com uma maior quantidade de dados disponíveis e um cenário menos incerto – apesar de ainda muito imprevisível –, as projeções para o PIB giraram em torno de uma queda de 4,5% ou 5%.

    Erros em projeções feitas no início de ano não são uma exclusividade de 2020. Mas o primeiro ano da pandemia deve marcar a maior diferença entre previsão e realidade nas últimas décadas no Brasil: se o PIB realmente cair 4,5%, uma projeção de crescimento de 2% terá errado por 6,5 pontos percentuais. Até então, o maior erro registrado pelo relatório Focus ocorreu em 2015, quando se esperava um crescimento de 0,5%, mas houve queda de 3,5% no PIB – uma discrepância de 4 pontos percentuais.

    As incertezas sobre 2021

    No início de 2021, dez meses após o início da pandemia, os fatores de incerteza no mundo ainda são muitos. Vários países passam por segundas ondas de contágio pelo novo coronavírus, como os EUA e diversos países europeus. Além disso, novas variantes mais transmissíveis do vírus preocupações sobre uma possível aceleração no ritmo de disseminação. Mesmo a vacinação, que já começou em alguns países, ocorre a passos lentos em boa parte deles – o mais avançado sendo Israel.

    No Brasil, as incertezas relacionadas ao coronavírus também são muitas. Não se sabe qual será o tamanho e a duração do novo avanço da covid-19 no país, que se aprofundou em novembro de 2020. O governo também não divulgou prazos claros e datas para a vacinação contra o vírus, que deve ser fundamental para definir o ritmo de recuperação da economia brasileira.

    Também na área econômica, há dúvidas sobre o andamento das reformas estruturais prometidas pelo governo federal. O presidente Jair Bolsonaro disse em 5 de janeiro que o país está “quebrado” – o que não é verdade – e que ele “não consegue fazer nada”.

    Além disso, a economia ainda começa a sentir os efeitos do fim do auxílio emergencial, que foi articulado pelo Congresso Nacional em março de 2020 e se tornou a principal política de apoio econômico à população na crise. O programa, que foi encerrado em 31 de dezembro de 2020, foi central para evitar uma recessão ainda mais profunda no Brasil durante a pandemia.

    Duas análises sobre as projeções econômicas

    O Nexo conversou com economistas para entender o papel cumprido pelas projeções econômicas em meio ao cenário cheio de incertezas.

    • Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria
    • Claudio Considera, pesquisador associado do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas)

    Qual a utilidade das projeções macroeconômicas? Para que servem elas e por que fazemos essas projeções?

    Silvio Campos Neto São fundamentais como balizadoras de tomadas de decisões. É claro que vivemos em um mundo de incertezas e o futuro, obviamente, é sempre incerto. Mas é importante ter pelo menos algumas referências em termos de perspectivas para indicadores econômicos. Na ausência dessas projeções, não há nenhum sinal para se apoiar na hora de tomar certas decisões.

    Estamos falando de decisões das mais diversas: empresas que querem investir; governos que têm que tomar suas decisões em relação às suas políticas econômicas; as próprias pessoas também tomam decisões no dia a dia em relação ao consumo e às escolhas no geral. Uma ideia de perspectivas na economia – que são transmitidas pelas projeções – é algo fundamental para que se tenha uma base minimamente sólida para a tomada de decisões, ainda que a gente saiba que todas essas projeções são sujeitas a imprecisões.

    Claudio Considera As projeções servem para mostrar mais ou menos qual a direção que a economia está seguindo. São modelos estatísticos econométricos que olham para o passado e projetam o futuro – e às vezes alguns desses modelos têm informações sobre os números mais atuais. De fato, você consegue criar relações entre as variáveis de tal forma a fazer uma projeção da variável que pretende estimar.

    As projeções nunca acertam 100%. Acertar 100% é pura sorte. As boas projeções erram por pouco. Quanto menos elas errarem, mais isso vai mostrar a qualidade da projeção e da equipe que faz as projeções.

    Evidentemente que a situação da pandemia criou um fator totalmente extra, que causou (e vai causar) distúrbios grandes nos esforços de projeção, porque é uma alteração completamente fora do padrão. O que os modelos e as pessoas que trabalham com os modelos buscam fazer é isolar esses impactos que vêm de fora do padrão, fora do que seria o normal da economia.

    O que torna uma projeção macroeconômica crível? Como separamos as projeções dos palpites?

    Silvio Campos Neto Isso é sempre difícil de saber. Até porque só quem é mais especializado é que consegue, olhando os fundamentos, ter uma percepção sobre o que faz mais sentido e o que faz menos sentido. Mas o ponto é entender a fundamentação por trás desse número.

    Simplesmente colocar um número não diz muita coisa. O mais importante é saber qual a base de análise, a base metodológica, as premissas e hipóteses por trás desses números. Essa história construída para resultar num número é que dá uma ideia do que seria mais bem fundamentado do que meras indicações numéricas que não têm uma boa base de fundamentos.

    Claudio Considera Primeiro, deve-se considerar a instituição que faz a projeção e o histórico dela. É importante ter um nome nessa área. Se a instituição é crível, nunca haverá um mero palpite.

    O FMI, por exemplo, faz projeções para o mundo inteiro. Ele erra, mas é uma instituição crível, do ponto de vista de que suas projeções estão dentro dos parâmetros daquilo que se espera a respeito da economia. Mas ninguém pretende acertar em cheio quando faz uma projeção. O objetivo sempre é estar mais próximo da realidade.

    Hoje [começo de 2021], por exemplo, projetar 2022 é algo muito arriscado. Muita coisa pode acontecer até lá – há menos certeza e menor possibilidade de acerto. Mas a projeção diz mais ou menos qual é a direção e o que pode vir a acontecer em 2022, mediante determinadas suposições que são feitas. Parte-se do princípio que se certas coisas ocorrerem, a economia pode crescer um certo tanto. Há vários aspectos envolvidos nas projeções de longo prazo.

    Qual é a utilidade de projeções em momentos tão incertos como este de pandemia? O cenário altera de alguma forma a maneira pela qual devemos ler essas projeções?

    Silvio Campos Neto A utilidade em si não muda. O que muda é reconhecer que as projeções têm um risco maior de erro. É claro que quando você realiza uma análise e uma projeção em um determinado momento, você leva em conta as informações disponíveis até então. Trata-se da expectativa que se tem com base nas informações que se sabem até agora.

    Mas é lógico que, olhando para frente, as hipóteses e os fatos mudam. A pandemia é talvez o exemplo mais claro em relação a isso. Na virada de 2019 para 2020, ninguém tinha a questão do coronavírus nos seus cenários. Pelo impacto disso em todas as economias, é normal que os erros tenham sido gigantescos, porque foi um evento sem precedentes e totalmente imprevisível.

    As projeções continuam importantes e válidas, cumprindo seu papel de dar um norte para as tomadas de decisões. Mas reconhecendo que, em um contexto de maior incerteza e imprevisibilidade, o risco de eventuais erros cresce. Então é claro que é sempre melhor ter um pouco mais de cautela na hora de analisar e tomar decisões importantes em cima de projeções em momentos como este. A maneira de ler [os números] muda neste sentido. As projeções estão mais sujeitas a imprevisibilidades e erros. É evidente que nesse contexto de maior incerteza e maiores riscos, as projeções perdem um pouco o próprio peso e importância, justamente em virtude da maior imprevisibilidade.

    Claudio Considera Em 2020, houve um problema gravíssimo na economia. Com a chegada da pandemia, buscou-se interferir nos modelos de tal maneira que se respeitasse esse fato novo, que é um distúrbio muito grande numa série temporal. Esses modelos são feitos com séries de mais de 50 anos de informação, então esse tipo de acontecimento bagunça muito o que é a padronização estatística desses modelos.

    Os responsáveis pelas projeções fazem suas leituras com cuidado, levando em consideração a questão da pandemia. Agora incluem a possibilidade de segunda onda, vacinação e outras coisas. Mas muitas coisas você não consegue colocar números – cabe um bom senso nesse tipo de avaliação.

    Mesmo se não houver tanta certeza matemática, a projeção vai servir para mostrar uma certa direção que a economia está seguindo. Pode-se dizer que a economia brasileira vai crescer em 2021 em relação a 2020. A pergunta que se faz é: vai crescer o suficiente para recuperar toda a perda de 2020? Os modelos de projeção de crescimento estão dizendo que não. Mas nada em economia é definitivo.

    Pode ser que o governo resolva fazer algum tipo de programa que favoreça o crescimento – como, por exemplo, um programa de obras públicas. Tem a questão do teto de gastos, mas pode ser que o governo faça algum tipo de política econômica que permita à economia crescer mais do que está previsto. E os modelos vão se adaptando, vão captando e incorporando as novas informações que estavam fora do que se pensava anteriormente. E então fazem novas projeções.

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