As dificuldades dos vestibulandos na pandemia

Maioria dos estudantes que estão desde março sem pisar na escola se queixam da desigualdade no acesso à internet e da piora da qualidade do ensino

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No domingo (10) acontece a primeira fase da Fuvest, vestibular que define o ingresso na USP (Universidade de São Paulo) e que deve levar os cerca de 130 mil inscritos para 148 locais de prova. O concurso ocorre na esteira do exame da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que na quarta-feira (6) realizou o primeiro grande vestibular presencial desde o início da pandemia.

Apesar de ter tido aumento no número de inscrições, como todos os concorridos vestibulares previstos para os dois primeiros meses de 2021, o exame da Unicamp também teve um aumento no número de abstenções.

José Alves de Freitas Neto, diretor da Comvest (Comissão Permanente para os Vestibulares), afirmou em entrevista coletiva que a pandemia foi a principal causa para a alta abstenção, mas que ela foi abaixo dos 20% que a organização esperava. “As pessoas podem ter se sentido não tão preparadas para prestar o vestibular em relação à perspectiva que tinham na data da inscrição, em julho”, disse.

A situação dos vestibulandos

Neste ano, os estudantes do país sofreram com a indefinição e a falta de perspectiva. Muitas escolas e alunos demoraram para se adequar ao formato de ensino à distância. Além disso, cerca de 21% dos discentes das redes públicas não possuem acesso à internet, segundo levantamento feito pela Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação), o que impossibilita que eles mantenham os estudos.

Estudantes, pais e organizações estudantis questionam a necessidade de vestibulares presenciais neste momento em que o Brasil atingiu 200 mil mortos pelo novo coronavírus e que o número de casos da doença está em alta. A aglomeração promovida pelas provas pode contribuir para o contágio. Além disso, a irregularidade na qualidade e na promoção do ensino em 2020 prejudicou parte dos vestibulandos.

Os problemas enfrentados pelos estudantes

Desigualdade de acesso

A pandemia forçou o ensino à distância e, com ele, a evasão de muitos estudantes. Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pelo Enem, 20% dos inscritos no exame em 2019 não tinham acesso à internet em casa e 50% não possuíam computador.

Piora na qualidade do ensino

De acordo com uma pesquisa da Abed (Associação Brasileira de Educação à Distância) realizada entre agosto e setembro de 2020, 72,6% dos estudantes afirmaram que, em comparação com as aulas presenciais, a qualidade do estudo remoto é pior.

Indefinição sobre o futuro

As instituições responsáveis por organizar os maiores vestibulares do país mantiveram em suspenso por muito tempo as datas das provas — a maioria acabou sendo adiada —, o que aumentou nos formandos de 2020 a sensação de incerteza sobre o futuro.

Convivência com a família

Outro problema enfrentado pelos estudantes na pandemia foi a dificuldade de estudar com a família toda em casa. Segundo o levantamento da Abed, 67% dos estudantes tiveram problemas para estabelecer e organizar uma rotina de estudos e 10,8% deles não possuem um dispositivo próprio para acessar as aulas e precisam compartilhá-lo com outros integrantes da casa, o que afeta a aprendizagem.

A organização da primeira prova

Os organizadores do vestibular da Unicamp, realizado na quarta (6) e na quinta-feira (7), afirmaram que o conteúdo ensinado no último ano do ensino médio não seria cobrado para não prejudicar os alunos que sofreram com o fechamento das escolas. Além disso, reduziram as leituras obrigatórias de 12 para sete livros e cortaram as questões interdisciplinares.

A declaração não aplacou a insegurança dos estudantes. Na soma dos dois dias de prova da Unicamp, a abstenção ficou em 13,8%, uma alta de 66,8% em relação à primeira fase do vestibular de 2020, quando 8,27% dos inscritos faltaram.

Além disso, temas do último ano escolar, como genética e geometria analítica, apareceram no exame. “A prova estava mais simples, mas não muito diferente de anos anteriores. Era muito difícil que conseguissem evitar os temas do terceiro ano”, afirmou o coordenador geral do grupo Etapa, Edmilson Motta, ao jornal Folha de S.Paulo.

Além de aumentar o número de salas de aplicação do exame, que passou de 1.502, no último vestibular, para 3.381 neste ano, a organização também dividiu os mais de 77 mil inscritos em dois grupos, duplicando os dias de realização da prova. A medida foi tomada para prevenir aglomerações que pudessem contribuir para o contágio do novo coronavírus.

Os protocolos de segurança como a promoção do distanciamento entre os alunos e o uso de máscara durante todo o tempo de realização da prova foram elogiados pelos inscritos. As maiores reclamações entre os que fizeram a prova no primeiro dia foi sobre aglomerações nas entradas dos prédios e sobre a lotação no transporte público.

A partir desses relatos, a Unicamp decidiu antecipar ainda mais a liberação dos portões na quinta-feira (7) e eles foram abertos uma hora e quinze minutos antes do início da prova.

O adiamento do exame nacional

Com quase seis milhões de inscritos, o Enem é o maior concurso do país e será aplicado nos dias 17, 24 e 31 de janeiro e 7 de fevereiro. O exame estava previsto para acontecer em novembro do ano passado, mas foi adiado por causa da pandemia.

Em junho, o Inep fez uma enquete em que pedia que os inscritos escolhessem uma data entre três opções para o adiamento da avaliação. A mais votada foi maio de 2021, a mais tardia entre todas. Segundo Alexandre Lopes, que é presidente do Inep, a escolha foi descartada porque entrava em conflito com o calendário das instituições que utilizam as notas do Enem para preencher vagas.

A pressão por um novo adiamento da prova voltou a ser feita na segunda-feira (4), depois que o Inep negou o pedido de Jerônimo Rodrigues, secretário de Educação da Bahia, para que a prova fosse postergada. Nas redes sociais surgiu então uma nova campanha de políticos, pais, estudantes e organizações pedindo uma nova prorrogação da data do Enem por culpa do aumento no número de casos de covid-19 no país.

Lopes, no entanto, afirmou em entrevista ao G1 na terça-feira (5) que não iria adiar novamente o exame. “A ideia nunca foi fazer a prova só depois que acabasse a pandemia. Não existia nem perspectiva de vacinação naquela época, quando a gente fixou a data da prova em janeiro. O que a gente fez foi se preparar para fazer a prova em ambiente de pandemia, e estamos preparados.”

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