O que são remédios panvirais. E por que é preciso investir neles

Virologistas defendem o financiamento público ao desenvolvimento de medicamentos que consigam combater diferentes vírus. Processo é desafiador

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Criadas as vacinas para o novo coronavírus, as perguntas que muitos cientistas já estão fazendo são: qual será o próximo vírus a ameaçar o mundo com uma pandemia? Como se preparar para detê-lo?

Num mundo cada vez mais interconectado, quanto mais as cidades avançam sobre áreas de floresta, mais complexa e volátil fica essa resposta. Os vírus passarão de animais para pessoas, e de pessoas para pessoas, com muito mais rapidez. Diante da incerteza, desde o início do milênio virologistas vêm fazendo alertas sobre a necessidade de governos financiarem o desenvolvimento de medicamentos e vacinas de amplo espectro — potentes contra diferentes tipos de vírus (e de cepas), panvirais.

“Precisamos de plataformas de vacinas que possam ser rapidamente modificadas para proteção contra novas ameaças emergentes e precisamos de medicamentos antivirais de amplo espectro eficazes contra classes inteiras de vírus”. Foi o que afirmou, por exemplo, o conhecido Anthony Fauci, diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, nos Estados Unidos, em 2016, quando o mundo vivia a epidemia do zika vírus.

No entanto, depois de ter enfrentado as epidemias de sars, ebola, mers e zika, o mundo chegou à pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) ainda despreparado.

Atualmente, na ausência de um medicamento do tipo, laboratórios privados e universidades apostam no reposicionamento de fármacos, isto é, nos testes para se descobrir se um remédio já existente, por acaso, combate o vírus da covid-19 também.

A dificuldade tecnológica

O desenvolvimento de antivirais de amplo espectro é mais difícil do que o de antibióticos de mesmo perfil. Isso porque os vírus, micro-organismos mais primitivos, precisam entrar nas células do organismo infectado para terem vida e se replicarem – as bactérias, como células inteiras que são, não precisam disso.

Os medicamentos antivirais, portanto, podem ser tóxicos para o próprio paciente, se funcionam a partir do bloqueio de uma função celular para impedir a sobrevivência do vírus. É por isso que pesquisadores tentam também desenvolver fármacos para atacar o vírus antes de ele entrar nas células humanas ou, quando a invasão já ocorreu, inibir a replicação viral sem comprometer o funcionamento celular.

A microbiologista Natalia Pasternak, pesquisadora da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, destrincha um dos mecanismos desse último tipo no jornal O Globo. Ela explica que um sistema celular presente em bactérias é capaz de reconhecer um vírus que já as infectou anteriormente e, por meio de enzimas, destrói a codificação genética desse vírus. Estudado inicialmente para terapias de edição de genoma, o mecanismo tem potencial para ser usado como base de medicamentos antivirais.

Segundo Pasternak, essa possibilidade já vem sendo estudada por pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e da Universidade de Harvard desde 2019, com excelentes resultados nos testes laboratoriais (anteriores aos testes clínicos, com participação de seres humanos). Diante da pandemia de covid-19, pesquisadores da Universidade de Stanford buscam criar um antiviral de amplo espectro, usando como alvo sequências de RNA (material genético) presentes em várias espécies de coronavírus.

Outro obstáculo no desenvolvimento de antivirais de amplo espectro é a própria dificuldade na identificação dos vírus mais ameaçadores à espécie humana. Milhares deles se restringem atualmente à infecção de outros animais, mas podem sofrer mutações que os tornam perigosos para pessoas, como aconteceu com o novo coronavírus.

1,6 milhão

é a estimativa do número de vírus potencialmente zoonóticos no mundo, dos quais menos de 1% foi identificado

Diante do avanço dos desequilíbrios ambientais, epidemiologistas preveem que esse processo acontecerá com mais rapidez.

Os obstáculos financeiros

Virologistas afirmam que, apesar dos alertas já há quase duas décadas, governos têm sido negligentes em financiarem o desenvolvimento de medicamentos e vacinas “de amplo espectro”.

“Um [remédio do tipo] teria cuidado do surto [de coronavírus] na China antes de se espalhar. E a única razão pela qual não o fizemos é porque não havia apoio financeiro suficiente”, disse Vincent Racaniello, professor da Universidade de Columbia, nos EUA, no podcast “This Week in Virology”.

As fontes de financiamento

FARMACÊUTICAS

Segundo o virologista Vincent Racaniello, o investimento em medicamentos panvirais frequentemente não interessa aos laboratórios privados porque o tratamento com eles costuma ser curto, o que torna a demanda pelo produto menor do que a de outros remédios, como os prescritos para doenças crônicas, por exemplo.

GOVERNOS

Os gestores públicos também não se veem compelidos a financiarem a pesquisa dos panvirais, algo que costuma exigir anos de investimento até resultar em ganhos tangíveis. Além disso, em termos eleitorais, medidas preventivas não costumam ser tão valorizadas quanto iniciativas emergenciais, quando a necessidade da atuação estatal fica mais evidente para grande parte da população.

A experiência da pandemia do novo coronavírus, porém, pode mudar a percepção de prioridades. Com a alta letalidade da covid-19 e a necessidade das quarentenas em massa para conter o contágio, governos do mundo todo tiveram de injetar enorme volume de dinheiro na economia, para prevenir uma crise ainda mais grave.

US$ 12 trilhões

é o tamanho da ajuda financeira que governos do mundo todo tiveram de mobilizar em 2020, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional)

Investimentos em projetos científicos de alcance global também tiveram sua importância reconhecida novamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo Donald Trump, num contexto de cortes de diversas iniciativas de cooperação internacional em saúde, deixou expirar em setembro de 2019 o programa Predict, destinado a pesquisas de vigilância biológica em diversos países. Foram autorizadas apenas prorrogações que somaram um ano, para a finalização dos trabalhos do programa.

No contexto da pandemia do novo coronavírus, porém, o governo americano lançou em outubro de 2020 outro programa para a prevenção de epidemias, o Stop Spillover, e 11 centros de pesquisa sobre doenças infecciosas emergentes. Membros da administração afirmam que os projetos já estavam planejados e não foram uma mera substituição de nomes do Predict, instituído em 2009, na gestão Barack Obama.

Joe Biden, que toma posse como presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2021, promete retomar o Predict, que realizava um trabalho de campo mais abrangente do que as iniciativas em curso. “Como presidente, vou priorizar investimentos sustentados de longo prazo [...]”, disse Biden. “[A pandemia do novo coronavírus] não precisava ser tão ruim. Essa é a maior tragédia de todas”.

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