A atitude do Brasil diante de 200 mil mortes pela covid-19

País alcançou marca em meio a nova onda de casos. Ao ‘Nexo’ seis profissionais contam como se sentem em relação ao número — e o que gostariam que a sociedade brasileira entendesse sobre a tragédia

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Segundo em número de vítimas do novo coronavírus no mundo, o Brasil ultrapassou oficialmente na quinta-feira (7) o patamar de 200 mil mortes causadas pela covid-19. Enquanto 50 países já haviam dado início à vacinação de grupos prioritários, o país ainda corria para tentar registrar um imunizante para proteger sua população mais vulnerável. A marca foi alcançada em meio a uma nova onda de casos de infecção.

Cerca de dez meses após a OMS (Organização Mundial de Saúde) ter declarado estado de pandemia, todos os 5.570 municípios brasileiros registraram casos da doença, atingindo quase 8 milhões de pessoas em todo o país, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Especialistas apontam que, devido à subnotificação, os números, na verdade, são bem maiores. Desde o final de 2020, filas de espera para vagas em hospitais voltaram a se formar, e cidades como Manaus retomaram o uso de câmaras frigoríficas para armazenar corpos.

Para epidemiologistas, o relaxamento das medidas de isolamento social e a realização de eleições e festas de fim de ano, com aglomerações em todo o Brasil, tendem a agravar a crise sanitária no início de 2021.

Em resposta, o governo federal, que vem sendo criticado por sua inércia, apresentou em dezembro um plano de vacinação sem data para começar. O documento previa uma quantidade de doses insuficiente para imunizar todos os 210 milhões de brasileiros em 2021. Países como o Canadá iniciaram a vacinação em dezembro, fecharam acordos com sete laboratórios distintos e garantiram seis doses por pessoa.

Para especialistas, ainda é cedo para falar em pós-pandemia, e as consequências da crise sanitária sem precedentes que o país atravessa devem durar por anos. Em 2021, o desafio deverá ser ainda maior, com o risco de o Brasil voltar a registrar outras 200 mil mortes se medidas mais enérgicas não forem tomadas.

Para discutir o atual estágio da pandemia, o Nexo perguntou a seis profissionais envolvidos com o tema como eles se sentem com o patamar de mortes registrado no país e o que eles gostariam que a sociedade brasileira entendesse sobre a tragédia.

‘O impacto se estende para quem fica. E vai perdurar’

Luiza Holst

imunologista e doutoranda pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia

“É muito angustiante que o país tenha alcançado esse número tão grande de mortes por uma doença que a gente poderia ter minimizado com ações de saúde pública eficientes e uma articulação melhor das ações dos municípios. A gente viu o exemplo de outros países, mesmo que menores, mas alguns como a China ou o Canadá também tiveram sucesso no controle da doença. Quantas famílias perderam pessoas queridas, quantos estão ficando com traumas pós-internação ou pela perda? O impacto na saúde pública não é só nas UTIs lotadas, mas também nas pessoas que ficam.

Meu pai fez 60 anos, era engenheiro aposentado, e foi internado para fazer uma cirurgia do coração. A gente não tinha como adiar muito, pois ele tinha uma obstrução arterial grave, com risco de infartar em casa. Ele precisou fazer uma cirurgia de revascularização e pegou a covid durante a internação, mas chegou a vir para casa. A gente pensou que os sintomas eram do pós-operatório, ninguém suspeitou. Em casa, ele passou covid para a minha mãe e para mim. Tive poucos sintomas, fiquei cansada e perdi o olfato. Minha mãe também foi internada, mas já voltou para casa. Mesmo antes do meu pai ficar doente e falecer, quis muito lutar contra a desinformação.

O que falta às pessoas entenderem, talvez, é que cada uma das 200 mil vítimas da covid tinham planos, sonhos e vontade de continuar a vida. Eram pessoas que queriam viver e aproveitar a própria família. O impacto não se limita simplesmente à morte, ele se expande para quem fica. Como médica, já vinha acompanhando pacientes que perderam as famílias, mas como alguém que perdeu um pai eu vejo muito isso.

Queria que as pessoas entendessem que o impacto disso tudo não vai acabar agora. É um impacto que vai perdurar por muito tempo. A gente vai ver o sistema de saúde afogado de pessoas precisando de atendimento por muitos anos ainda. São pessoas que ficam com sequelas, com sintomas de longo prazo e com problemas de saúde mental. Por mais que a gente fique otimista em relação à vacina, e eu mesma estou, acho que a vacinação vai trazer uma segurança principalmente para os grupos mais vulneráveis, mas a gente precisa ainda segurar por um tempo antes de poder voltar à normalidade.”

‘Se mensagens são ambíguas, cada um faz o que quer’

Cláudio Maierovitch

médico, especialista em políticas públicas e gestão governamental da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) de Brasília e ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)

“O Brasil não precisava ter chegado a esse número enorme de mortos. Poderíamos ter contido a epidemia num nível muito mais baixo, mas infelizmente nada foi feito para que isso acontecesse. Houve iniciativas isoladas de governadores e prefeitos, não sustentáveis na medida em que o próprio governo federal se opôs à restrição de mobilidade, isolamento e atividades que poderiam ter diminuído a transmissão do vírus. Isso pra mim só demonstra o descaso e a falta de importância e de relevância que se tem dado à vida humana. É uma catástrofe pela qual o Brasil passa e continua passando.

Não é esperado que a população, espontaneamente, assuma uma atitude de defesa ou um comportamento seguro se o próprio governo não só não dá recomendações claras em relação a isso como, muitas vezes, na figura do presidente da República, dá exemplos contrários. Desde o início, além de minimizar o quanto pôde a gravidade da situação, o presidente se recusou a usar máscaras, provocou aglomerações, disse que a economia não podia parar, que todo mundo tinha que trabalhar e ir para a rua. Isso continua acontecendo. E agora ele tem desprezado a importância da vacina. Não pode haver um desserviço maior do que esse neste momento em que estamos.

Não adianta especialistas, comunicadores, pessoas que têm um pouco mais de informação dizerem coisas diferentes, porque o governo está na contramão, e não existe a menor possibilidade de interferência no curso de uma epidemia se não houver um grande engajamento do governo, inclusive chamando a sociedade para se engajar. Quando as mensagens são ambíguas, cada pessoa faz aquilo que lhe convém. Se quero ir à balada e tem alguém que me diz que eu posso ir — e não é qualquer alguém, é alguém numa posição de liderança e autoridade —, vou tomar isso como verdade. Ele incentiva o comportamento desleixado e arriscado das pessoas e desincentiva medidas de prevenção que seriam necessárias.”

‘Não sentir medo é negação que nos afasta da realidade’

Rosana Teresa Onocko Campos

médica psicanalista e professora do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

“Somos o segundo país em número de mortes, e a gente tem visto o tempo inteiro que a figura do presidente é muito nociva. É um desprezo pela dor das pessoas, uma falta de competência para poder organizar os trabalhos que deveriam estar sendo feitos. A gente poderia ter um número menor de mortos, uma testagem maior e organizar uma campanha de vacinação para valer. O que a gente vê é tudo o contrário.

Sinto duas tristezas simultâneas: uma de me colocar no lugar das famílias. Se pensarmos que cada uma dessas 200 mil pessoas têm três ou quatro amigos ou familiares, estamos falando praticamente de quase 1 milhão de pessoas enlutadas. Por outro lado, sinto tristeza como profissional da saúde pública ao ver que uma grande obra que a gente vinha construindo no país, que é o SUS, está sendo detonada.

O problema dos números é a banalização e a naturalização. Houve campanhas para dizer quem eram essas pessoas. Não é um número apenas, mas o amor de alguém. Tentaram humanizar os números, mas tem também nas pessoas um mecanismo que Freud demonstrou no século passado que é o da negação. Quando você tem uma realidade que não gosta muito, isso te deixa muito aflito. Sobretudo em casos como o que a gente está vivendo. Quando o governo central não dá respostas, a população em tese se sente muito desamparada. É uma resposta ‘normal’ de todos nós humanos negar a ameaça para conseguir sobreviver. Só que essa negação tem consequências muito ruins, porque leva, por exemplo, a aglomerações e a festas clandestinas.

Pode ser difícil lidar com o medo excessivo, ele pode levar a transtornos, mas o medo é uma defesa que nos leva a nos cuidar. Não sentir medo é uma forma de negação, e com a negação a gente se afasta da realidade. Essa sensação de desamparo e defesa leva a um mecanismo psíquico que acaba fazendo junção ao negacionismo que vem do governo federal, quando o presidente diz que é uma ‘gripezinha’ e que não tem nada que possa fazer. E isso é uma mentira.”

‘O Brasil não se coloca em luto, mas se coloca em festa’

Dário Frederico Pasche

epidemiologista, professor no curso de Saúde Coletiva da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e membro da Comissão de Política, Planejamento e Gestão da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva)

“Os números são estarrecedores. Eles vão crescendo e parece que a gente vai se acostumando, como se essa morte fosse esperada e inevitável. O Brasil é um país que não consegue se colocar em luto; pelo contrário, coloca-se em festa. De fato, há uma negação da morte pelas autoridades, sobretudo pelo presidente. É muito triste. Estamos falando de quase 1,5 milhão de pessoas atingidas diretamente pelas 200 mil mortes. É um completo desprezo coletivo por essa tragédia.

Se a gente considerar que o Brasil tem pouco mais de 2,3% da população mundial e acumula mais de 11% das mortes por covid-19, de fato temos um número excessivo. Não fomos capazes, como nação, de tomar as medidas adequadas para evitar isso. O que teria a população brasileira de tão singular que pudesse explicar esse número excessivo de mortes? Nada, a não ser uma falta de uma agenda concreta e séria para o enfrentamento da epidemia.

Se as pessoas não estão se enlutando e levando em conta o que está sendo colocado em jogo, que é a própria vida, e ainda estão em festa, é porque a comunicação desenvolvida produziu isso. Não é um fenômeno restrito a um determinado setor. É uma forma de produção de informação e de cultura que levou a isso, e essa posição é majoritária no país hoje. Ou o problema atinge você, e você o sente, ou tem uma ação frouxa em relação ao que está sendo colocado. Isso foi produzido deliberadamente. Sobretudo pelos governantes. Não só o presidente, mas o estafe todo em torno, os ministros e o ministro da Saúde. Em outros países a gente não tem isso. Nas mensagens de final de ano, você não viu nenhum governador ou prefeito, salvo alguma exceção, dando seu pesar sincero e pedindo para as pessoas se comportarem.

O que acho que vai acontecer em 2021 é o recrudescimento desse cenário. Ter a vacina, em alguma medida, vai trazer certa expectativa. Mas não temos um plano para vacinas, não temos insumos, não temos sequer a vacina, e as pessoas acham que serão vacinadas. E acham que a vacina é desinfectante, mas não é. Ela evita que você desenvolva a doença, mas não evita a transmissão do vírus. Essa falta de entendimento básico vai gerar em cascata uma reação de relaxamento.”

‘Não há como acomodar uma demanda que não acaba’

Patrícia Machado Mello

médica intensivista e presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional da AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

“Uma das maiores preocupações, para mim, é que poderemos ter os próximos 200 mil mortos em 2021. E vamos ter que lidar com esses doentes graves e, ao mesmo tempo, com outras doenças. Os pacientes vão continuar tendo infarto, AVC [acidente vascular cerebral], traumatismo, cirurgias complexas. Nós não temos uma rede de saúde que consiga tratar de tudo isso ao mesmo tempo.

Então, vejo com grande preocupação, porque não sei como a gente vai conseguir ampliar o sistema de saúde o suficiente para acomodar toda essa demanda numa pandemia que não acabou e não tem perspectiva de acabar no curto e no médio prazo e ainda continuar a atender todas as demais demandas num sistema de saúde que já era reconhecidamente frágil na assistência dos mais graves, em especial para aqueles que não têm plano de saúde.

A imensa maioria do povo brasileiro não tem acesso à saúde com plano. É cerca de 85% da população. É realmente uma calamidade pública, um caos sem precedentes e inimaginável. O que mais me abala, ao ver esse número de 200 mil, é saber que em 2021 nós podemos ter outro tanto desses.”

‘É preciso esclarecimento para uma proteção coletiva’

Beatriz Jardim

pesquisadora, epidemiologista e doutoranda pelo Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

“Na análise que publicamos em agosto na Revista Ciência & Saúde Coletiva, identificamos no período de março a maio 33,5% de óbitos a mais em relação ao que havia sido notificado como causado pelo Sars-CoV-2. Portanto, esse quantitativo de 200 mil mortes pode ser ainda maior, considerando que existem casos ainda não notificados, falsos negativos e casos sem testagem, além de óbitos por outras causas que ficaram sem assistência no tempo devido à necessidade de priorizar o atendimento aos casos de covid-19.

O país vem fracassando nas medidas de proteção da população e o excesso de óbitos atinge principalmente as populações mais vulneráveis, acometendo também a população jovem e economicamente ativa, contrariando a ideia de que estão morrendo apenas aqueles que já morreriam de qualquer forma. Falta um plano nacional de enfrentamento, que seja responsável, respaldado por evidências científicas para o controle da doença, incluindo a garantia do acesso à imunização da população, que é dever do Estado e direito de todo cidadão brasileiro.

Esse número significa pelo menos uma vida em cada mil brasileiros. São famílias que perderam pelo menos um avô, uma mãe, um pai, um irmão, uma irmã. São mortes que poderiam ter sido evitadas. É uma doença respiratória. A população precisa receber orientações adequadas e meios para viabilizar o uso de máscaras, distanciamento social e higiene. Precisa ter acesso à imunização. Aqueles que não podem exercer suas atividades remotamente devem ter proteção adequada, o que inclui manter aqueles que podem exercer suas atividades remotamente dentro de casa. Isso protege a população que precisa sair para tratamentos como quimioterapia e diálise, assim como os profissionais de saúde que atuam na assistência. Isso contribui para diminuir o número de infectados, desafogar o sistema de saúde e diminuir as vidas perdidas.

É mais economicamente inteligente pensar em estratégias de controle da doença do que achar que o aumento de infectados vai levar à tal “imunidade de rebanho”. Isso não existe. No caso da covid, essa imunidade requer a maior cobertura vacinal possível da população. Então, o acesso à imunização não inclui apenas a oferta da vacina, a população também precisa ser esclarecida sobre a necessidade de se vacinar para promover a proteção coletiva. Isso só poderá ser alcançado pelo SUS, que precisa ser reconhecido e fortalecido por meio de investimento adequado. Sem o SUS, estaríamos muito pior.”

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