A volta dos hospitais de campanha no repique da pandemia 

Capitais como Belém, Teresina e Fortaleza decidiram retomar atividades, enquanto São Paulo e Rio descartaram a opção. Unidades provisórias foram marcadas por atrasos, falta de planejamento e irregularidades no início da crise

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    O aumento do número de casos de covid-19 vem levando estados e municípios a considerarem a reabertura ou a manutenção dos hospitais de campanha, estruturas provisórias construídas no início da pandemia para lidar com o alto número de pacientes com a doença.

    O atendimento de pessoas com covid-19 foi retomado em unidades de campanha desde dezembro em capitais como Fortaleza, Teresina e Belém. A reabertura de hospitais fechados também vem ocorrendo em cidades do interior e da região metropolitana de estados como São Paulo, Minas Gerais e Ceará.

    Os hospitais de campanha, um dos principais instrumentos para enfrentar a pandemia durante seu auge, foram desativados em grande parte do país no segundo semestre de 2020, diante de um breve recuo da doença e da redução da demanda por leitos hospitalares para o tratamento da covid-19.

    A pandemia, no entanto, voltou a crescer no fim de 2020, com o aumento da transmissão do novo coronavírus e o afrouxamento das medidas de prevenção e controle, como o distanciamento social. Na quinta-feira (7), o país tinha 7,9 milhões de casos de covid-19 registrados e havia batido a marca de 200 mil mortes, segundo dados do Ministério da Saúde.

    O retorno dos hospitais construídos no início da crise não deve ocorrer em todo o país. Na cidade de São Paulo, a Secretaria de Saúde anunciou que não deve reabrir as unidades, pois desde o início da pandemia ampliou a rede hospitalar municipal.

    A prefeitura do Rio anunciou na quarta-feira (6) o fechamento do último hospital de campanha ativo. No lugar, o novo prefeito da cidade, Eduardo Paes (DEM), afirmou que deve reabrir leitos desativados da rede pública, respondendo a uma demanda feita desde o início da pandemia.

    O que é um hospital de campanha

    Os hospitais de campanha são estruturas provisórias construídas em lugares como estádios de futebol ou centros de convenções em caráter emergencial para dar conta da demanda de atendimentos em situações em que o sistema de saúde fica sobrecarregado, como no caso da pandemia da covid-19.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que os governos invistam em hospitais de campanha em situações atípicas de crise sanitária. A explicação é simples: quando as redes de atendimento estão no limite, coloca-se em risco a vida de pessoas que precisam de cuidados de saúde, inclusive os não relacionados à emergência.

    33,7 mil

    leitos de UTI (unidades de terapia intensiva) estavam disponíveis na rede pública em julho de 2020, com a ajuda dos hospitais temporários, segundo o jornal O Estado de S. Paulo; antes, eram 22,8 mil

    A pandemia de covid-19 levou países como Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Itália, Chile, Somália e Guatemala a construírem hospitais provisórios no primeiro semestre de 2020. No Brasil, eles foram erguidos em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Fortaleza. Outras cidades, como Porto Alegre, optaram por não investir nessas estruturas.

    Inaugurado em abril, um mês após a declaração da pandemia pela OMS, o hospital de campanha do Pacaembu, em São Paulo, usou 200 leitos para atender a casos leves e moderados de coronavírus, por exemplo. Enquanto ficou aberto, o lugar recebeu 1.515 pacientes, dos quais 405 utilizaram a estrutura de terapia intensiva.

    Seis meses após o início da crise, grande parte dos hospitais provisórios do país já estava fechada. Em maio, o Ministério da Saúde passou a orientar que essas estruturas fossem construídas apenas em último caso, pois os hospitais não deixam um legado útil para a sociedade no longo prazo.

    Como foi a atuação na pandemia

    Os hospitais de campanha foram uma aposta de estados e municípios para desafogar os sistemas de saúde, e em alguns lugares eles tiveram bons resultados, contribuindo para evitar mortes por covid-19. A construção dessas estruturas, no entanto, ficou também marcada por atrasos, falta de planejamento e irregularidades.

    Os hospitais de cidades como Belo Horizonte e Manaus foram entregues depois do pico da epidemia em cada uma das cidades no primeiro semestre de 2020, o que levou à subutilização de sua estrutura. O hospital Expominas, construído na capital mineira, por exemplo, não atendeu nenhum paciente, apesar de ter custado R$ 2 milhões. O hospital de Manaus foi fechado em junho, e hoje a prefeitura negocia reativá-lo, diante de um novo colapso na saúde do município.

    A implantação das unidades passou por dificuldades como a falta de equipamentos hospitalares no início da pandemia – como respiradores mecânicos, que enfrentaram alta demanda global no primeiro semestre de 2020 –, e obstáculos para encontrar profissionais capacitados para trabalhar em UTIs. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, parte dos hospitais prometidos sequer foi entregue.

    “Os hospitais foram essenciais onde teve mais agilidade, onde eles foram construídos mais rapidamente, ou onde a epidemia chegou mais tarde e houve a sincronicidade entre a construção” e o pico da crise, disse ao Nexo Carolina Coutinho, epidemiologista e pesquisadora na FGV (Fundação Getulio Vargas). “Em outros lugares, quando eles ficaram prontos, a maioria dos casos [de covid-19] já havia sido registrada.”

    Em lugares como o estado do Rio de Janeiro, recaíram suspeitas de fraudes e de desvios de recursos públicos. A Procuradoria-Geral da República identificou um suposto esquema de favorecimento da organização social Iabas para a construção das estruturas hospitalares, a partir do recebimento de propina.

    Por essas suspeitas, o governador Wilson Witzel (PSC) foi afastado do cargo por uma decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Ele também foi denunciado formalmente e é alvo de um processo de impeachment. Ele nega as acusações e se diz perseguido politicamente pelo governo Jair Bolsonaro. O Iabas também rejeita as acusações.

    R$ 256 milhões

    é a quantia já recebida pelo Iabas pela construção e gestão dos hospitais de campanha no Rio de Janeiro, em contratos que previam o desembolso de R$ 770 milhões

    Os hospitais de campanha ficaram a cargo dos estados e municípios durante a pandemia de coronavírus. O governo federal construiu uma unidade, o Hospital de Campanha de Águas Lindas de Goiás, no entorno do Distrito Federal. Ele foi inaugurado em junho e desativado em outubro, após receber 771 pacientes com covid-19.

    Qual a discussão sobre a reabertura

    A reabertura dos hospitais de campanha vem sendo defendida por ser um instrumento para enfrentar a segunda onda da covid-19 no país. Mas também recebe críticas porque essas unidades não são permanentes e exigem gastos financeiros elevados com construção e contratações.

    “O principal problema dos hospitais de campanha é que eles não são definitivos”, disse a epidemiologista Carolina Coutinho ao Nexo. “É um investimento grande para uma coisa que não fica de legado, inclusive para a atender a outras demandas [para tratamento de doenças] dos municípios, independentemente da covid-19.”

    A pesquisadora afirma que cada município ou estado deve decidir pela reabertura após avaliar os indicadores locais da epidemia, como a cobertura de leitos na região, o tamanho da população atendida pela rede de saúde e o aumento, se houver, da procura por unidades básicas de saúde por pessoas com suspeita de covid-19.

    Ela comparou a volta de hospitais de campanha com a criação de leitos definitivos no SUS (Sistema Único de Saúde). “Existem locais em que a criação de leitos definitivos é melhor, porque ali já há demanda por eles. Você utiliza os leitos na pandemia e eles ficam como legado”, disse. “Mas podem existir municípios sem tanta demanda assim, onde a construção de leitos definitivos acaba não sendo ideal.”

    A pesquisadora defende que, com o aumento do número de casos de covid-19, os governos invistam em medidas de prevenção, como o distanciamento social e o uso de máscaras. Ela também afirma que é preciso reforçar a comunicação de risco com a população. “É importante que as pessoas tenham clareza de que a epidemia não acabou, o vírus ainda está aí, as pessoas ainda estão adoecendo e a gente precisa continuar se protegendo”, afirmou ao Nexo.

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