Qual a lógica de aumentar o intervalo entre doses da vacina

Estratégia foi adotada pelo Reino Unido e está sendo estudada por Alemanha, Dinamarca e pelo governo de São Paulo

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O Reino Unido anunciou, em 31 de dezembro de 2020, que alterou sua estratégia de vacinação contra a covid-19, adiando a aplicação da segunda dose do imunizante.

A ideia é a seguinte: como há escassez de vacinas, adiar a segunda dose permitiria que um número maior de pessoas recebesse a primeira, acelerando o processo até a imunização em massa.

Na segunda-feira (4), surgiram informações de que a Alemanha e a Dinamarca estavam pensando em fazer o mesmo. Já na terça (5), o jornal Folha de S.Paulo afirmou, com base em relatos de bastidores, que o governo estadual de São Paulo, de João Doria (PSDB), está estudando a possibilidade de também adiar a aplicação da segunda dose da Coronavac, vacina do laboratório chinês Sinovac que será produzida pelo Instituto Butantan.

A base científica da estratégia

Nenhuma vacina existente – para todas as doenças e não só em relação à covid-19 – é 100% efetiva. Se um imunizante tem 70% de eficácia, isso significa que, a cada 10 pessoas, sete estarão protegidas. Além disso, há grupos de pessoas que, não podem ser imunizadas contra a covid-19 por enquanto, caso de grávidas e crianças.

Porém, há na imunologia um fenômeno conhecido como imunidade coletiva, ou de rebanho. É a ideia de que quando a maior parte da população está protegida contra uma doença contagiosa, aquelas pessoas que não puderam ser vacinadas ou que não sentiram os efeitos protetivos da aplicação acabam ficando protegidas por tabela, já que o avanço do agente infeccioso é freado.

É com base nessa ideia que o Reino Unido decidiu adiar a segunda dose da vacina. De acordo com o Comitê de Vacinação e Imunização do país, postergar a segunda aplicação permitiria que mais pessoas recebessem a primeira e, consequentemente, a imunidade de rebanho seria atingida mais rapidamente, acelerando o processo de retomada de normalidade na vida dos britânicos.

Segundo o Comitê, a segunda dose das duas vacinas que estão sendo aplicadas no Reino Unido (da americana Pfizer com a alemã BioNTech e a desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca) não importa tanto para a criação da imunidade na pessoa que recebe o imunizante. A segunda dose seria necessária apenas para fazer a imunidade durar mais tempo.

Por conta disso, o país poderia aplicar a segunda dose dos imunizantes 12 semanas depois da primeira, em vez das quatro semanas originalmente planejadas, segundo os especialistas do governo.

Na segunda-feira (4), Alemanha e Dinamarca pediram aos seus ministérios da Saúde que estudassem a possibilidade de espaçar as doses da vacina da Pfizer, que está sendo aplicada no país.

Em São Paulo, de acordo com a Folha, a ideia ainda é uma hipótese preliminar e sujeita a estudos, sem nenhuma decisão concreta por enquanto.

Os dados de eficácia da Coronavac, que o governo pretende aplicar nos moradores do estado a partir de 25 de janeiro, devem ser divulgados na quinta-feira (7). A previsão é que o pedido de uso emergencial à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), necessário para a aprovação de um imunizante no país, seja feito até sexta-feira (8).

Uma questão que não é consenso

A estratégia de espaçar as doses da vacina não é consenso na comunidade médica. A maioria dos imunizantes em desenvolvimento contra a covid-19 usa a aplicação dupla.

O argumento dos críticos à decisão é de que os imunizantes foram desenvolvidos rapidamente e não houve tempo hábil para que as farmacêuticas e seus cientistas estudassem com precisão todos os efeitos de se adiar a aplicação da segunda dose.

As incertezas são maiores que as respostas, mas o principal temor é de que o espaçamento das doses faça com que a proteção da primeira aplicação se enfraqueça no meio tempo.

A Pfizer emitiu um comunicado na terça-feira (5) afirmando que não há dados que garantam que a proteção se sustente por um período prolongado de tempo sem a administração de uma segunda dose. AstraZeneca e Sinovac não tinham se manifestado sobre a questão até a tarde de 6 de janeiro.

Não sou a favor disso”, afirmou à CNN americana o médico Anthony Fauci, imunologista que está liderando a resposta dos Estados Unidos à pandemia. “Você pode até argumentar sobre o espaçamento, mas vamos continuar fazendo o que estamos fazendo.”

“Isso é bom, é seguir o que já sabemos com os resultados dos testes, evitando extrapolações e o desconhecido”, escreveu no Twitter Eric Topol, pesquisador do Centro de Pesquisa Scripps, nos EUA, em resposta à declaração de Fauci.

“[Espaçar as doses] é fazer algo que simplesmente não foi aquilo que foi testado”, disse ao New York Times em 1º de janeiro Natalie Dean, pesquisadora de bioestatística na Universidade da Flórida.

O posicionamento da OMS

Como o Reino Unido foi o único país até o momento a de fato decidir espaçar as doses da vacina, a OMS (Organização Mundial da Saúde) se limitou a se posicionar sobre a estratégia britânica.

Na terça-feira (5), o Grupo Estratégico de Especialistas da organização se manifestou durante uma entrevista coletiva com a imprensa. Joachim Hombach, diretor do grupo, sugeriu um espaçamento de seis semanas entre as doses, e não de 12, como quer o Reino Unido.

Isso porque os testes das vacinas da Pfizer e de Oxford aplicaram a segunda dose nos voluntários em tempos diferentes, mas o espaço máximo entre elas sem perda de eficácia foi de 42 dias – seis semanas.

Segundo Kate O’Brien, integrante do Grupo Estratégico, houve um debate intenso e acalorado acerca do assunto e de qual seria o posicionamento institucional da OMS.

“Ninguém esperava que fosse ser fácil, e estamos começando a cruzar em alguns buracos na pista, então precisaremos fazer alguns ajustes”, afirmou O’Brien.

Para Hombach, adaptações para executar a logística de vacinação serão necessárias, e devem ser avaliadas caso a caso. “Nós reconhecemos que alguns países vão precisar ser mais flexíveis na administração da segunda dose”, disse Hombach. “Mas é importante ressaltar que há poucos dados empíricos sobre isso.

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