Por que a ivermectina não é remédio contra covid-19

Medicamento sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus faz parte do 'tratamento precoce' inexistente indicado pelo presidente Jair Bolsonaro

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Enquanto o Brasil discute o início das campanhas de vacinação contra covid-19 em 2021, o presidente Jair Bolsonaro faz campanha nas redes sociais por um “tratamento precoce” contra a doença.

Depois de passar meses exaltando a cloroquina e a hidroxicloroquina – substâncias que não geram efeito algum contra a doença – o chefe do Executivo tem adotado a ivermectina, usada para o tratamento de infecções por parasitas, como sua nova “pílula mágica”. Assim como os outros dois medicamentos, ela não tem eficácia comprovada contra o vírus.

Nesta terça-feira (5), Bolsonaro baseou a indicação do medicamento em dados que mostram o baixo número de casos e de óbitos em países da África Subsaariana, como Quênia, Etiópia e Congo.

Desde julho de 2020, circulam notícias falsas de que os países da região subsaariana da África teriam controlado a pandemia com o uso de ivermectina.

Tais afirmações, à época, foram desmentidas por informações que podiam ser encontradas facilmente nos sites dos próprios governos desses países.

“Ainda não existe um tratamento contra a covid-19”, diz o site do Instituto de Saúde Pública da Etiópia. “O que existe são estratégias para o alívio dos sintomas”, continua o texto.

“Não existe tratamento específico para a doença causada pelo novo coronavírus”, afirma o site dedicado à covid feito pelo governo de Angola.

“Não existe medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19”, diz o site do governo de Moçambique.

Na verdade, os números de casos e óbitos na região se devem à subnotificação e ao baixo número de testes realizados nesses países, e não a um suposto controle da pandemia com o uso de medicamentos.

Com a subnotificação e a escassez de exames, é natural que o número oficial seja baixo, já que a maior parte dos casos acaba nunca sendo descoberta e registrada.

A ivermectina e a covid

A ivermectina foi descoberta em 1975 e passou a ser usada para o tratamento de infecções por parasitas em 1981. Casos de piolhos, sarnas e lombrigas, por exemplo, podem ser tratados pelo uso da substância.

O medicamento surgiu no contexto da pandemia de covid-19 em abril de 2020. Na ocasião, cientistas da Universidade de Melbourne, na Austrália, realizaram testes in vitro – ou seja, em laboratório – para estudar os efeitos da ivermectina no novo coronavírus.

Naqueles testes, a substância foi efetiva contra o vírus. Porém, a realidade do laboratório é diferente da realidade cotidiana e logo constatou-se que, para que o medicamento fosse efetivo em um paciente de covid-19, a dose necessária seria 17 vezes maior do que a máxima diária permitida, o que tornaria a ivermectina, na prática, um veneno.

Entre os efeitos colaterais da ivermectina estão tontura, vertigem, tremor, febre, dores abdominais, dores de cabeça, coceira e queda brusca na pressão sanguínea.

A insistência presidencial no tratamento precoce

Não é de hoje que Jair Bolsonaro insiste em tentar encontrar uma forma de tratamento rápido contra a covid-19, mesmo diante de evidências que mostram que, até o momento, isso não existe.

Durante o ano de 2020, o presidente fez, em diversos momentos, campanha para a cloroquina e a hidroxicloroquina, substâncias usadas para o tratamento de doenças como malária e lúpus, e que não demonstraram eficácia contra o novo coronavírus.

A tentativa de emplacar a ivermectina vem em um momento em que o país se encontra atrasado em relação ao resto do mundo nas estratégias para a vacinação da população – enquanto vizinhos na América Latina já estão imunizando seus cidadãos, o Brasil sequer definiu uma data para o início da aplicação.

Além da insistência em achar uma “pílula mágica”, Bolsonaro segue reforçando a ideia de que a vacinação não deve ser obrigatória, e sim uma questão de escolha individual – algo que vai na contramão do que diz a ciência.

“Qualquer fala, principalmente do representante do país, que remete ao suposto não benefício da vacinação é um imenso desserviço”, disse ao Nexo a infectologia Raquel Stucchi, vice-diretora do Hospital de Clínicas da Unicamp, em setembro de 2020.

“Causa confusão sobre a segurança e benefício de vacinas e pode abalar a confiança da população em vacinas como um todo, não somente para a covid-19”, corroborou Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, que falou ao Nexo na mesma ocasião.

Bolsonaro também levantou dúvidas, em mais de uma ocasião, sobre a eficácia e a segurança dos imunizantes. Em uma das ocasiões – que virou meme posteriormente – o presidente disse que “[se você tomar] e virar um jacaré, o problema é seu”, se referindo às cláusulas contratuais da farmacêutica americana Pfizer que isentam a empresa de responsabilidade em casos de efeitos colaterais.

É consenso na ciência de que se vacinar vai além de uma arbitrariedade individual. “A vacina não é uma ferramenta individual: eu me vacino, eu me protejo. É uma responsabilidade coletiva”, disse ao Nexo, em outubro de 2020, Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

Não existe vacina 100% eficaz: existe a chance de uma pessoa se vacinar e não ficar protegida contra o vírus. Se uma vacina tem 95% de eficácia, significa que 5% da população não obtém a imunidade contra a doença.

Ainda assim, mesmo os desprotegidos estão seguros, por não encontrar quem passe a doença para eles. A circulação do vírus se interrompe e, por isso, uma ampla cobertura gera imunidade coletiva. Por isso a importância de grande parte do público-alvo ser imunizado.

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