O imunizante indiano incluído no plano nacional de vacinação

Governo federal diz ter intenção de comprar vacina do laboratório Bharat Biotech, que usa mesma tecnologia da chinesa Coronavac. Associação de clínicas particulares tenta viabilizar compra

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O Ministério da Saúde anunciou em 16 de dezembro um plano operacional para a vacinação contra a covid-19 em todo o país. Além das vacinas já adquiridas em acordo com a Universidade de Oxford e com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca e dos imunizantes previstos no consórcio Covax Facility, do qual o Brasil faz parte, o governo incluiu no plano outras seis potenciais vacinas que poderão ser compradas. Entre elas está a Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech.

A vacina é pouco conhecida no país por não estar sendo testada em voluntários brasileiros como as demais (caso da Pfizer/BioNTech, da Janssen, que pertence à Johnson & Johnson, e da Coronavac, desenvolvida por Sinovac/Butantan) ou discutida em possíveis acordos com governos e empresas brasileiros (como a da Moderna, que integra o consórcio Covax Facility, e a Sputnik V, da Gamaleya, negociada com a farmacêutica União Química e com o governo do Paraná).

Segundo o ministério, já foi firmado um memorando de entendimento com o laboratório indiano e as demais empresas da lista. Esse memorando não é vinculante e expõe apenas a “intenção de acordo, podendo sofrer alterações de cronograma e quantitativos a serem disponibilizados”, segundo a pasta.

O governo afirma ter pedido informações de preços, estimativa e cronograma de disponibilização de doses e dados científicos dos ensaios clínicos para esses laboratórios. “Para a programação logística, faz-se necessário retorno das empresas sobre o quantitativo de doses disponíveis e cronograma de entrega”, afirma trecho do plano.

No domingo (3), a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas, que reúne representantes de clínicas particulares, informou que busca a importação de 5 milhões de doses da Covaxin.

O Ministério da Saúde vem sendo criticado por não ter se antecipado e fechado acordos com vários laboratórios, ainda nas fases de testes, para garantir o número necessário de doses assim que as vacinas se mostrarem seguras e eficazes. A inércia da pasta deixou o país com poucas opções, o que deve atrasar campanhas de imunização da população. O Brasil é o terceiro país com mais casos e segundo em número de mortes por covid-19 no mundo.

A história do laboratório

A Bharat Biotech foi fundada pelo casal Krishna e Suchitra Ella em 1996, quando os dois retornaram à Índia após completarem estudos de pós-graduação nos Estados Unidos. Krishna Ella, o presidente da empresa, tem formação em ciências agrícolas, e Suchitra Ella, a diretora administrativa adjunta, em ciências sociais econômicas.

Em 2002, a Bharat foi a primeira empresa indiana a receber recursos da Fundação Bill e Melinda Gates (instituição filantrópica criada por Bill Gates, fundador e ex-presidente da Microsoft, e por sua esposa, Melinda) para desenvolver novas vacinas para a malária e o rotavírus. Fruto desse projeto, a Rotavac, considerada a vacina contra o rotavírus com o menor custo no mundo, foi lançada em 2015.

Em 2016, o laboratório foi o primeiro no mundo a patentear uma vacina contra o zika vírus. Ao todo, seu portfólio conta com 65 patentes. A Bharat tem 1.600 funcionários, produz 16 vacinas (contra a febre tifoide, H1N1, hepatite B, entre outras) e desenvolve outras 11. Até 2020, já havia vendido mais de 9 bilhões de doses no mundo e se tornado um dos maiores fornecedores globais de vacinas antirrábicas.

Com a pandemia do novo coronavírus, a empresa começou a desenvolver três vacinas contra a covid-19, cada uma com uma plataforma tecnológica diferente. Duas das iniciativas estão sendo realizadas em colaboração com as universidades de Wisconsin-Madison e Thomas Jefferson, ambas nos Estados Unidos.

Uma delas, batizada de CoroFlu, tenta adaptar uma vacina contra a gripe — que já existe e é aplicada em dose única na forma de um spray nasal — usando o material genético do novo coronavírus. A previsão da empresa era começar os ensaios clínicos em dezembro.

Como é a Covaxin

Também conhecida como BBV152, a Covaxin está desde outubro na fase 3 dos ensaios clínicos, a última etapa de testes em humanos. Caso ela se mostre segura e eficaz, poderá obter registro definitivo para o uso na população. No domingo (3), o laboratório recebeu da agência reguladora indiana autorização para o uso emergencial do imunizante.

As pesquisas, realizadas em parceria com o Conselho Indiano de Pesquisas Médicas e o Instituto Nacional de Virologia da Índia, estão sendo feitas com 25.800 voluntários, em 25 centros médicos do país, que é um dos maiores fornecedores de medicamentos no mundo e responsável pela produção de 60% das vacinas comercializadas.

A Índia tem o segundo maior número de infectados pelo novo coronavírus no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos — o Brasil é o terceiro em registros de casos e o segundo com mais mortes. A previsão é que os resultados preliminares dos testes da fase 3 sejam apresentados ainda no primeiro trimestre de 2021 e que a vacina comece a ser distribuída à população em junho.

Assim como a Coronavac (vacina do laboratório chinês Sinovac adquirida pelo Instituto Butantan para ser produzida em São Paulo e também incluída no plano do governo federal entre os imunizantes que o ministério tem intenção de compra), a Covaxin usa o próprio coronavírus inativado em sua formulação. Ele não causa a doença, mas estimula os mecanismos de defesa e uma resposta do sistema imune.

Ao ser testada em macacos e roedores, a vacina criou proteção contra a infecção. Os testes em humanos começaram ainda em junho. Segundo o laboratório, de 85% a 90% dos voluntários produziram anticorpos e não apresentaram graves reações adversas nas fases 1 e 2. Apenas um caso sério foi reportado na fase 1, mas ele não estava relacionado com a vacina, segundo a empresa.

O imunizante precisa de duas doses, aplicadas num intervalo de 28 dias entre cada uma delas, e pode ser armazenada a temperaturas que variam de 2º C a 8º C.

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