Prevenção, vacina e contágio: o que esperar de 2021 no Brasil

País começa ano com aumento de casos, variante mais transmissível do vírus e sem data para início da imunização. Ao ‘Nexo’, o professor Paulo Lotufo fala sobre as perspectivas para os próximos meses.

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    No fim de 2020, o Brasil voltou a superar a marca de mil mortes diárias por covid-19. Em 29 de dezembro, foram 1.111 óbitos confirmados, segundo o Ministério da Saúde. No dia seguinte, outras 1.194 mortes.

    O país ficou mais próximo da trágica marca de 200 mil vidas perdidas para a doença, que deve ser atingida no início de 2021. Se o número de casos de covid-19 confirmados ao longo de 2020 fosse uma cidade, seria a segunda maior do Brasil, com 7,6 milhões de habitantes.

    Os números da pandemia voltaram a piorar no país a partir de novembro – a marca de mil mortes diárias era comum em agosto e setembro. Nos últimos meses de 2020, hospitais ficaram novamente lotados e índices de ocupação de leitos de UTI mais uma vez chegaram a níveis preocupantes. Estados e prefeituras decidiram endurecer as regras de distanciamento social na tentativa de frear a retomada da covid-19.

    Pelo Brasil, os números mostram um quadro em deterioração. O estado do Rio de Janeiro ultrapassou a marca dos 25 mil mortos pela doença em 29 de dezembro. Fosse um país, ficaria em 17º lugar, à frente de nações como Turquia e Indonésia. A taxa de ocupação de UTI na capital fluminense passou dos 90% em 19 de dezembro.

    Em Manaus, o recorde da pandemia de internações diárias por covid-19 foi batido na terça-feira (29). Um total de 112 novas hospitalizações foi registrado na capital do Amazonas, mesmo levando em conta o período entre abril e maio, quando a rede de saúde entrou em colapso.

    Manaus vem demonstrando a fragilidade do conceito da imunidade de rebanho, que defende o controle da doença a partir de um certo número de pessoas infectadas na população. Um estudo mostrou que 75% da população têm anticorpos da covid-19. Mesmo assim, a doença voltou a crescer na cidade em dezembro.

    Apesar do agravamento da crise, o país viveu um fim de ano marcado por eventos com aglomerações de centenas de pessoas, incluindo pancadões, raves clandestinas a festas de celebridades, na contramão das recomendações de autoridades sanitárias e, algumas vezes, da lei local. Além disso, o período registrou lotação em ruas comerciais, shoppings, aeroportos e rodoviárias.

    Descaso e espera pela vacina

    O crescimento de casos e mortes no final de 2020, impulsionado pelo crescente descumprimento dos protocolos e o relaxamento das medidas de restrição, apontam para um início de 2021 sombrio. É a previsão de especialistas que participaram do debate online “E Agora, Brasil?”, realizado em 10 de dezembro.

    “Teremos o janeiro mais triste da nossa história porque falhamos em trazer uma consciência cívica da gravidade do que estamos vivendo”, disse a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Margareth Dalcolmo no evento.

    “Em 2021 teremos que tomar os mesmos cuidados: andar de máscara, evitar aglomerações, tudo igual. Qualquer outra mensagem é falsa, não está de acordo com a realidade”, afirmou o médico Drauzio Varella na mesma ocasião.

    O início da vacinação no Brasil ainda é uma incógnita. Em 29 de dezembro, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, declarou que "na melhor das hipóteses", a vacinação pode se iniciar em 20 de janeiro de 2021. Na hipótese mais demorada, começaria a partir de 10 de fevereiro. O governo também enfrenta dificuldades para comprar seringas para a campanha. Uma licitação realizada pela pasta da Saúde em 29 de dezembro só conseguiu garantir 2,4% (7,9 milhões de seringas) do total almejado, de 331,2 milhões de unidades.

    De acordo com o Plano Nacional de Imunização apresentado pelo governo, a primeira fase será da vacinação de grupos específicos: trabalhadores da saúde, idosos, pessoas com comorbidades, profissionais de segurança, indígenas e quilombolas.

    Até terça-feira (29), quatro países da América Latina já haviam começado a imunizar suas populações contra a covid-19: Argentina, Costa Rica, México e Chile. No mundo todo, mais de 40 países já deram início a suas campanhas de vacinação.

    O presidente Jair Bolsonaro repetidamente tem questionado a segurança da vacina, afirmando que tomá-la é uma escolha individual. A porcentagem de brasileiros que não pretendem se imunizar caiu de 89% para 73% entre agosto e dezembro de 2020. Segundo especialistas, é necessário um nível de cobertura vacinal de 75% para que a sociedade atinja um nível de imunização que permita retornar a uma vida normal.

    As contínuas incertezas sobre o vírus

    O fim do ano de 2020 também presenciou o surgimento de novas cepas do Sars-Cov-2. No Reino Unido, uma variante “70% mais transmissível” chamada B.1.1.7 foi anunciada pelo governo em 19 de dezembro. Vários países passaram a restringir voos vindos do território britânico. Mas a nova cepa já foi detectada em diversos outros lugares, entre eles o Brasil, segundo exames divulgados no último dia de 2020.

    Fabricantes de vacinas, incluindo a AstraZeneca, a BioNTech e a Moderna, afirmaram à imprensa que esperam que seus imunizantes funcionem contra a variante do Reino Unido.

    Em 2021, deve avançar também a compreensão a respeito da reinfecção pela covid-19, até agora uma ocorrência rara. De acordo com o Ministério da Saúde, até 21 de dezembro havia dois casos de reinfecção confirmados no Brasil e 58 em análise.

    Será possível também ter melhores avaliações sobre os efeitos de longo prazo da covid-19, tanto a respeito de sequelas como a ocorrência continuada de sintomas, como fadiga, dores e tosse, no que foi chamado de “covid persistente” .

    Uma análise sobre as perspectivas para 2021

    Mesmo com mais informações e a chegada da vacina, a possibilidade de uma “vida normal” ainda está distante, segundo profissionais de saúde e cientistas. Protocolos como uso de máscaras e distanciamento social, entre outros cuidados, ainda devem fazer parte do cotidiano da população em 2021.

    É o que afirma Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). O Nexo conversou com ele sobre o que esperar para o novo ano em relação à pandemia, imunização e protocolos.

    Em termos da pandemia, como 2021 pode ser diferente de 2020? Existe perspectiva de melhora para o Brasil?

    PAULO LOTUFO Sim, porque já temos mais estrutura instalada e a vacina virá. Mas o impacto poderia ter sido muito menor se o distanciamento social não tivesse sido relaxado prematuramente.

    Quais podem ser as consequências para a saúde pública brasileira se demorarmos para começar a vacinação no país?

    PAULO LOTUFO A demora é menos importante do que a velocidade e a amplitude da imunização. Esses dois fatores são fundamentais. Melhor começar um mês depois [que outros países], mas atingindo muita gente em vários locais, a começar antes e, ficar “pipocando”.

    Pesquisas registram um crescimento no número de pessoas que não querem tomar vacina. Existe risco de que a imunização contra covid-19 no país seja comprometida?

    PAULO LOTUFO Nenhum risco. Esses dados são enviesados politicamente. O grosso da população quer ser vacinado, inclusive os bolsonaristas, que afirmam uma coisa publicamente e farão outra “no armário”.

    Mesmo se o país demorar com a vacinação, existe possibilidade da doença arrefecer no ano que vem? O que poderia levar a isso?

    PAULO LOTUFO Não há como prever isso, visto que há duas variáveis que ainda desconhecemos: mutação do vírus e reinfecção. Os dois fenômenos, mutação que o tornaria mais transmissível e a segunda infecção em uma mesma pessoa, ainda são recentes para permitir alguma conclusão sobre o desfecho da pandemia. Porém, ambas as situações, mutação e reinfecção, podem ser contidas pelas medidas de distanciamento social.

    Se parte significativa da população conseguir se imunizar em 2021, algo muda com relação aos cuidados na pandemia?

    PAULO LOTUFO Não deveríamos alterar muitos protocolos. As aglomerações precisarão ser evitadas, os ambientes mais ventilados e o uso de máscara deverá ser mais frequente com já ocorre no Oriente há muito tempo. Lá quem dá dois espirros sai de casa com máscara. No entanto, será muito difícil manter esses protocolos, pois o determinante maior é a orientação política, que é negacionista.

    Boa parte da população brasileira se recusa a restringir suas atividades e a circulação, muito menos a encarar um lockdown. Quais as consequências desse comportamento que podemos esperar em 2021?

    PAULO LOTUFO Ainda há uma grande parte da população aceitando as recomendações das autoridades sanitárias, mesmo quando confusas e contraditórias. No entanto, o comportamento de uma minoria já está causando aumento na incidência de casos e de mortes. Isso tenderá a piorar, se não houver ações mais radicais.

    Em 2021, haverá um esforço maior para retomar aulas presenciais nas escolas. Qual deve ser o impacto dessa volta na pandemia?

    PAULO LOTUFO Será fundamental o retorno às atividades escolares presenciais. O preço disso será reduzir os riscos de contágio existentes em outras atividades, como restaurantes, academias de ginástica e cultos religiosos.

    Há quem defenda, inclusive o presidente Jair Bolsonaro, que se infectar é a melhor estratégia de imunização contra a covid-19. Como vê esse discurso?

    PAULO LOTUFO Esse é o discurso criminoso da imunidade de rebanho levantado não somente por Bolsonaro mas por “opinionistas” travestidos de cientistas e por jornalistas na grande imprensa. Criminoso porque, caso fosse seguida, implicaria muitas mortes, aproximadamente de 5 a 7 vezes o que já temos, ou seja entre um milhão e um milhão e meio de mortes.

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