Qual o estado da vacinação contra a covid na América Latina

Argentina se tornou o quarto país a imunizar a população, enquanto região lida com altos índices de casos e mortes pela doença 

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    Com o início da vacinação na Argentina na terça-feira (29), quatro países da América Latina já começaram a imunizar suas populações contra a covid-19. Outros têm planos concretos de começar campanhas nos primeiros meses de 2021, e alguns ainda nem fecharam acordos com produtores das substâncias.

    No Brasil, maior nação da região, o Ministério da Saúde tem falado em iniciar a campanha em janeiro ou fevereiro, mas ainda aguarda os resultados de testes ou negocia com laboratórios por doses de imunizantes em estágio mais avançado. No mundo todo, mais de 40 países já começaram suas campanhas de vacinação contra a covid-19.

    Uma das regiões mais atingidas pela pandemia, a América Latina e o Caribe somam mais de meio milhão de mortes pelo novo coronavírus e cerca de 15 milhões de infectados.

    Os países que já estão vacinando

    Na Argentina, a primeira fase da campanha de vacinação, que começou na terça-feira (29), tem como prioridade os funcionários do sistema de saúde dos grandes centros urbanos. O país recebeu 300 mil doses da Sputnik V, vacina russa do Instituto Gamaleya.

    A Sputnik V é composta de duas injeções e a segunda dose precisa ser feita 21 dias depois da primeira. A Argentina, que já registrou quase 25 mil mortes causadas pelo novo coronavírus até terça (29), fez um acordo para adquirir 25 milhões de doses do imunizante. O governo do presidente Alberto Fernández espera poder imunizar 10 milhões de pessoas até fevereiro —13 milhões de argentinos compõem os grupos de maior risco do país.

    Os primeiros países da América Latina a começarem a vacinação foram México, Chile e Costa Rica, que começaram suas campanhas em 14 de dezembro. Os três receberam imunizantes da Pfizer/BioNTech, a primeira no mundo a concluir a fase final de testes, em novembro.

    A Costa Rica começou a vacinação por idosos que vivem em casas de repouso. Já o Chile e o México fizeram como a Argentina e começaram a imunização pelos profissionais de saúde. O governo chileno espera vacinar 80% da população no primeiro semestre de 2021.

    O México é o quinto país do mundo com o maior número de óbitos por covid-19: foram 120 mil mortos. Nesse ranking, o país só fica atrás dos Estados Unidos, do Brasil, da Rússia e da Índia.

    Os países que devem começar nos próximos meses

    Os próximos da fila da imunização são Equador e Colômbia. Ambos devem começar as campanhas nas primeiras semanas de 2021.

    O planejamento do governo equatoriano para a distribuição do imunizante está adiantado e prevê 10 mil postos de vacinação no país, que já aprovou a vacina da Pfizer/BioNTech. As primeiras 50 mil doses estão previstas para chegar em janeiro.

    Idosos em abrigos e profissionais de saúde serão os primeiros a receber o imunizante. A vacinação em massa no país, que no início da pandemia enfrentou o colapso do sistema funerário, deve começar em março.

    A Colômbia, que registrou mais de 40 mil mortes pelo novo coronavírus até terça-feira (29), possui um plano de vacinação que prioriza os colombianos e exclui venezuelanos em situação imigratória irregular — população composta de cerca de meio milhão de pessoas.

    O primeiro trimestre de 2021 também deve ser o momento em que a Venezuela começará a vacinação. O governo do país afirma que deve receber 10 milhões de doses da Sputnik V nos primeiros meses do ano.

    As idas e vindas do Brasil

    Maior país da América Latina, o Brasil pode começar a vacinação da população entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2021, segundo afirmou o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, na terça-feira (29).

    O plano nacional, apresentado pelo governo em meados de dezembro, coloca como necessidade a aprovação de vacinas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para que uma data seja definida. Até agora, nenhum imunizante foi aprovado. Trabalhadores de saúde e idosos devem ter prioridade.

    A principal aposta do governo é o imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, que ainda não teve os testes concluídos. No dia 22 de dezembro, Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz, afirmou que a previsão é que a Fundação entregue o primeiro lote de 1 milhão de doses da vacina de Oxford na semana de 8 a 12 de fevereiro.

    No plano nacional de vacinação, o governo federal também prevê a intenção de compra de outras vacinas, como 46 milhões de doses da Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, ligado ao governo paulista.

    A divulgação dos resultados dos ensaios clínicos dessa vacina foi adiada pela quarta vez em 23 de dezembro. A prorrogação pode atrapalhar a previsão dada pelo governador de São Paulo, João Doria, no início de dezembro, de que a vacinação estadual começaria em 25 de janeiro. A Coronavac é uma aposta do governo paulista, que já recebeu 11 milhões de doses da vacina. A conclusão da análise dos dados de eficácia do imunizante deve sair no dia 7 de janeiro, segundo o Instituto Butantan.

    O plano nacional também prevê a compra de doses da vacina da Pfizer/BioNTech, mas o governo Bolsonaro entrou tarde nas negociações com o laboratório. Agora, tenta garantir de última hora pelo menos um lote inicial de 2 milhões de doses da empresa americana, mas ainda não concluiu a negociação.

    Na segunda-feira (28), em conversa com apoiadores em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que os laboratórios que estão desenvolvendo as vacinas deveriam estar interessados em vender os produtos para o país. “Pessoal diz que eu tenho que ir atrás. Não, se eu sou vendedor, eu quero apresentar”.

    A Pfizer divulgou uma nota no mesmo dia em que afirma que não irá pedir autorização de uso emergencial da sua vacina no Brasil por enquanto. A empresa americana afirmou que a Anvisa tem exigências que fazem o processo levar mais tempo e que por isso está seguindo o processo de submissão contínua, em que envia documentos aos poucos. Depois de críticas, a agência federal mudou seus critérios para pedido emergencial na terça-feira (29).

    Para especialistas, a vacinação nacional pode demorar a começar no Brasil. Segundo a pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcomo, o país não fez negociações no tempo certo. “A Anvisa só pode registrar um produto que tenha registro em seu país de origem e nenhuma das duas avançadas no Brasil, que são a da Sinovac e da AstraZeneca, têm”, afirmou Dalcomo em entrevista à CNN na sexta-feira (25).

    Outros países em que a vacinação é incerta

    Outros países latino-americanos estão em situações incertas. Entre eles, Cuba ainda está na etapa de testes de seus próprios imunizantes, a Soberana01 e a Soberana02. O país, que registrou 143 mortes pelo novo coronavírus, pretende começar as campanhas de vacinação no primeiro semestre de 2021.

    A aposta do país é a Soberana02, que mostrou uma resposta imunológica precoce. Os testes dessa vacina ainda vão passar pela fase dois em janeiro. Isso significa que, no próximo mês, mil voluntários serão vacinados “para posteriormente, após as avaliações e autorizações exigidas, entrar na fase três”, segundo afirmou o diretor do IFV (Instituto Finlay de Vacinas) de Cuba, Vicente Vérez Bencomo, ao jornal oficial Granma na terça (29).

    O Uruguai, que enfrenta um aumento de casos de infecções pelo novo coronavírus desde novembro, ainda não anunciou contratos com laboratórios farmacêuticos. O país tinha sido considerado bem-sucedido no rastreio de casos e na contenção da doença. Desde março, o Uruguai soma 17.306 infecções e 160 mortes, números muito inferiores aos de seus vizinhos.

    “A segunda onda do mundo é a nossa primeira onda”, afirmou o presidente do país, Luis Lacalle Pou, ao decretar o fechamento das fronteiras uruguaias para conter o “crescimento exponencial” do número de casos em 17 de dezembro.

    A Bolívia e o Peru também ainda não fecharam acordos com empresas para comprar vacinas e não têm data para começar a imunização.

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