Quais os efeitos do acúmulo de vacinas em países ricos

Canadá comprou doses suficientes para vacinar até seis vezes cada um de seus habitantes e já discute a doação de imunizantes para não ter que jogar vacinas vencidas contra a covid-19 no lixo

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Com mais de 60 vacinas experimentais contra a covid-19 sendo testadas em humanos ao redor do mundo, muitos países se adiantaram e fecharam acordos de compra com os laboratórios para garantir a imunização de suas populações mesmo sem a garantia de eficácia dos produtos. Algumas nações compraram tantas doses que conseguiriam vacinar até seis vezes cada um de seus habitantes. Quase todos os imunizantes em desenvolvimento requerem a aplicação de duas doses.

A corrida por uma vacina capaz de barrar a pandemia do novo coronavírus — e possivelmente fazer a economia voltar aos patamares anteriores à crise sanitária — tem levado a uma concentração de imunizantes em países ricos, em prejuízo aos mais pobres.

Segundo uma estimativa publicada pela revista Nature no final de novembro, todos os 27 países da União Europeia somados a outros cinco países ricos já haviam encomendado metade de todas as principais vacinas a serem produzidas em 2021. Essas nações respondem por apenas 13% da população mundial.

“Os países com as maiores rendas entraram na frente na fila e limparam as prateleiras”, afirmou ao jornal The New York Times a pesquisadora da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Andrea Taylor, que tem analisado o tema.

O Canadá, por exemplo, fechou acordo com sete laboratórios e garantiu pouco mais de seis doses para cada habitante (com a possibilidade de chegar a oito). Depois dele, entre os países que já compraram doses suficientes, vêm Estados Unidos e Reino Unido (ambos com mais de quatro doses per capita), União Europeia (pouco mais de duas doses e meia), Austrália e Chile (com mais de duas doses).

O Brasil, com 211 milhões de habitantes, não alcançou ainda as duas doses per capita necessárias. O país apostou na vacina da Universidade de Oxford em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca e no consórcio Covax Facility. Paralelamente aos acordos do governo federal, o estado de São Paulo decidiu comprar a vacina Coronavac, da empresa chinesa Sinovac, com a possibilidade de produzi-la no Instituto Butantan.

O Ministério da Saúde citou em seu plano de vacinação a garantia de 350 milhões de doses, número insuficiente para toda a população. Seriam necessárias mais de 422 milhões de doses, sem considerar as perdas comuns, que podem variar de 10% a 20%.

A situação em relação às vacinas é semelhante à que ocorreu no início da pandemia, em março, quando os países correram para comprar respiradores, máscaras, luvas e outros equipamentos de proteção.

Em abril, várias nações, incluindo o Brasil, acusaram os Estados Unidos de desviar equipamentos de proteção contra o coronavírus, o que o país negou. No mesmo mês, o presidente Donald Trump quis impedir que empresas americanas exportassem máscaras para a América Latina e o Canadá, para garantir o abastecimento doméstico. A disputa por insumos entre Estados Unidos e Europa, na época, acabou deixando os demais países à margem, sem possibilidade de compras.

Vacinas para poucos

A concentração de vacinas para os países ricos é grave porque o mundo não terá em 2021 a quantidade necessária de imunizantes para vacinar toda a população, segundo estimativa dos próprios laboratórios.

O número de vacinas produzidas no próximo ano deve atender pouco mais de um terço dos habitantes do planeta — a população total estimada é de cerca de 7,8 bilhões. Segundo o Centro de Inovação para a Saúde Global da Universidade Duke, países pobres provavelmente teriam que esperar até 2023 e 2024 para imunizar toda a sua população. Até o final de 2020, o novo coronavírus tinha infectado mais de 77 milhões de pessoas e matado mais de 1,7 milhão.

5,3 bilhões

é a estimativa de doses produzidas em 2021 pelos laboratórios AstraZeneca, Pfizer e Moderna

Para garantir que países pobres consigam imunizar ao menos 20% de seus habitantes em 2021 foram lançadas iniciativas como o consórcio Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), do qual o Brasil faz parte. Mais de 189 países aderiram ao programa, que garante acesso a ao menos nove opções de imunizantes. A previsão é distribuir 2 bilhões de doses até o final de 2021.

O que fazer com as doses extras

As vacinas não podem ser guardadas por muito tempo. A da Pfizer, por exemplo, que já começou a ser usada em países mais ricos, precisa ser armazenada a -75ºC, temperatura na qual dura por até seis meses. A empresa desenvolveu uma embalagem que permite sua manutenção à base de gelo seco, mas, mesmo nesses frascos, o prazo de validade é de 30 dias. Em refrigeradores comuns, elas se perdem após cinco dias.

Para não perder os imunizantes, os países deverão doar as doses extras para os vizinhos ou para o próprio consórcio Covax Facility. O Canadá, por exemplo, comprou 414 milhões de doses de sete laboratórios para atender uma população de 38 milhões de pessoas. O governo já discute a doação para o consórcio com medo de ter que jogar doses vencidas no lixo.

A Nova Zelândia fechou acordos para cerca de 15 milhões de doses, quase três vezes sua população. “Caso se provem seguras e eficazes por nossa agência reguladora, as vacinas vão propiciar ampla cobertura da população da Nova Zelândia e de nossos vizinhos do Pacífico”, afirmou a primeira-ministra Jacinda Ardern, em nota do governo.

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