Os dados que mostram que a covid-19 é muito mais que uma gripe

Pesquisa com base em quase 90 mil internações na França mostrou que o novo coronavírus matou três vezes mais do que os vírus influenza que circulam anualmente

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Durante a pandemia do novo coronavírus, líderes de governos populistas compararam a covid-19 à gripe comum para sugerir que a nova doença respiratória não era tão grave como os números mostravam. Baseada em desinformação, a estratégia foi adotada por presidentes que ignoram evidências científicas como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Os Estados Unidos e o Brasil são os dois países com os maiores números de mortes pela infecção no mundo.

Em outubro, o Facebook chegou a apagar uma publicação de Trump por violar as regras do site. Nela, o presidente americano dizia que a temporada da gripe estava chegando aos Estados Unidos. Segundo ele, a doença “mata mais de 100 mil pessoas a cada ano, apesar da vacina”. “Vamos fechar o nosso país?”, questionava. “Não, aprendemos a conviver com isso, assim como estamos aprendendo a conviver com a covid, na maioria das populações muito menos letal!!!”, escreveu.

O dado era falso por dois motivos: a gripe sazonal nunca ultrapassou 100 mil mortes na última década e não é mais letal que o novo coronavírus. Até segunda-feira (21), 317.684 pessoas tinham morrido nos Estados Unidos por complicações decorrentes da covid-19.

No Brasil, Bolsonaro chamou a pandemia de “histeria” e classificou a covid-19 como uma gripezinha” ou “resfriadinhoque não teria grandes efeitos em sua saúde devido ao seu “histórico de atleta”.

Um estudo de pesquisadores franceses feito a partir da análise de 89.530 pacientes hospitalizados na França com covid-19 (em março e abril de 2020) e outros 45.819 com influenza (entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019) desmonta a tese de que a covid-19 é comparável à gripe comum. Ela é três vezes mais letal. O trabalho foi publicado na revista científica The Lancet Respiratory Medicine, em 17 de dezembro.

O vírus influenza circula todos os anos e se apresenta em três tipos: A, B e C. O C não é relacionado a epidemias por causar infecções respiratórias brandas, sem impacto na saúde pública. Os que predominam são a influenza A, com os subtipos H1N1 e H3N2, e a influenza B. O estudo comparou a covid-19 e a influenza sem distinguir quais os subtipos de vírus responsáveis pela gripe sazonal.

Em comunicado, a pesquisadora Catherine Quantin, uma das autoras do estudo, afirmou que a pesquisa é a maior já feita para comparar as duas doenças e mostra que a covid-19 “é muito mais séria do que a gripe”. “A descoberta de que a taxa de mortalidade da covid-19 foi três vezes maior do que a da gripe sazonal é particularmente impressionante quando lembramos que a temporada de gripe 2018/2019 foi a pior nos últimos cinco anos na França em termos de número de mortes”, disse.

76.928.774

era o número de pessoas em todo o mundo infectadas pelo novo coronavírus até a segunda-feira (21), segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos

1.695.307

pessoas morreram por covid-19 até a mesma data, segundo a instituição

Os dados do estudo

Taxa de mortalidade

A proporção de mortos entre os pacientes internados com covid-19 observada pelo estudo foi de 16,9%, enquanto a mesma taxa entre doentes com influenza hospitalizados ficou em 5,8%. A covid-19 mata três vezes mais que a gripe comum. O estudo calculou a taxa de letalidade apenas entre os internados para fazer a comparação. Outra taxa usada por governos e pesquisadores é a de mortes ocorridas dentro de um universo de casos de infecção confirmadas, o que pode incluir mortes de pessoas que não passaram pelo hospital.

Tempo na UTI

Uma pessoa infectada pelo novo coronavírus passou em média quase o dobro de dias recebendo tratamento em Unidades de Terapia Intensiva do que doentes com influenza. A média entre internados com covid-19 foi de 15 dias, contra oito de pacientes com gripe comum. Isso se deve às maiores chances de infectados pelo novo vírus terem disfunções respiratórias, embolia pulmonar, choque séptico e derrames.

Gravidade em crianças

Se por um lado a gripe comum é responsável por quase 14 vezes mais internações de pessoas com menos de 18 anos, pacientes com covid-19 da mesma faixa etária têm muito mais chances de desenvolver quadros graves da doença. A taxa de crianças com menos de cinco anos internadas em UTIs pela covid-19 foi de 2,3% contra apenas 0,9% em crianças com gripe da mesma idade. Já a taxa de mortalidade entre crianças e jovens de 11 a 17 anos foi dez vezes maior do que entre pessoas da mesma faixa etária internadas com influenza.

Risco de intubação

Infectados pelo novo coronavírus que são internados com a doença têm o dobro de chances de serem intubados (9,7%, contra 4,0% da influenza). Já entre as pessoas que receberam tratamento em UTIs, a taxa de doentes que precisavam de ventilação mecânica foi 71,5% contra 61% dos pacientes com influenza. Quem é diagnosticado com covid-19 também apresentou maiores riscos de entrar em falência respiratória aguda: 27% contra 17% entre quem tinha gripe comum.

Grupos de risco

O estudo identificou ainda que, entre os pacientes com covid-19, havia mais pessoas com quadros de obesidade (9,6% contra 5,4% entre doentes com gripe), sobrepeso (11,3% contra 6,1%), diabetes (19% contra 16%), hipertensão (33,1% contra 28,2%) e dislipidemia (aumento do colesterol; 5% ante 4,5%). Já entre os pacientes com influenza, a frequência de pessoas que tiveram insuficiência cardíaca, doenças respiratórias crônicas, cirrose e anemia foi maior.

Outros dados para além do estudo francês

Ao comentar o estudo, o editor-chefe da revista científica da Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas, Eskild Petersen, disse que os resultados da pesquisa “mostram claramente que a covid-19 é muito mais séria do que uma gripe sazonal”. E lembra de outros dados, como a taxa de ocupação de leitos de hospitais durante a pandemia de 2009 do H1N1, um subtipo de vírus influenza.

Na Dinamarca, por exemplo, a taxa máxima de ocupação de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) por pacientes com influenza durante a pandemia de H1N1 foi de 4,5%. No caso da covid-19, o país viu os leitos de terapia intensiva se esgotarem em abril, com a necessidade de abrir novas vagas, o que foi rapidamente feito.

A proporção de mortos pela população observada pelo mundo também indica haver uma grande diferença entre as duas doenças. Durante a primavera na Europa (de março a junho), a mortalidade pela covid-19 na região da Lombardia, uma das mais afetadas na Itália, chegou a 159 por 100 mil habitantes. Em 2009, as mortes por H1N1 nos Estados Unidos, por exemplo, foi de apenas 4,1 por 100 mil habitantes. O vírus apareceu, originalmente, no México e nos Estados Unidos.

O novo coronavírus também se transmite com muito mais facilidade. Estima-se que um doente com covid-19 possa infectar até outras três pessoas caso nenhuma medida seja tomada para prevenir a doença. Já com o H1N1, esse número cai para algo entre 1,2 e 1,6, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Outro fato que demonstra que a covid-19 é muito mais grave do que a influenza foi que a explosão de casos do seu subtipo H1N1 (vírus que também é transmitido por meio de secreções respiratórias) foi considerada a primeira pandemia do século 21, atingiu mais de 200 países entre 2009 e 2010, mas não colocou nações inteiras em quarentenas nem paralisou atividades econômicas como o novo coronavírus em 2020.

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