O que se sabe sobre a nova variante do coronavírus

Mutação do Sars-Cov-2, detectada no Reino Unido, pode ser mais contagiosa que suas versões anteriores, mas não mais letal

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O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou no sábado (19) a descoberta de uma variante do Sars-CoV-2 “70% mais transmissível” que a versão anterior do vírus que matou mais de 1,6 milhão de pessoas em todo o mundo até a data.

Os casos de covid-19 quase dobraram em Londres na segunda semana de dezembro e pelo menos 60% desses novos casos de contaminação estão ligados a essa variável do vírus – que tem sido nomeada como N501, N501Y e B.1.1.7.

O premiê britânico impôs um confinamento ainda mais rigoroso sobre Londres e grande parte do sudeste do país – o mais radical desde o início da pandemia, em março –, na tentativa de conter a disseminação dessa nova variável da doença.

“Quando o vírus muda seu método de ataque, temos de mudar nosso método de defesa”, disse Johnson. “Temos de agir com as informações de que dispomos porque isso está se espalhando muito rapidamente.”

O anúncio do premiê esfriou o clima de esperança e euforia provocado pelo início da vacinação contra a covid-19. No dia 8 de dezembro, o Reino Unido foi o primeiro país do mundo a iniciar a vacinação de seus cidadãos. Médicos dizem, entretanto, que as vacinas já criadas seguem sendo eficazes contra a nova linhagem do vírus.

O que se sabe até aqui

A primeira vez que se teve notícia da existência dessa variável do vírus foi em setembro. É certo que ela é mais infecciosa que sua versão anterior – em dois meses, tornou-se responsável pela maioria das infecções em Londres –, mas acredita-se que ela não seja mais letal ou mais resistente às vacinas já desenvolvidas. Entretanto, como a descoberta ainda é recente, outras informações podem surgir.

O percentual de 70% de infecção foi citado pelo premiê britânico com base em estudos divulgados pelo pesquisador Erik Volz, do Imperial College de Londres, em exposição feita no dia anterior, sexta-feira (18).

Ao citar esse dado, Volz reconheceu que “ainda é muito cedo para dizer” qual o percentual exato de transmissibilidade. Outros pesquisadores, como Jonathan Ball, professor da Universidade de Nottingham, dizem que “a quantidade de evidências em domínio público é inadequada para chegar a conclusões firmes sobre se o vírus realmente aumentou sua transmissibilidade”.

O jornal britânico The Guardian cita pelo menos dois pesquisadores – o virologista alemão Christian Drosten e o francês Vincent Enouf, do Instituto Pasteur – que dizem que não é possível ainda culpar a nova variável do vírus pela explosão de casos. De acordo com eles, esta pode ser apenas mais uma mutação como muitas outras, e seu espalhamento acelerado pode estar ligado apenas ao fato de que coincidiu com a aceleração da segunda onda.

Por causa dessas incertezas, a decisão de endurecer o confinamento foi anunciada como uma medida de precaução diante de uma mutação que ninguém ainda sabe dizer ao certo qual seu alcance e suas características.

Não é possível saber sequer onde essa mutação se originou. Ela pode ter brotado no Reino Unido, ou pode ter sido importada de algum outro país. Itália, Dinamarca, Austrália e África do Sul também detectaram mutações semelhantes, mas, aparentemente, em menor escala.

Desde a primeira vez que foi detectado, na China, em 2019, o novo coronavírus passou por entre uma ou duas mutações por mês, todos os meses. A variável prevalente hoje não é a mesma do início da pandemia. Esse fenômeno é esperado e comum em vírus desse tipo.

Qual a mutação em questão

Neste caso específico, a mutação ocorre na proteína que é chamada pelos pesquisadores de “spike”. Essa partícula é comparada a uma chave por meio da qual o vírus consegue abrir o sistema imunológico e entrar no corpo humano.

A mutação em questão altera a parte mais importante do “spike”, chamada “domínio de ligação ao receptor”, que é o primeiro ponto de contato do vírus com a superfície das células do corpo humano.

Alterações ocorrem normalmente com o vírus da gripe sazonal. Por isso, as vacinas contra esse tipo comum de gripe são frequentemente atualizadas. No caso do novo coronavírus, os pesquisadores acreditam que as vacinas desenvolvidas até agora sejam válidas para todas as variáveis, mas é possível que elas também precisem ser atualizadas.

Isolamento britânico

Até segunda-feira (21), pelo menos 18 países tinham anunciado a proibição de entrada de cidadãos britânicos em seus territórios. A decisão mais impactante foi a da França, país que está do lado oposto do Canal da Mancha, e faz a ligação rodoviária e ferroviária entre a Grã-Bretanha e o continente.

Politicamente, o isolamento britânico acentua ainda mais a sensação de descolamento do país em relação ao bloco europeu, do qual o Reino Unido terá de se desligar definitivamente na virada do ano, concretizando o chamado Brexit – processo de cisão iniciado em 23 de junho de 2016, após plebiscito sobre o tema.

Ao longo de 2020, o governo britânico sofreu seguidas derrotas em tentativas de manter acordos privilegiados e vantajosos com o bloco europeu. A frustração de uma separação litigiosa é ainda maior agora, com o isolamento sanitário imposto aos britânicos por seus ex-parceiros no continente.

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