O novo pacote dos EUA para estimular a economia na crise

Após meses de negociação, Congresso aprova mais medidas para minimizar os impactos da pandemia. Ações devem somar US$ 900 bilhões

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    O Congresso americano aprovou na segunda-feira (21) um novo pacote para estimular a economia em meio à pandemia do novo coronavírus. Após o aval dos parlamentares, o texto segue para sanção do presidente Donald Trump.

    O acordo para aprovação havia sido anunciado no Twitter no dia anterior pelo líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell.

    O senador disse que o povo americano “não estará sozinho” no enfrentamento do coronavírus no final de 2020. “Mais ajuda está a caminho”, disse McConnell.

    O novo pacote de estímulos está em discussão em Washington desde o início do segundo semestre. As conversas entre republicanos e democratas chegaram a avançar em outubro, mas esfriaram com a resistência de Donald Trump e a proximidade das eleições presidenciais.

    No início de novembro, o presidente foi derrotado nas urnas pelo democrata Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama (2009 a 2016). Trump contesta os resultados, sem apresentar provas de fraude eleitoral.

    O acordo anunciado no domingo (21), que precisou de meses para ser costurado, recebeu a “bênçãotanto de Trump como de Biden.

    Quais as novas medidas de socorro

    O novo pacote de socorro aprovado pelo Congresso coloca centenas de bilhões de dólares dos cofres do governo federal à disposição de famílias e empresas.

    US$ 900 bilhões

    é o tamanho do pacote. Pela cotação de 21 de dezembro, o valor equivale a R$ 4,59 trilhões

    Os recursos serão encaminhados para algumas frentes diferentes. A primeira é o pagamento direto em parcela única de US$ 600 para pessoas com renda anual de até US$ 75 mil (R$ 382 mil). Casais com renda anual conjunta menor que US$ 150 mil têm direito a receber o dobro desse valor, e mais US$ 600 para cada filho. Ao todo, essa parte do programa de estímulos deve custar em torno de US$ 166 bilhões.

    Outra medida do novo acordo é a prorrogação da ampliação dos benefícios para desempregados. Isso inclui o aumento do valor do seguro-desemprego – que é pago semanalmente nos EUA – em US$ 300 até março. Os benefícios também serão estendidos para freelancers e pessoas que trabalham por conta própria, como motoristas de aplicativos de transporte. O custo dessa expansão deve ser de US$ 120 bilhões.

    As empresas também receberão apoio no novo pacote de socorro, mas não necessariamente com transferências diretas. Os pequenos negócios ficarão com uma fatia de US$ 325 bilhões, sendo que a maior parcela virá na forma de empréstimos concedidos em condições favoráveis. Outra parte menor desse dinheiro é voltada especificamente para pequenos estabelecimentos culturais, que receberão US$ 15 bilhões em subsídios – recursos que não precisarão ser devolvidos.

    Conforme apurou o jornal americano The Wall Street Journal, o texto prevê que o restante do dinheiro tenha como destinos a ajuda financeira para escolas e uma parcela para bancar a compra de vacinas e testes de diagnóstico da covid-19.

    O primeiro pacote de março

    O novo estímulo aprovado pelo Congresso americano é praticamente uma versão reduzida do texto aprovado em março, no início da pandemia. De toda forma, o acordo de dezembro prevê uma injeção de “dinheiro novo” na economia, parte como transferência de renda, parte como novos gastos do governo e parte como crédito para empresas. Os US$ 900 bilhões ficam bem abaixo do valor total do primeiro conjunto de medidas, que somava US$ 2,2 trilhões – em torno de R$ 11,2 trilhões, pela cotação do dólar em 21 de dezembro.

    O pacote de março determinou, por exemplo, a expansão dos benefícios para desempregados em US$ 600. Além disso, famílias com renda anual de até US$ 75 mil receberam US$ 1.200 em transferência direta do governo federal. No pacote de dezembro, os dois valores foram reduzidos pela metade. Além disso, o dinheiro colocado à disposição para empresas é consideravelmente menor no texto aprovado no final do ano.

    No geral, a aprovação do novo estímulo é bem avaliada por economistas americanos. Mas o entendimento é que tanto pelo tamanho reduzido como pela demora para se chegar a um acordo, as medidas não devem levar a um reerguimento robusto da economia americana. A palavra mais usada para descrever o pacote é “alívio”.

    A economia dos EUA na virada do ano

    O acordo pelo novo pacote foi alcançado em meio a uma nova desaceleração da economia americana. O fluxo de boa parte dos benefícios do primeiro pacote voltados para a população desempregada foi interrompido no final de julho. Os efeitos do primeiro conjunto de medidas se dissiparam em maior parte ao longo do segundo semestre.

    Além disso, a pandemia vem avançando a ritmos acelerados nos EUA. Na segunda metade de dezembro, o país registra uma média de mais de 200 mil casos diários, com cerca de 2.600 mortes diárias pela covid-19. Os números são os maiores para os EUA desde o início da pandemia.

    Nesse contexto, a economia americana dá sinais negativos na virada para 2021. O mercado de trabalho, que havia conseguido estancar as perdas após os primeiros momentos da crise sanitária, voltou a registrar crescimento das demissões. As vendas de varejo, que tinham retornado ao nível pré-pandemia no terceiro trimestre, tiveram queda em outubro e novembro, sinalizando um fôlego mais curto da economia americana no final de 2020. A ideia é que o novo pacote de estímulos sirva como transição para uma recuperação puxada pela vacinação. Os EUA começaram a imunizar a população em meados de dezembro.

    O paralelo Brasil-EUA

    Se nos EUA o Congresso chegou a um acordo para um novo pacote de estímulos – que inclui transferência de renda para a população –, no Brasil os gastos públicos federais devem sofrer forte retração na virada de 2020 para 2021.

    A calamidade pública e o orçamento de guerra, que permitiram que o governo expandisse as despesas em meio à pandemia, estão marcados para serem encerrados em 31 de dezembro de 2020. A possibilidade de prorrogação do regime especial de gastos chegou a ser discutida em Brasília, mas foi rejeitada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

    Com isso, o auxílio emergencial articulado pelo Congresso, que se tornou a principal política de apoio à população na crise, deve ser encerrado na virada do ano. O benefício chegou a 67 milhões de brasileiros ao longo da pandemia e ajudou a reduzir a pobreza mesmo em um ano de forte recessão econômica.

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